As luzes de Manhattan

Às vezes, numa viagem, o que é mais interessante e saboroso é o que não estava previsto. São aquelas coisas que acontecem ao sabor do acaso e que, no entanto, se gravam em nós para sempre.
Era o início da tarde e deambulávamos, um pouco ao acaso, sem destino certo, pela Baixa de Nova Iorque, o que os nova-iorquinos chamam downtown. Ao fundo de Battery Park, entre os cais, os barcos, os heliportos, destaca-se o enorme edifício da estação fluvial de Staten Island. Dali partem os barcos que atravessam toda a baía de Nova Iorque, até Staten Island, e tinham-nos dito que valia a pena o passeio, até porque é totalmente gratuito.





Entramos na estação e olhamos em volta, para procurar informações de horários, etc. A um canto, numa secretária, estava sentado um homem gordo, de óculos, com uma camisa branca. Estava calor e o homem suava abundantemente, tirando constantemente os óculos e limpando a cara com um grande lenço branco. Dirigimo-nos para ele. Pareceu instantaneamente esquecer o calor e ficar muito feliz por poder ajudar. Explicou que não era um funcionário da estação, mas que fazia trabalho voluntário. Deu-nos folhetos de Staten Island e das outras ilhas da baía e aconselhou-nos: “Vão para lá quando quiserem, mas regressem no barco das oito da noite!” Foi até insistente: “Não é o das sete ou das nove, tem de ser no das oito horas da noite. Vão ver que vale a pena!”





Decidimos seguir os conselhos do homem e embarcámos para Staten Island. O passeio é mesmo bonito, e o barco ía cheio de turistas. Quando chegámos à ilha, a maioria dos turistas deu meia-volta e entrou pela outra porta, para regressar a Nova Iorque no barco seguinte. Nós seguimos os habitantes da ilha na direcção dos autocarros, no regresso a casa. Demos uma volta à ilha de autocarro, parámos na praia a apreciar a Verazzano Narrows Bridge (cujo nome recorda o primeiro europeu a chagar à Baía de Nova Iorque, o italiano Giovanni da Verazzano) e regressámos à estação a tempo de apanhar o barco das oito.





Atravessámos a baía com o sol a esconder-se no horizonte. Quando passámos pela Estátua da Liberdade, o céu explodia em roxos, vermelhos e laranjas, e as ilhas da baía afundavam-se no azul acinzentado.





Avançávamos na direcção de Manhattan, quando as luzes da cidade se começaram a acender. Primeiro, duas ou três luzes aqui, meia dúzia noutro lado; depois, os edifícios e arranha-céus começaram a iluminar-se, os cais e a Ponte de Brooklyn encheram-se gradualmente de luzes, cada vez mais, até que, quando atracámos, toda a Baixa de Manhattan parecia um enorme presépio, excessivo de cor, despudorado de luz.





Tinha passado quase toda a viagem encostada à amurada do barco, em silêncio, a beber com os olhos aquele espectáculo inesquecível. Quando saí do barco e entrei na estação, quase corri para a secretária para agradecer as indicações que nos tinham sido dadas. Mas a secretária estava vazia. Senti-me como se alguma entidade superior me tivesse enviado informações confidenciais e preciosas. E agradeci do coração!


(Fotografias de Teresa e Fernando Ferreira)

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