domingo, 28 de novembro de 2021
Khiva - A cidade no deserto
sexta-feira, 5 de novembro de 2021
A Samarcanda de Tamerlão
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| A majestosa Praça Registan |
O esplendor de Samarcanda atinge um ponto máximo no
reinado de Tamerlão, ou Timur, durante a segunda metade do século XIV. Nascido
numa época em que os territórios mongóis se tinham fracionado numa série de
pequenos reinos que guerreavam entre si, Tamerlão constrói um enorme império,
que se estende da Ásia Menor à Rússia e à Índia, passando pela Pérsia. A sua
capital é Samarcanda, para onde ele faz transportar as imensas riquezas
provenientes das regiões conquistadas. O resultado é um conjunto monumental de
uma beleza, originalidade e riqueza sem par.
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| Um pequeno mausoléu, em Shaki Zinda |
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| Cúpulas |
Podemos começar a descobrir a Samarcanda Timúrida na Mesquita
Bibi-Khanum, que já mencionei aqui. Foi mandada construir pela primeira esposa
de Tamerlão, uma princesa chinesa de grande beleza, a propósito da qual se
criaram muitas lendas. A mesquita era, no seu tempo, uma das maiores e mais
importantes da Ásia Central.
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| Vista geral do mausoléu de Tamerlão |
Mas Tamerlão dedicava tanto esforço e determinação às suas
conquistas como ao embelezamento da sua cidade. E surgiu o complexo
arquitetónico de Shaki-Zinda!
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| O pórtico de entrada em Shaki Zinda |
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| A entrada de um mausoléu |
É um conjunto de onze mausoléus, mandados construir por
Tamerlão para servir de local de sepultura de algumas das suas mulheres e
chefes militares. Organizam-se ao longo de uma rua, à qual se ascende por um
pórtico, como o de uma mesquita ou madrassa, seguido de uma escadaria.
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| Uma rua rodeada de magníficos mausoléus |
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| O interior de um mausoléu |
O coração do complexo é o mausoléu de Kusam ibn Abbas, primo
do profeta Maomé que, segundo as crónicas, terá chegado a Samarcanda, para
pregar a nova fé, em 676. O mausoléu é composto por várias salas e aí se entra
através da Porta do Paraíso.
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| A porta do Paraíso |
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| Cúpula interior do túmulo de Kusam ibn Abbas |
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| Uma peregrinação no feminino |
Tamerlão desenvolveu o complexo de sepulcros, mandando aí
construir diversos mausoléus, que nos rodeiam naquele corredor estreito. Tanto
os interiores como os exteriores são de uma beleza e delicadeza extraordinárias,
conjugando o que de melhor se fazia no trabalho em cerâmica da época. Os
painéis de azulejo sucedem-se em padrões delicados e variados, com motivos em
alto-relevo, outros com aplicações em faiança, sempre explorando os mil matizes
do lápis-lazuli. Estamos mergulhados em azul...
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| Mergulhados em azul... |
O complexo de Shaki-Zinda foi dos locais mais deslumbrantes
onde já estive. Os nossos sentidos deixam-se inebriar pelos padrões azuis que
nos rodeiam, tornando até difícil encontrar palavras que descrevam a magia do
lugar.
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| Sucedem-se os padrões de cerâmica |
Tamerlão, evidentemente, teria de construir para si próprio
um mausoléu ainda maior e mais espetacular. É o mausoléu Guri Emir, projetado
por ele próprio, e que acabou por servir de inspiração a outros mausoléus
mongóis, como o Taj Mahal.
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| O mausoléu de Tamerlão |
Se o exterior é imponente, é o interior que é impressionante. O seu túmulo é um enorme bloco de jade verde, o maior do mundo, e a sala onde repousa é toda trabalhada em padrões minuciosos e recamada a ouro. Parece que há uma maldição para quem tentar roubar o túmulo! E parece que já funcionou! Junto de Tamerlão, estão os túmulos de outros membros da sua família, como o do seu neto Ulugh-Bek, sobre o qual já aqui escrevi.
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| O impressionante interior do mausoléu de Tamerlão |
Este astrónomo e matemático foi o responsável pela construção
da madrassa Ulugh-Bek, na praça central da cidade, que ele queria converter num
centro inteletual da Ásia Central. Aí se ensinou o que de mais avançado
produzia a ciência de então.
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| Álea lateral da Praça Registan |
A praça central de Samarcanda, a Praça Registan, cresceu e organizou-se a partir dessa madrassa. É o coração da cidade e, ao mesmo tempo, uma jóia preciosa. Rodeiam a praça três madrassas majestosas, definindo um espaço de grande equilíbrio e beleza, que eu quase poderia apelidar de cinematográfico.
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| A Praça Registan |
A madrassa Ulugh-Bek foi, como já disse, a primeira a ser construída. Devia ser um grande centro intelectual, por isso o interior tem um grande número de celas para os estudantes pernoitarem e salas de aprendizagem. No topo da fachada, os padrões de estrelas de dez pontas simbolizam o céu e a astrologia, dando pistas sobre o fundamento dos estudos que aí se concentravam.
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| A madrassa Ulugh Bek, com as estrelas na fachada |
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| As antigas celas estão transformadas em lojas |
No lado oposto da praça, foi construída outra madrassa, cerca
de duzenos anos depois, a madrassa Shir Dor. Devia servir como espelho da
primeira, mas acabou por ser um pouco mais alta e elaborada. O seu nome advém
dos dois tigres dourados que adornam a fachada, numa representação animal pouco
comum no mundo islâmico.
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| A madrassa Shir Dor |
Estas duas madrassas enquadram um terceiro edifício, mandado
construir no topo norte da praça, onde antes existia um caravanserai. É a
madrassa Tilla Kori, que significa feito de ouro e, efetivamente, o seu interior
onde os pormenores dourados pontuam é impressionante.
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| O interior da madrassa Tilla Kori |
Mas a sua fachada não o é menos: o grande nicho subdividido
da entrada, ladeado de varandins e terminado por um delicado minarete em cada
esquina, completam da melhor forma a grande praça.
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| Uma das alas laterais da madrassa Tilla Kori |
Todo o conjunto é espetacular e protegido pela UNESCO. Mas
parece ter também ganho o coração dos habitantes de Samarcanda: todos os dias
aí se juntam noivos e convidados de muitas cerimónias de casamento, que parecem
achar que não pode existir melhor cenário para as suas fotografias. E eu
concordo!
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| Um casamento em Samarcanda... |
domingo, 10 de outubro de 2021
A mítica Samarcanda
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| Mesquita Bibi-Khanum |
Samarcanda...
Só dizer o nome, devagar, saboreando as sílabas, é o suficiente para evocarmos
toda a magia da Rota da Seda. No nosso espírito, passam caravanas de camelos,
carregados dos produtos mais ricos e apetecidos de todos os cantos da Terra
conhecida. Evocamos a sua caminhada vagarosa, entre desertos, montanhas, vales
férteis, em viagens que chegavam a durar três anos. Ouvimos o ruído dos
bazares, cheio de línguas diferentes. Sentimos os cheiros, percebemos as cores
brilhantes. Para nós, Samarcanda resume toda a mística e exotismo do Oriente.
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| Banca de frutos secos no Mercado Siab |
É claro que
eu sei que a ideia de Oriente é uma construção do Ocidente. O que para nós é
exótico, constitui o modo de vida desses povos. Mas, seja como for, construiu o
imaginário ocidental e é em busca desse imaginário que eu vou, sem esquecer a
realidade presente, na qual todos nos movimentamos.
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| Os minaretes da Mesquita Bibi Khanum |
Samarcanda é
das cidades mais antigas da Ásia Central, habitada continuamente desde o século
VIII ou VII a.C. A sua prosperidade baseia-se na sua posição geográfica
privilegiada, a meio caminho entre a China e o Mediterrâneo. Os primeiros povos
a explorarem as possibilidades comerciais dessa localização, foram os
Sogdianos. Os crânios alongados destas populações, encontrados nas escavações
arqueológicas, alimentaram todo o tipo de especulações sensacionalistas, até a
investigação histórica ter trazido menos espetáculo e mais sensatez à questão.
Os crânios, com a sua forma peculiar, aí estão, no Museu Arquelógico de Samarcanda.
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| Crânios de Sogdianos no Museu Afrossiab |
A visita a
Samarcanda pode bem começar por este pequeno museu arqueológico, chamado Museu
Afrossiab, do nome antigo de Samarcanda. A jóia deste museu é um fresco do
século VII que ocupa as quatro paredes de uma sala e reconstitui a chegada e o
encontro de cavaleiros e mercadores de regiões longínquas, como a China. O que
resta do fresco atesta a antiguidade das relações comerciais que aqui se
estabeleceram.
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| Antigos estudiosos e mercadores na fachada do Museu Arqueológico de Samarcanda |
Outro local
interessante e imperdível é o mausoléu do Profeta Daniel. É interessante porque
a própria existência desta personagem bíblica é questionada e nada mais nada
menos do que seis cidades reclamam para si a honra de possuírem o túmulo do
profeta. Mas é imperdível pela próprias características do túmulo. A urna que
supostamente contém os seus restos mortais é enorme, talvez com uns cinco ou
seis metros. A razão dada é que os ossos do profeta crescem continuamente, uns
centímetros por ano. Outra explicação, talvez com mais fundamento, defende que
a urna tem aquele tamanho descomunal para dissuadir eventuais ladrões de
túmulos. Seja como for, o mausoléu é um local de peregrinação importante, tanto
para cristãos como para muçulmanos.
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| O mausoléu de Daniel, na montanha |
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| A imensa urna do profeta Daniel |
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| A sala de acolhimento dos peregrinos |
Os pontos
mais monumentais na cidade de Samarcanda pertencem ao período de domínio de
Timur, ou Tamerlão, como o conhecemos aqui na Europa. Depois da destruição
generalizada que as invasões de Gengis-Khan tinham provocado, Tamerlão
estabelece um novo império e Samarcanda é a sua capital. Conhecido pelas suas
ações cruéis e impiedosas, parece ter orientado para o embelezamento da cidade
tudo o que em si houvesse de sensível e artístico. O esplendor da Samarcanda da
dinastia Timúrida é insuperável e ainda hoje nos deixa de respiração suspensa.
Ficará para o próximo post...
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| No complexo Shaki Zinda, a modernidade cruza-se com o esplendor timúrida |
Não quero,
todavia, deixar de mencionar aqui uma obra surpreendente, pelo menos para o
visitante europeu: o observatório astronómico de Ulugh-Bek.
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| Estátua de Ulugh Bek, junto ao observatório |
Ulugh-Bek era neto de Tamerlão e chegou a governar este território no século XV. No entanto, a sua paixão era a matemática e a astronomia. Construiu uma madrassa, onde também ensinou, e um enorme observatório astronómico, em Samarcanda. Aí, determinou a posição de centenas de estrelas, corrigindo as tabelas árabes e fazendo observações originais e muito avançadas no seu tempo. O que resta do observatório é, ainda hoje, impressionante, e um pequeno centro interpretativo ajuda-nos a compreender melhor a sua obra. O que eu não compreendo é que o nome de Ulugh-Bek não figure nos nossos manuais de História da Ciência, ao lado de Copérnico e Galileu. Os contemporâneos também não o valorizaram muito: fosse pela sua inabilidade política, fosse pelo seu insuficiente fervor religioso, foi mandado matar pelo seu próprio filho.Valeu-lhe um astrónomo alemão, que no século XIX batizou com o seu nome uma cratera na Lua!
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| Reconstituição do observatório (maquete no centro interpretativo) |
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| Limpezas matinais no observatório... |
Próximo da
mesquita Bibi Khanum, mandada construir pela esposa de Tamerlão, situa-se ainda
hoje o mercado Siab, o bazar mais importante da cidade. Fomos visitá-lo, na
ideia de comprar uma espécie de torrão doce, típico da região. É um mercado
enorme, onde se vende de tudo, desde chapéus a especiarias. Lá encontramos o
torrão, que compramos, assim como outras curiosidades, como melão seco
entrançado. Aí encontrei também a simpatia e gentileza do povo uzbeque.
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| Banca de venda de chapéus, no mercado Siab |
Nesse mercado, três rapariguinhas vieram ter comigo, ansiosas por mostrarem o seu domínio da língua inglesa, ainda pouco vulgar no país. Conversámos um pouco, tirámos fotografias... Podiam ser minhas alunas! Em Samarcanda, fui surpreendida pela simpatia e quase ingenuidade dos uzbeques, que nos interpelavam, por vezes apenas para tirarem uma fotografia. Falei com mulheres uzbeques, mesmo quando não partilhávamos nenhuma língua, comunicando apenas pelo sorriso e pelo coração.
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| Entre mulheres... |
Hoje,
lembro-me dessas mulheres e das rapariguinhas no mercado e, nestes tempos
conturbados pelo fundamentalismo, desejo-lhes muita força e um mundo um pouco
menos hostil.
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