sexta-feira, 27 de novembro de 2009

As luzes de Manhattan

Às vezes, numa viagem, o que é mais interessante e saboroso é o que não estava previsto. São aquelas coisas que acontecem ao sabor do acaso e que, no entanto, se gravam em nós para sempre.
Era o início da tarde e deambulávamos, um pouco ao acaso, sem destino certo, pela Baixa de Nova Iorque, o que os nova-iorquinos chamam downtown. Ao fundo de Battery Park, entre os cais, os barcos, os heliportos, destaca-se o enorme edifício da estação fluvial de Staten Island. Dali partem os barcos que atravessam toda a baía de Nova Iorque, até Staten Island, e tinham-nos dito que valia a pena o passeio, até porque é totalmente gratuito.





Entramos na estação e olhamos em volta, para procurar informações de horários, etc. A um canto, numa secretária, estava sentado um homem gordo, de óculos, com uma camisa branca. Estava calor e o homem suava abundantemente, tirando constantemente os óculos e limpando a cara com um grande lenço branco. Dirigimo-nos para ele. Pareceu instantaneamente esquecer o calor e ficar muito feliz por poder ajudar. Explicou que não era um funcionário da estação, mas que fazia trabalho voluntário. Deu-nos folhetos de Staten Island e das outras ilhas da baía e aconselhou-nos: “Vão para lá quando quiserem, mas regressem no barco das oito da noite!” Foi até insistente: “Não é o das sete ou das nove, tem de ser no das oito horas da noite. Vão ver que vale a pena!”





Decidimos seguir os conselhos do homem e embarcámos para Staten Island. O passeio é mesmo bonito, e o barco ía cheio de turistas. Quando chegámos à ilha, a maioria dos turistas deu meia-volta e entrou pela outra porta, para regressar a Nova Iorque no barco seguinte. Nós seguimos os habitantes da ilha na direcção dos autocarros, no regresso a casa. Demos uma volta à ilha de autocarro, parámos na praia a apreciar a Verazzano Narrows Bridge (cujo nome recorda o primeiro europeu a chagar à Baía de Nova Iorque, o italiano Giovanni da Verazzano) e regressámos à estação a tempo de apanhar o barco das oito.





Atravessámos a baía com o sol a esconder-se no horizonte. Quando passámos pela Estátua da Liberdade, o céu explodia em roxos, vermelhos e laranjas, e as ilhas da baía afundavam-se no azul acinzentado.





Avançávamos na direcção de Manhattan, quando as luzes da cidade se começaram a acender. Primeiro, duas ou três luzes aqui, meia dúzia noutro lado; depois, os edifícios e arranha-céus começaram a iluminar-se, os cais e a Ponte de Brooklyn encheram-se gradualmente de luzes, cada vez mais, até que, quando atracámos, toda a Baixa de Manhattan parecia um enorme presépio, excessivo de cor, despudorado de luz.





Tinha passado quase toda a viagem encostada à amurada do barco, em silêncio, a beber com os olhos aquele espectáculo inesquecível. Quando saí do barco e entrei na estação, quase corri para a secretária para agradecer as indicações que nos tinham sido dadas. Mas a secretária estava vazia. Senti-me como se alguma entidade superior me tivesse enviado informações confidenciais e preciosas. E agradeci do coração!


(Fotografias de Teresa e Fernando Ferreira)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Nova Iorque multicultural


Um dos traços distintivos e interessantes de Nova Iorque é a sua multiculturalidade. Não é preciso ir a Ellis Island, ao seu Memorial ao Emigrante, para nos apercebermos que estamos perante uma sociedadee colorida e múltipla, onde cada um traça o seu caminho. Os tons de pele são as marcas visíveis das culturas que por ali se cruzaram e enraizaram, desde que, no século XVII, os holandeses compraram aos Índios a ilha a que chamamos hoje Manhattan, para aí estabelecerem uma feitoria. Holandeses e ingleses são os primeiros senhores da ilha e marcaram-na indelevelmente, nos edifícios e nos parques, nos desportos e na organização administrativa. Encontramos a sua memória na Trinity Church e nas campas centenárias que a rodeiam e que escaparam miraculosamente à destruição de 11 de Setembro.



      (Cemitério junto de Trinity Church)                        (Ao fundo de Wall Street,Trinity Church) 
Depois, começaram a chegar os imigrantes dos países católicos, mais pobres, do sul da Europa, particularmente irlandeses e italianos. Os irlandeses constituíram uma comunidade forte, que se organizou e cresceu economicamente. Foi com o seu apoio que foi construída a mais rica igreja de Nova Iorque, a Catedral de St. Patrick. Já os italianos aglomeraram-se na zona de Little Italy. Hoje estão plenamente integrados na sociedade americana e Little Italy é um local turístico, cheio de restaurantes italianos e lojas de recordações.

          (A rua principal de Little Italy)                        (Numa loja de recordações...)
Uma das comunidades americanas mais antigas é, evidentemente, a comunidade negra. Descendentes dos antigos escravos ou de imigrantes africanos, têm deixado uma marca importante na cultura americana. O seu talento natural para a música faz com que os encontremos frequentemente, em grupo ou sozinhos, nas ruas de Nova Iorque; muitas vezes cantam fazendo várias vozes e ritmos, em espectáculos inesquecíveis. Quando procurava os vestígios dessas vozes no Harlem (a casa de Billie Holiday, a Abyssinian Church), caímos sem saber no meio de um enorme festival, com vozes magníficas a ecoarem em vários palcos simultâneos. Foi uma tarde que dificilmente esqueceremos.



                            (Fazendo música, frente ao MET)                               (Festival no Harlem)


Também há, evidentemente, Chinatown. Uma visita a Nova Iorque não fica completa sem um passeio por Chinatown. É um espaço estranhíssimo, onde encontramos a vivência dos bairros orientais com todos os símbolos da cultura americana. Tudo está escrito em chinês e, ao contrário de Little Italy, nota-se que ainda é um espaço vivido.

(Chinatown)


A migração mais recente é a dos países hispânicos sul-americanos. Mexicanos, porto-riquenhos, colombianos, encontram-se um pouco por todo o lado e distinguem-se pela língua, pela pele morena, mas, principalmente, pela maneira de ser alegre e calorosa. Predominam nos cafés “Starbucks” e nas lojas de comida abertas 24 horas, e recebem-nos como se fossemos conhecidos de longa data.



(Starbucks Coffee shop)


Creio sinceramente que é esta diversidade que faz a riqueza dos Estados Unidos da América, um país onde cada pessoa sente o desafio de traçar o seu próprio destino.


(Fotografias de Teresa e Fernando Ferreira)

sábado, 14 de novembro de 2009

Museu da Acrópole - Um Museu transparente



(Vista Lateral do Novo Museu da Acrópole)

Quando o governo grego decidiu construir o Novo Museu da Acrópole, fez exigências quase impossíveis de cumprir: o Museu não podia tapar as escavações arqueológicas sobre as quais ía ser construído; de qualquer ponto do Museu deveria ser possível avistar a Acrópole, em relação à qual devia servir de espelho, ou de apoio, ou de contraponto. 

(A entrada do Museu)

Face a estas exigências, o arquitecto concebeu uma solução original: fez um museu transparente. Logo à entrada, começamos a caminhar sobre um vidro grosso, sobre as escavações de casas e ruas da velha Atenas. Após os torniquetes de entrada, começamos a subir por uma leve rampa, como se subissemos para a Acrópole. Nas paredes, perfilam-se os achados arquelógicos. Caminhamos sobre vidro, mas a sensação de leveza é ainda aumentada, porque todo o hall do primeiro andar é também de vidro. Portanto, caminhamos entre transparências. 

(A Sala das Imagens)

No primeiro andar, a sala das imagens transporta-nos para o espaço livre da Acrópole, com as suas estátuas votivas e evocativas. As Cariátides contemplam-nos, com a sua beleza tranquila. Só aqui, andando à volta destas belas mulheres, me apercebo de que são todas diferentes umas das outras: o modo como o cabelo está entrançado, as pregas do vestuário, a posição das pernas, não é igual. Estão aqui as estátuas originais - as que estão no templo, no Erecteion, são réplicas - excepto a mais bem conservada, que foi levada para o Museu Britânico.

(As Cariátides originais)

No piso superior, espera-nos a maior surpresa: num paralelipípedo de paredes de vidro, ligeiramente deslocado em relação ao resto do edifício, paralelo ao seu modelo verdadeiro, uma reconstituição dos espaços escultóricos do Partenon. As colunas não estão presentes, mas podemos rodear aquele espaço observando o belo friso das Panateneias, os frontões, os quadros esculpidos integrados na arquitrave. Tudo o que não existe ou desapareceu, está reconstituído com uma massa de gesso branca.
Creio que só aqui nos apercebemos da sua real dimensão. Também só agora nos apercebemos da extensão de elementos ausentes. Sabemos que a maior parte do friso se encontra no British Museum, para onde foi levada no século XIX por Lord Elgin. Para quando a sua devolução ao povo grego? Que desculpa pode ainda dar a Inglaterra para a sua falta de boa-vontade?
Espero que um dia estes belos frisos e frontões estejam inteiros e este espaço possa completar integralmente o velho templo, que o contempla do outro lado do vidro.
(O Novo Museu da Acrópole visto do Partenon)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Postcards from Italy

Tal como prometi, aqui está mais uma canção que nos faz viajar. Desta vez, é uma canção dos Beirut, um grupo americano, que nos traz uma sonoridade das pequenas vilas francesas ou italianas, por onde o vocalista passeou e de onde trouxe influências sonoras e culturais. O video é delicioso, e faz-nos recuar até às férias da nossa infância, com os filmes de qualidade duvidosa e as imagens ingénuas dos nossos videos caseiros.



sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A Residência dos Reis da Baviera - Recomeçar quase do nada

(Uma das fachadas exteriores da Residência)
É o maior palácio urbano da Alemanha e foi aqui a residência dos duques e depois Reis da Baviera entre 1385 e 1918, ano em que é transformado num Museu. Só por isto merecia uma referência. 

(Quarto Real)
Situado em Munique, o exterior é clássico; já o interior, é marcado pela exuberância decorativa das muitas salas de aparato do período barroco. São visitáveis 10 pátios e 130 salas, que constituem hoje o Museu de Decoração de Interiores de Munique. Abriga ainda a Sala de Tesouros Reais, uma Sala de Concertos e o Teatro Cuvilliés.

(Salão das Miniaturas)
As salas são belíssimas, desde o velho Salão de Baile, hoje chamado Antikuarium, até aos aposentos reais de decoração barroca e rococó, passando por inúmeras salas que albergam autênticos tesouros decorativos, como a Sala das Porcelanas e a Sala das Miniaturas.

(Fonte das Conchas)
No exterior, o Jardim convida a um repouso, junto ao pequeno templo de Diana ou à Fonte das Conchas.
(Um dos pátios interiores)

No entanto, confesso que o me mais me impressionou neste palácio, foi a sua história de reconstrução. Destruído, quase completamente, durante a Segunda Guerra Mundial, sofreu um processo de reconstrução ambicioso, rigoroso, pormenorizado, que não é escondido do visitante. Há uma sala em que são mostradas fotografias das várias salas do palácio, tal como se encontravam em 1945.
(Fotografias da reconstrução)
Ficamos a saber do modo como foram preservados o mobiliário e alguma da decoração, acompanhamos o processo de recuperação minuciosa. Percebemos o que se perdeu definitivamente e o muito que se conseguiu reconstruir, graças a imagens pré-existentes, pedaços remanescentes e uma grande persistência. E ficamos seguramente a apreciar muito mais o palácio que estamos a visitar.

(O Antikuarium)

Diana de Poitiers, Chenonceau e os outros castelos do Loire

Entrada do Castelo de Chenonceau Falar do Vale do Loire remete-nos de uma forma quase imediata para os Castelos do Loire. Não conheço ...