terça-feira, 16 de outubro de 2018

De mota até às Highlands VI – De Dundee a Trafalgar ou vice-versa




Navios históricos, pinguins e eu...

Tínhamos incluído Dundee no nosso percurso pela Escócia por uma razão quase pueril: tínhamos tempo para passear, com algum vagar, entre Perth e Edimburgo e Dundee ficava no caminho para St. Andrews. Porque não passar por lá?
Dundee situa-se no estuário do rio Tay e foi um grande estaleiro naval, onde se construíram muitos dos navios que sulcaram os mares e ergueram o Império Britânico. Ainda aí se encontram alguns desses navios, nas Victoria Docks, hoje chamados navios históricos; é o caso do Discovery, ou do Unicorn, o navio escocês mais antigo ainda a flutuar.

HMS Unicorn, a flutuar desde o século XVIII

Perto dos navios históricos, começámos a encontrar pinguins coloridos, numerados, cada um com a sua decoração particular. Acabaram por nos explicar que há mais de 3 000 desses pinguins, disseminados por toda a região, embora a maioria esteja concentrada na cidade de Dundee. Foram decorados por artistas diferentes e, daqui a algum tempo, serão vendidos num leilão a favor de uma organização que apoia crianças com doenças oncológicas. Entretanto, distribuem-se no centro da cidade cadernetas com autocolantes que se vão colando à medida que se descobrem os pinguins. Vimos várias crianças de mão dada com pais ou avós, com a sua caderneta debaixo do braço, em busca dos pinguins coloridos. Que bela maneira de pôr as crianças e os adultos a caminhar, por uma boa causa!

Mais um irresistível pinguim!

Mas regressemos aos barcos. Aqui em Dundee construíram-se muitos dos navios de guerra que contribuíram para a grandeza do império. E, quando vemos um desses navios, tendemos a esquecer-nos da quantidade de árvores que eram necessárias para construir um navio de guerra. Árvores diversas, consoante o fim a que se destinavam: mais duras para os cascos dos navios, mais macias para instrumentos como o leme…
Por exemplo, quantas toneladas de árvores tiveram de ser abatidas para preparar a armada que venceu os franceses na batalha de Trafalgar? Muitas toneladas, com certeza.
No ano de 2005, o dia em que se comemora a batalha de Trafalgar não foi festejado com desfiles militares, mas com a plantação de milhares de árvores por todo o país. Ao todo, foram plantados trinta e três pequenos bosques, recebendo cada um o nome de um dos navios da armada britânica na batalha.

O local onde foi plantado o bosque Defence

A explicação do projeto Trafalgar Woods

Encontrámos nas Cairngorms o bosque “Defence”, plantado pelas crianças das escolas da região. Que bela forma de comemorar o dia, homenageando as árvores sem as quais a armada não se teria construído! E que bela maneira de ensinar História, olhando para o passado e preparando o futuro!

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

De mota até às Highlands V – A North Coast 500





O nosso principal objetivo nesta viagem era percorrer a North Coast 500, uma estrada que circunda todo o extremo norte da Escócia. Partindo de Inverness e terminando também em Inverness, a NC 500 configura uma rota circular de mais ou menos 500 milhas, que percorre as paisagens costeiras das Highlands.
Não é um percurso para quem gosta de turismo urbano. A última grande cidade que encontramos é, precisamente, Inverness. Mas é, sem dúvida, uma rota a considerar por todos aqueles que gostam de guiar por pequenas estradas panorâmicas, tendo por companhia apenas a imensidão do mar e das charnecas, muitas ovelhas e um ou outro veado!
O afastamento das grandes cidades põe alguns desafios. Tivemos um problema na mota, logo no início deste percurso, que nos obrigou a alterar o itinerário previsto e a deixar a mota no melhor mecânico das Highlands: Mitchell's em Inverness. Felizmente é o melhor, porque também é o único; até às Ilhas Orkney, lá bem a norte, não há outra oficina para motorizadas.


A oficina Mitchell's em Inverness

Como já mencionei, a NC 500 é uma rota circular e foi isso que nos valeu. Deixámos a mota na oficina e voltámos a apanhá-la quatro dias depois, já reparada com uma peça vinda sei lá de onde!
Entretanto, alugámos uma Triumph para continuarmos a nossa viagem, o que é muito mais "british"!


Uma Triumph em vez de uma BMW

Vinhamos de Corran, perto de Fort William. Depois do Loch Lomond - talvez o mais belo lago da Escócia - as paisagens começaram a ficar mais despidas e desoladas, mas não menos bonitas. O tempo também começou a ficar mais "escocês", isto é, bem mais frio e com chuvadas ocasionais, por vezes nas alturas menos convenientes. Por exemplo, queríamos apreciar as Neptune's staircase, junto a Fort William, uma sistema de comportas que transporta os barcos para o canal que atravessa a Escócia, até Fort Augustus. Mas a bátega de água foi tão forte que já nem apetecia apreciar a água que entrava e saía das comportas... Era água a mais!


O Loch Lomond pela manhã

A Igreja de Luss, na margem do Loch Lomond

Tínhamos previsto uma passagem pela Ilha de Skye mas, quando chegámos a Mallaig com a intenção de apanhar o ferry para Armadale, já na ilha, descobrimos que não havia bilhetes disponíveis para a travessia. Portanto, a ilha de Skye terá de ficar para outra oportunidade...
Como já disse, a avaria da nossa mota obrigou-nos a alterar o percurso e passámos uma boa parte da tarde na oficina, situada perto de Inverness, na margem do Loch Ness. Avistámos muitas motas, mas da Nessie nem sinal!


A cidade de Inverness...

... sobre o River Ness

Em Inverness fomos brindados com um espectáculo de gaita de foles

O "drum major"

Conseguimos recuperar o itinerário e ainda seguir para o hotel previsto, em Kinlochewe. Não costumo fazer aqui grandes apreciações sobre os hotéis em que pernoitamos, mas este merece um pouco mais. O edifício é antigo, recuperado seguindo uma linha rural mas muito confortável. Os donos receberam-nos com grande afabilidade e a conversa fluiu, fácil e agradável, durante o jantar e no dia seguinte, pela manhã. Era um casal interessante: ela, risonha e calorosa, era uma antiga professora; ele tinha trabalhado para a IKEA nos mais diversos países, incluindo Portugal. Um dia, chegaram à conclusão de que era o momento de deixarem as carreiras seguras e abraçarem um sonho e um desafio. E nasceu o Kinlochewe Hotel, onde não há televisão mas um grande puzzle na mesa da sala de estar pede a atenção e o contributo dos hóspedes! E onde as floreiras são velhas botas de caminhada!


Kinlochewe Hotel


São botas velhas ou floreiras?

O dia seguinte levou-nos até ao célebre Applecross Pass, um dos pontos icónicos da NC 500. Depois de um percurso espetacular pelos Glen Docherty e Glen Carron, eis-nos na célebre passagem. Mal começamos a subir, o tempo começou a piorar e a chuva instalou-se. Pouco vimos do trajeto, fustigados pela chuva e pelo vento. Felizmente, havia muito pouco trânsito; só me lembro de nos cruzarmos com um cortejo de Porshes descapotáveis!


Entrada no Applecross Pass

À chegada a Applecross, o tempo melhorou e a estrada até Shieldaig reconciliou-nos com o mundo. Muito estreita (nas Highlands as estradas rurais só têm espaço para um automóvel, havendo regularmente reentrâncias para os cruzamentos) mas muito bonita, alcandorada nas encostas verdejantes, onde só há pequenas quintas e muitas ovelhas! Cada curva abre um novo cenário magnífico, entre o mar e a terra, sempre idêntico e sempre diferente.


Monumento aos mortos nas guerras do século XX, em Applecross

Como descrever a paisagem neste norte das Highlands, a que chamam Wester Ross? Não há fotografias que lhe façam justiça. Rodamos durante quilómetros sem encontrar povoações, no meio das montanhas arredondadas de Torridon ou dos inúmeros lagos e enseadas. A costa é muito irregular e as ilhas e penínsulas sucedem-se. A água é uma constante e por todo o lado há fios de água que escorrem pelas encostas. As árvores são gigantescas e estendem-se em ramos e raízes que lhes dão um ar quase humano, de quem quer abraçar o mundo ou levantar o tronco e caminhar. Lembro-me de Tolkien e da Terra Média. Podia ser ali...
Quanto mais para norte, menos florestas se encontram, mas há uma imensidão de charneca, pintada de pequenas flores rosadas.


Os fios de água escorrem pelas encostas

A imensidão da charneca

As cidades são poucas e de pequena dimensão. Surgem em portos ou enseadas naturais, onde se desenvolveu a atividade piscatória e onde hoje aportam os ferrys que ligam todas aquelas regiões. São austeras, com as suas casinhas todas idênticas de pedra escura, mas ao mesmo tempo acolhedoras, cheias de vasos de flores coloridas. É o caso de Ullapool, debruçada sobre o Loch Broom.


Ullapool...

... no Loch Broom

Lembro-me de Oban, ainda à entrada das Highlands. É uma cidadezinha encantadora, que se abre em concha sobre o porto e onde se situa um santuário de focas.


O porto de Oban
Vamos sempre avançando para norte. Depois de dobrarmos o Cape Wrath, a costa inflete para leste e torna-se muito mais amena. Deparamos com belas praias de areia fina e dourada, como em Durness.


As praias de areia fina de Durness
A cidade de Thurso, já quase no extremo norte, trouxe uma das melhores surpresas da nossa rota. Sentados junto a Thurso Bay, passámos uns momentos inesquecíveis a apreciar os salmões que saltavam na entrada do rio. Isolados ou em pequenos grupos de dois ou três, saltavam da água e deixavam-se cair com belas piruetas, numa brincadeira infindável. Será que faziam bailados de acasalamento? Ou apenas se divertiam como crianças num parque de diversões? Momentos únicos!


Descanso em Thurso Bay

Vamo-nos aproximando do extremo norte das Highlands, um dos objetivos da nossa viagem; chamam-lhe "land's end" e é o ponto mais setentrional da Grã-Bretanha continental. É na pequena povoação de John o'Groats que se encontra o célebre poste que marca o fim do caminho. Há aqui muita gente, que chegou de automóvel, de mota, de bicicleta, e o ambiente é de celebração. Também ali tirámos as nossas fotografias, pois claro! 


O célebre poste de John o'Groats

Um tocador de gaita de foles no "fim do caminho". 

No entanto, o ponto mais setentrional é, na realidade, a ponta de Dunnet Head, alguns quilómetros a leste de John o'Groats. É um local belíssimo, de altas falésias coroadas por um farol, de onde se podem observar as Ilhas Orkney, para lá de Pentland Firth.

O farol de Dunnet Head, com as Orkney ao fundo


As falésias de Dunnet Head
Em Dunnet Head, estamos apenas a 8º do Círculo Polar Ártico, mas não temos essa sensação porque a Corrente do Golfo ameniza bastante o clima. O que estranhamos é a duração do dia, que começa cerca das cinco horas da manhã, o que é um pouco incomodativo numa região onde não se usam persianas... Nada, no entanto, que umas cortinas não ajudem a resolver.
A partir de John o'Groats, começamos a rolar para sul e instala-se um sentimento de "fim de festa": realmente, estamos a iniciar a viagem de regresso.


Wick, já para sul de John o'Groats

Mas, entretanto, ainda há muitas coisas interessantes para descobrir.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

De mota até às Highlands IV – Palácios, Castelos e Assombrações



Castelo de Kirby

A Escócia convoca a nossa imaginação para cenários dramáticos, ao sabor das histórias de Sir Walter Scott. E um dos elementos desse dramatismo são os seus castelos. Imaginamo-los como ruínas altivas, dominando uma paisagem agreste ou melancólica, povoados de fantasmas de donzelas perseguidas ou de cavaleiros amargurados.
Com efeito, os castelos dominam a paisagem escocesa. Muitos deles são apenas ruínas de antigas torres de vigia ou fortificações que controlavam as passagens dos lagos ou marcavam os territórios dos clãs.


Varrich Castle 

A história escocesa é abundante em lutas entre os diversos clãs mas, mais ainda, é marcada pela luta contra o poderoso inimigo do sul, a Inglaterra. Há muitas referências a estas lutas, que duraram centenas de anos, ou aos seus heróis - como Robert the Bruce – e há muitos castelos destruídos durante essas guerras.


A paisagem escocesa, cerca do Varrich Castle

Também na Inglaterra há belos castelos em ruínas, evidentemente. É o caso do castelo de Kirby, em Kirby Muxloe, perto de Leicester. Construído no século XV, sofreu as consequências do seu dono se ter colocado do lado errado numa disputa dinástica. No entanto, as suas torres de tijolo vermelho, rodeadas de um fosso quadrangular, ainda são de grande beleza. 

Kirby Castle

Kirby Castle
Kirby Castle

Visitámo-lo pela manhã, quando os patos e as garças se banhavam no fosso e a paz do lugar só era perturbada por um pescador silencioso.
Muitos castelos permaneceram destruídos, como símbolos da derrota. No entanto, muitos outros mantiveram-se como grandes casas senhoriais ou foram reconstruídos em circunstâncias diversas.
A nossa ideia era visitarmos alguns desses castelos, escolhendo os que não nos afastavam muito da nossa rota. Não cumprimos tudo o que tínhamos planeado. Balmoral, por exemplo, é a residência da família real britânica, durante o mês de agosto. Só pudemos passar, apressadamente, por uma entrada lateral sem graça.
O Castelo de Mey, na costa setentrional das Highlands, também estava nos nossos planos. Comprado e reconstruído pela Rainha Mãe, tinha fama de ser assombrado por uma tal Green Lady. Mas não houve fantasmas para ninguém, estava fechado!

Drumlanrig Castle

O primeiro castelo com que nos deparámos, à entrada das Lowlands escocesas, foi o Castelo de Drumlanrig. Tem fama de ser o mais belo castelo da Escócia e, efetivamente, quando surge à nossa frente, ao fundo de uma alameda ladeada de árvores centenárias, é de uma imponência e graciosidade ímpares. Tínhamos rodado quilómetros por uma estrada rural privada, entre pastagens muito verdes habitadas por ovelhinhas curiosas que corriam à frente da mota. O castelo é quase uma visão, fantástica, repentina, feérica.
Embora tenha o nome de castelo, na verdade é um palácio do século XVII, que não teve qualquer função militar.
E quando eu já desesperava de encontrar um sítio assombrado, surgiu o Castelo de Dunrobin! 


Dunrobin Castle

Dunrobin Castle (face norte)

Em plenas Highlands, um pouco a norte de Golspie, fica esta residência dos duques de Sutherland, iniciada no século XIII mas totalmente remodelada no século XIX. Parece que os duques ainda lá moram, numa parte do palácio que não é aberta ao público, ou pelo menos vêm de visita a estes seus domínios frequentemente. A atestá-lo, há fotografias dos duques recebendo Sua Majestade a Rainha Isabel II e outros colunáveis!


Interiores do Dunrobin Castle: a sala de jantar

Interiores do Dunrobin Castle: a sala dos banhos

Interiores do Dunrobin Castle: as fotografias com os visitantes colunáveis...

O castelo tem uma localização privilegiada, sobre o mar, e uns jardins belíssimos, inspirados em Versalhes, projetados pelo arquiteto Sir Charles Barry.
Chegámos a tempo do show de falcoaria. O mestre falcoeiro sabia muito sobre as aves de rapina e os seus hábitos, e também sabia transmitir essa sabedoria com um humor britânico bem afiado! Foi um espetáculo muito didático e divertido.


Dunrobin Castle: os jardins sobre o mar

Dunrobin Castle: um bufo real com 21 anos

A visita ao castelo também foi interessante. Gostei particularmente dos quartos das crianças, com os brinquedos do século XIX, do cavalinho de pau aos livros infantis.


Interiores do Dunrobin Castle: a Nursery

Interiores do Dunrobin Castle: a Nursery

E, finalmente, deparei-me com um aposento chamado “Quarto Assombrado”! Segundo reza a história, no século XV o duque de Sutherland capturou uma bela rapariga do clã Mackay, depois de uma batalha, e fechou-a naquele quarto. Ela recusava-o sempre e, uma noite, o duque encontrou-a a tentar fugir por uma corda feita com lençóis. Enraivecido, puxou da espada e cortou a corda, provocando a queda e morte da jovem. Aparentemente, ainda se ouve a rapariga a chorar e a lamentar-se, mas nunca ninguém a viu. Por outro lado, já no século XX, foi avistada uma figura masculina, que passeia através dos corredores e das portas fechadas, mas ninguém sabe quem é. Portanto, mais estranho ainda, temos uma história sem fantasma e um fantasma sem história!
Saímos do Castelo de Dunrobin e parámos para almoçar em Golspie. Aí, junto à praia, os letreiros informavam que se podiam avistar focas. Bem esforçámos o olhar, mas nem sinal delas! E partimos outra vez, sem avistamentos, nem de fantasmas, nem de focas!


Finalmente, uma história de assombrações...

É impossível falar dos castelos da Escócia sem mencionar o Castelo de Scone. A região de Scone é o coração da Escócia e, durante séculos, aí se situou a capital do reino escocês. Ali esteve, desde o ano de 838, a chamada Pedra de Scone, uma base de pedra, talvez um antigo altar cerimonial, sobre a qual os reis escoceses eram coroados. E assim sucedeu durante quase mil anos, até à coroação do último rei da Escócia. Com a união dos dois reinos de Escócia e Inglaterra, a pedra foi levada para a Abadia de Westminster, em Londres, onde continua a cumprir a sua função de objeto simbólico de legitimação do soberano. O Castelo fica muito perto de Perth e é facilmente acessível a partir desta cidade.


O Castelo de Scone

Os símbolos da casa real escocesa nos portões de Scone

Os símbolos da casa real escocesa nos portões de Scone

Falta aqui escrever sobre o Palácio e o Castelo de Edimburgo, mas isso fica para depois… Edimburgo merece um post inteiro, só para si!