quinta-feira, 16 de julho de 2009

O fascínio das Kasbahs


Marrocos é um importante destino turístico, por natureza. É um destino exótico mesmo às portas da Europa, muito diferente na sua cultura, hábitos de vida, paisagem. No entanto, embora de religião muçulmana, é suficientemente tolerante em termos religiosos para qualquer europeu se sentir perfeitamente seguro. Por isto tudo, não admira que se vejam tantos turistas em Marrocos.
A maioria dos turistas, porém, fica-se pelas cidades do norte de Marrocos, Tânger, Fez, Marraqueche. Visitam as medinas, perdem-se nos mercados e bazares, e regressam carregados de malas e tapetes, tambores e pífaros, chinelas e djelabahs. Fiz exactamente isso na minha primeira viagem a Marrocos, já lá vão 20 anos. Em 2007, voltei a Marrocos numa viagem que me levou para sul das montanhas do Alto Atlas. E encontrei uma região completamente diferente e fascinante. Ainda não é a África negra, subsariana, mas também não é a África da costa mediterrânica. É a região das kasbahs.

Aït Benhadou
Esta região começa logo a sul do Alto Atlas, onde as montanhas e o deserto se começam a encontrar. O deserto rochoso é pontuado por oásis cheios de tamareiras. Há desfiladeiros e wadis (rios que secam no verão) até à orla do deserto do Sara. A luz é muito intensa e as cores adquirem um brilho e uma intensidade de grande riqueza.
A kasbah era uma residência fortificada, que funcionava como um castelo. São edifícios majestosos, ladeados por altas torres, que servem de local de habitação, mas também de refúgio para pessoas e animais. Os tijolos são feitos de argila misturada com água e palha triturada, e secos ao sol.
Ouarzazate é a cidade mais importante da região. Era uma antiga guarnição da Legião Estrangeira francesa e hoje é uma cidade tranquila, onde podemos tomar um chá de menta numa das agradáveis esplanadas da praça principal, sem qualquer receio. Aí se pode encontrar uma das mais belas kasbahs desta zona, a kasbah Taourirt, datada do século XVIII. Está ainda a ser restaurada, mas é um edifício de uma beleza extraordinária. Ao longo das estradas, ou no alto dos desfiladeiros, podemos ver vários destes imponentes edifícios. Alguns estão transformados em reataurantes, outros em hotéis, outros aguardam ainda um destino à altura da sua beleza e imponência.

A kasbah Taourirt
Toda esta zona corresponde quase na perfeição às representações culturais que temos do deserto. Por isso, não é de admirar que aqui se encontrem também grandes estúdios cinematográficos, onde foram já filmados centenas de filmes, como Um chá no Deserto, de Bernardo Bertolucci. Um desses estúdios é o Atlas Film Studios, cercado por umas muralhas em pisé pontuadas por grandes figuras egípcias de imitação, que dão um toque hollywoodesco à paisagem, que não cai nada bem.
A kasbah mais deslumbrante é, sem dúvida, Aït Benhadou, uns quilómetros a norte de Ouarzazate. Quando cheguei a Aït Benhadou, a tarde ía já a meio e o sol banhava obliquamente toda a zona. Deixámos o carro na pequena aldeia fronteira à kasbah e fomos avançando a pé. Há um rio, o wadi Mellah, que corre entre a aldeia e os velhos edifícios. No verão costuma estar seco, mas ainda levava água. Soprava um vento morno do deserto e eu não hesitei: tirei as sandálias e comecei a atravessar o riacho. Surgiram logo uns miúdos a mostrarem as pedras onde devia pôr os pés e a oferecerem ajuda. Aceitei. Sabia que depois eles me iam cobrar esta ajuda, em cêntimos ou em rebuçados. Mas não queria quebrar a magia daquele momento com discussões inúteis. Subi pelos andares da kasbah, espreitando para os locais onde ainda hoje se guardam os animais, para a cozinha, escura, com o seu pequeno forno, para o labirinto de espaços e corredores. O milho e as tâmaras secam nos telhados. Todo o espaço é aproveitado. Trepei pelas ruelas da ksar até ao cimo do monte. O vento era aí um pouco mais intenso, um vento morno que queimava a pele, um vento que vinha do deserto que se vislumbrava mais a sul. É um mundo diferente, estranho e fascinante.

Parti a contragosto. Sentia que era um local onde me apetecia permanecer e sentir o tempo a passar. Mas o deserto chamava e parti na direcção de Erfoud, na direcção das grandes dunas de Merzouga. Na direcção do Sara.
Aït Benhadou foi classificada como Património Mundial pela UNESCO e, desde aí, tem estado a ser recuperada. É um dos locais mais extraordinários que eu já visitei.

Alguém é servido de um chá de menta?

Oásis do Sul - Julho 2007 (Fotos Teresa Diniz)

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