domingo, 28 de agosto de 2016

Kotor - Um paraíso ignorado


A ilha de San Giorgio e o Mosteiro de Nossa Senhora das Pedras, na baía de Kotor

É um fiorde, mas não se encontra na Noruega. Situa-se na costa adriática, no sul da Europa e leva o mar Mediterrâneo pelo Montenegro dentro. 
Continuamos pela estrada da costa, virando agora para o interior, bordejando este mar azul que aqui se parece com um rio. O mar entra muitos quilómetros pela terra dentro, rodeado de montanhas, pontilhado de pequenas aldeias, com as suas casas de pedra e os seus barcos coloridos atracados em pequenos cais. O mar é límpido e muito sereno. De vez em quando, uma ilha emerge da água, mas quase não se vê a terra, apenas o que o homem lá construiu, umas casas, um mosteiro...
No fundo do fiorde, como uma jóia muito bem guardada, está Kotor. Surge subitamente à nossa frente, rodeada de muralhas, como uma aparição ficcionada d' "O Senhor dos Anéis". No final da Idade Média, dominada pelos venezianos, foi um entreposto comercial de alguma importância. As casas dos mercadores, apertadas em ruelas estreitas, aconchegadas dentro das muralhas, lá continuam, todas idênticas entre si. A muralha, entretanto, foi aumentada, subindo pela montanha acima, acrescentada com pequenas capelas e fortificações. É preciso coragem (e mais tempo do que nós tinhamos) para subir as centenas de degraus e calcorrear todo aquele complexo. Mas, à noite, todo o percurso se ilumina com outras tantas centenas de luzes, que rodeiam a pequena cidade de Kotor como uma coroa.


Entrando na cidade de Kotor

Comemos peixe grelhado e bebemos vinho da região numa pequena praça, ao som de um saxofone sentido. Passeamos pelas ruas empedradas, olhamos o porto de águas profundas onde um navio de cruzeiro lançou âncora, pensando que, felizmente, só ali cabe um desses navios de cada vez. Dormimos num pequeno hotel debruçado sobre as águas. 
No dia seguinte, partimos para o interior do Montenegro, a descobrir as suas montanhas e os seus rios turbulentos. Mas levamos connosco uma certeza: sim, o paraíso existe.


A baía de Kotor

terça-feira, 26 de julho de 2016

Belgrado e São Sava


A pequena igreja e a grande catedral de São Sava

Chamam a Belgrado a Princesa dos Balcãs. O nome assenta-lhe bem. A capital da Sérvia é uma cidade grande e animada, uma autêntica cidade europeia numa zona onde se misturam já muitas influências culturais diferentes.
Situada na confluência de dois grandes rios, o Danúbio e o Sava, Belgrado é uma cidade muito antiga.


A confluência dos rios Sava e Danúbio, vista do Kalamegdan

A cidade divide-se em dois espaços bem diferentes: a velha Belgrado, o centro histórico, e a Nova Belgrado, a cidade construída de raiz nos tempos de Tito para acomodar o crescimento da então capital da Jugoslávia. A Nova Belgrado é uma zona moderna, com amplas avenidas, onde se encontram edifícios administrativos, zonas residenciais e grandes hotéis. No entanto, é a velha Belgrado que atrai o visitante, entre ruas pedonais e comerciais, grandes igrejas ortodoxas e ruelas de bares e restaurantes bem animadas. É nos recantos e encantos dessa velha Belgrado que temos vontade de nos perder!

O Restaurante Ponto de Interrogação, um dos mais antigos e típicos

A zona antiga de Belgrado é dominada pelo Kalamegdan, a Fortaleza. Construída pelos Romanos, é depois muito aumentada e fortalecida pelos Turcos. Hoje, é um espaço imenso, que integra velhos edifícios turcos com o Museu de História Militar ou a bela Torre do Relógio, construída no tempo na ocupação austríaca. Com muitos espaços arborizados e por onde se pode passear, é um dos locais mais agradáveis de Belgrado. Como fica localizado no ponto mais alto da cidade, é também um belo início de visita. Dali, pode-se ver a velha e a nova Belgrado e apreciar a confluência dos dois grandes rios que banham a cidade.

A entrada na fortaleza 

O túmulo do governador Damad Ali-pasha

Outra entrada para a fortaleza

Mas o coração comercial da cidade são as avenidas, algumas pedonais, onde se pode parar a ver as montras ou a descansar numa esplanada. Tal como outras zonas da cidade, têm, no entanto, um ar um pouco nostálgico, de saudades de uma belle époque em que era o coração da grande e socialista Jugoslávia. Um passeio pela avenida Knez Mihajlova faz-nos sentir essa mistura de nostalgia pelo passado e de pressa pelo futuro.

Domingo de manhã na Avenida Knez Mihailova

A cidade está repleta de grandes monumentos: alguns são grandes construções do tempo comunista; mas muitos outros são construções século XIX e do início do século XX, de uma época de prosperidade sérvia e mostram-nos um estilo arquitetónico muito próprio e de cores vibrantes. 

O Parlamento Nacional

O célebre Hotel Moscovo

O Ministério da Educação
A praça Republike é outro ponto importante de Belgrado. Frente ao belo Teatro Nacional ergue-se a estátua equestre do Príncipe Mihailo, um dos mais importantes governantes da Sérvia, quando o país reconquistou a sua independência dos Turcos. Na estátua, o príncipe aponta para Prizren, local de origem da nação sérvia, hoje localizado no Kosovo...

Estátua do Príncipe Mihailo na Praça Republike

A zona boémia da velha Belgrado é Skadarlija, entre as ruas Cetinjska e Skadarska. Tudo começou com a construção de uma fábrica cervejeira, que ainda lá está, embora não esteja em funcionamento. Seguiram-se os bares e restaurantes, que dão à zona um ambiente colorido e animado. Há sempre música, dentro e fora dos restaurantes, e é um espaço imperdível da velha Belgrado.

A cervejaria Bajloni

A fonte a meio da Skadarlija

Ao fundo da rua Skadarska, há um sebilj, um fontanário público, oferecido pela cidade de Sarajevo à cidade de Belgrado em 1989, tão pouco tempo antes da ecosão da guerra que haveria de opor as duas cidades!


O sebilij oferecido pela cidade de Sarajevo

Para entender a Sérvia, é preciso entender a relação dos sérvios com a religião. Há um fervor religioso profundo e notório. Já o tinha pressentido nos mosteiros rurais, volta a ser evidente aqui em Belgrado. Há muitas igrejas, algumas magníficas, como é o caso da Catedral de São Miguel Arcanjo, situado junto ao Patriarcado e ao Museu da Igreja Ortodoxa Sérvia. O seu interior é tão belo e tranquilo como o exterior, em verde e dourado. Aí estão os túmulos de alguns dos mais importantes reis da Sérvia.

Catedral de São Miguel Arcanjo

Outra igreja magnífica é a igreja de São Marcos, Apóstolo e Evangelista, erigida no local onde foi promulgado o Édito do Sultão Mahmud II, estabelecendo pela primeira vez um Estado Sérvio independente, no século XIV.

Igreja de São Marcos, Apóstolo e Evangelista

A mais esmagadora é, no entanto, a Catedral Memorial de São Sava, a maior igreja do mundo ortodoxo (sem contar com Santa Sofia, em Istambul, que já não é dedicada ao culto religioso). Tem uma história curiosa.
São Sava, que viveu no século XII, é considerado o santo inspirador do amor a Deus, à Ortodoxia e à Pátria, que se misturam nos corações dos sérvios. O seu culto fortaleceu-se em 1594, quando o vizir turco mandou vir as ossadas do santo, que repousavam no mosteiro de Mileseva, e as mandou queimar, à vista dos aterrorizados habitantes de Belgrado, na colina de Vracar. As cinzas espalharam-se pela colina, consagrando aquele espaço e tornando-o sagrado para os sérvios.
Quando se cumpriram 300 anos sobre a destruição do corpo do santo, em 1894, surgiu a ideia de erigir uma grandiosa catedral dedicada a São Sava, no mesmo local onde as suas relíquias tinham sido queimadas. Foi criada a Sociedade para a Construção da Catedral e, em muito pouco tempo, foi construída uma pequena igreja para o serviço religioso durante a construção da catedral, que ainda existe. No entanto, as situações de guerra impediram o início dos trabalhos até 1932. Com a entrada da Jugoslávia na 2.ª Guerra Mundial, os trabalhos de construção cessaram e, no final da guerra, o espaço foi ocupado pelos resistentes e pelo Exército Vermelho. A Igreja Ortodoxa Sérvia não desistiu e, ano após ano, foi pedindo a restituição do espaço, até que, em 1985, pôde recomeçar os trabalhos de construção, com fundos recolhidos entre a população. A Guerra Civil fez parar novamente os trabalhos, entre 1991 e 2000 ("Enquanto algum dos nossos compatriotas sofrer de doença ou fome por causa da guerra, a Catedral não será construída", terá afirmado o Patriarca Sérvio Pavle) mas, a partir daí, a construção avançou decididamente. 
Quando estive na basílica, em agosto de 2015, não estava ainda terminada mas era já um edifício grandioso. As grandes paredes de mármore branco, as cúpulas de cobre, a grande cruz folheada a ouro, impõem admiração. Também no interior se segue o estilo tradicional: nas colunas, na iconostase com os seus ícones, nas pinturas que cobrem as paredes, na delicada e profusa decoração dos arcos, nos mosaicos do pavimento. Não é possível tirar fotografias no interior, pelo que não posso mostrar muitas imagens da basílica. É preciso lá ir!
A basílica de São Sava representa, de algum modo, a identidade e o nacionalismo sérvio. No folheto explicativo com que acompanhamos a visita lê-se: A Catedral representa uma nova Jerusalém (...) a unidade da Ortodoxia (...) a glória e a honra do povo sérvio (...) e a oferenda do povo sérvio à comunidade humana universal.

A Catedral Memorial de São Sava



sábado, 11 de junho de 2016

As igrejas de Amesterdão


O Campanário da Wester Kerk

A palavra Amesterdão evoca imediatamente, na nossa mente, imagens de canais, com as suas casinhas flutuantes, pontes cheias de bicicletas e recantos tranquilos. É, sem dúvida, uma imagem que corresponde à realidade. Os canais de Amesterdão são Património da Humanidade e representam bem o espírito trabalhador e tenaz dos holandeses.
Pouco se ouve falar das igrejas de Amesterdão. E, no entanto, elas encantaram-me pelo que nos contam sobre o modo de ser holandês, a sua proverbial tolerância e o seu pragmatismo. Um passeio pelos locais sagrados de Amesterdão é um percurso pela evolução do seu pensamento sobre a nossa relação com a religião.

Oude Kerk, a igreja mais antiga de Amesterdão

A igreja mais antiga de Amesterdão é a Oude Kerk, edificada em1306 no local onde já existia uma velha ermida de madeira, e consagrada a S. Nicolau, padroeiro dos marinheiros. É uma igreja bastante grande, com mais de trinta capelas e um belo orgão barroco. As convulsões violentas das lutas religiosas do século XVI levaram a igreja para as mãos dos protestantes calvinistas, que a esvaziaram de todas as estátuas e pormenores decorativos. Hoje, o que mais espanta os nossos olhos habituados à riqueza decorativa das igrejas católicas, é precisamente o esvaziamento do espaço, onde apenas restaram as colunas e os bancos de madeira.

O espaço interior da Oude Kerk

A mesma perceção estranha de espaço vazio nos atinge quando visitamos outras igrejas protestantes da cidade. A mais conhecida é provavelmente a Westerkerk, construída já no século XVII, em que as grandes janelas permitem uma bela entrada de luz, que ilumina e alegra o amplo espaço interior. Esta igreja tem o campanário mais alto de Amesterdão, visível de quase toda a cidade. Um pormenor interessante: uma lápide na parede informa-nos de que ali se encontram os restos mortais do grande pintor Rembrandt. O que a lápide não conta é que Rembrandt morreu cheio de dívidas e foi sepultado naquele local porque a família não teve meios para lhe dar uma sepultura mais digna.
Várias igrejas foram perdendo a sua função de locais de culto, ou por falta de praticantes ou por alteração das prioridades cívicas. É o caso da Ronde Lutherse Kerk, com a sua grande cúpula de cobre, que serviu de armazém durante uma grande parte do século XX, até que uma multinacional americana apresentou uma proposta de restauração que foi aceite pela cidade, e a transformou num luxuoso centro de congressos.

A fachada da Nieuwe Kerk

É também o caso da Nieuwe Kerk, em plena Praça Dam. Esta igreja data ainda do século XV, mas desse tempo, pouco mais resta do que o púlpito e o grande vitral virado para a Dam, que representa a entrega das armas da cidade aos seus magistrados. Hoje, a igreja é principalmente uma original sala de exposições. Atualmente, expõe regularmente telas de um artista contemporâneo que se relacionem com temas religiosos. Quando lá estive, estava em exposição a obra Calvary de Marc Chagall: um judeu perseguido que pinta o sofrimento de Jesus, mostrando-o como outro judeu perseguido. Havia painéis interpretativos da obra, contextualizando-a na época e na obra do autor. Gostei imenso desta ideia e desta utilização do espaço.

O altar-mor da Igreja do Nosso Bom Senhor do Sotão

Mas não encontramos só igrejas protestantes em Amesterdão. Nunca deixou de haver católicos na cidade e, depois dos primeiros tempos de perseguição e destruição, os católicos reorganizaram-se e ao seu culto. Um dos espaços mais estranhos e interessantes da cidade é a igreja de Nosso Bom Senhor no Sotão (Ons' Lieve Heer op Solder). Como o nome indica, é uma igreja clandestina, construída nos últimos três andares de uma casa de habitação, completamente escondida dos olhares do público. Foi feita por um comerciante de tecidos, alemão e católico, e era frequentada por muitas das famílias católicas de Amesterdão, que subiam para a igreja por entre os quartos de habitação e os armazéns de tecidos. Hoje, é um espaço museológico muito interessante e bem organizado. Aparentemente, o culto católico era aceite, desde que não fosse visível. Tolerância? Ou um pragmatismo com um toque de cinismo?

A grande basílica de S. Nicolau

Mas os católicos tiveram a sua desforra. Quando lhes foi dada liberdade de culto, construiram a mais monumental igreja de Amesterdão, a Igreja de São Nicolau, terminada apenas em 1887. É uma basílica grandiosa, ricamente decorada, com duas torres barrocas e uma cúpula que se avista de toda a cidade. E merece uma visita atenta.

O altar-mor da basílica de S. Nicolau

Fazendo justiça à sua mentalidade aberta e tolerante, encontram-se hoje em Amesterdão locais para todos os cultos imagináveis. Passei por armazéns transformados em mesquitas e até por um prédio dedicado à Cientologia. A relação dos judeus com Amesterdão também fica bem atestada pela imponente Grande Sinagoga Portuguesa.

A Grande Sinagoga Portuguesa
A Sinagoga Portuguesa conta a história da perseguição movida pela Inquisição ibérica aos judeus, que encontram abrigo e liberdade de culto na Amesterdão dos séculos XVI e XVII. O seu exterior, um grande cubo de tijolo vermelho, não permite prever a beleza e luminosidade do interior. Está rodeada por três sinagogas mais pequenas, que hoje abrigam o Museu Histórico Judeu. Aí encontramos, além de peças preciosas, retratos e documentos interessantes de famílias que ainda têm nomes portugueses. Identificamo-nos com os seus nomes e com as suas atribulações. Aceites no século XVI, trabalharam e contribuiram para a riqueza da cidade. No século XX, quando voltaram a ser perseguidos, nenhum Estado os defendeu, nem o estado holandês, onde há tanto tempo estavam estabelecidos, nem o estado português, ao qual ainda estavam ligados por laços familiares. 

O interior da Grande Sinagoga Portuguesa

E saio de Amesterdão a revolver o verdadeiro significado da palavra tolerância. O que quer dizer, afinal? Admitir junto a nós? Ou aceitar como um de nós? Fico com a minha dúvida...


Vista sobre os telhados de Amesterdão, a partir da Igreja do Nosso Bom Senhor do Sotão

sábado, 21 de maio de 2016

Os mosteiros da Sérvia


Portão: entre o sagrado e o profano

Se há algum elemento que marca a paisagem da Sérvia são os seus mosteiros. São inúmeros e surgem por todo o país. A maioria encontra-se nas montanhas, por vezes em locais isolados e pouco acessíveis. Mas outras vezes encontramo-los à beira da estrada, separados do mundo profano por um muro e um simples toque de campainha.

As casas para os peregrinos

Nos montes em redor da cidade de Čačak, foi surgindo desde o século XIV o complexo de Kablar, que chegou a incluir trezentos mosteiros. Hoje, só doze estão de pé. Visitamos um deles. Parecia tudo tão sossegado que não tinha a certeza de que pudesse entrar, mas o portão estava aberto e... fui andando, pelo meio dos pequenos edifícios e das sebes bem aparadas do jardim. 

Mosteiro de Vavedenje

Surgiu então uma velha freira, mas não falava inglês nem francês, apenas a língua da região, o servo-croata. Por qualquer misteriosa razão, isso não impediu a nossa comunicação e falamos uma com a outra, entendendo-nos só com a linguagem dos afetos e do sorriso. Mostrou-nos a igreja e não quis aceitar dinheiro. Mas ofereceu-nos dois pequenos ícones e duas pulseiras, que não mais tirámos dos braços, como se significassem a nossa benção para a viagem.

Diálogos pouco prováveis

Os mosteiros, embora diferentes uns dos outros, seguem todos a traça arquitetónica e decorativa bizantina: a cruz grega, as figuras de santos pintadas a fresco nas paredes; a profusão de ícones; os grandes candelabros circulares. A maioria dos que visitamos continuava em atividade e havia gente a utilizar os espaços. Além da igreja, incluem sempre espaços sociais, jardins, casas para os peregrinos. E um pequeno cemitério, para continuar no outro mundo o retiro que os monges iniciaram neste.

O cemitério

Há vários mosteiros que são Património da Humanidade, protegido pela UNESCO. Estão nesta lista o mosteiro de Sopočani, ou o mosteiro de Studenica, do século XII, que estão agora a ser restaurados, com os seus frescos delicados e os seus tesouros preciosos.

Mosteiro de Sopočani

Frescos delicados...

...antigos tesouros.

A lista dos mosteiros ortodoxos sérvios é imensa, e nós visitámos apenas uma pequena parte. Alguns, porque ficavam muito afastados da nossa rota. Noutros casos, não conseguimos mesmo dar com eles! Foi o caso do mosteiro de Vratna, perto de Negotin. Caía uma chuvinha miúda e nós calcorreámos montes e vales, estreitas veredas e vegetação impenetrável, à procura! O mosteiro estava difícil de descobrir, mas demos com uma aldeia de grandes casas de emigrantes (nesta zona, há muita emigração para a Áustria), guardadas por leões e águias de pedra. Dezoito águias e vinte e oito leões depois, ainda não tinhamos encontrado o mosteiro de Vratna! Desistimos e dirigimo-nos para o Danúbio, para as Portas de Ferro e as suas imponentes paisagens.
Entrada do Mosteiro de Dobrun

segunda-feira, 9 de maio de 2016

De Split a Trogir


No centro de Split, o centro do palácio

Não existe melhor maneira de começar um passeio na Croácia do que perdendo o livro Guia Michelin - Croácia no avião. Não estou a brincar! Assim, não parecemos turistas, a não ser pela máquina fotográfica pendurada no peito, para tentar captar o azul impensável do mar Adriático ou o peso da História, patente nos muros, nos arcos, nas colunas, de Split!

A Riva

Na altura do ano em que por lá andamos, em fevereiro, há poucos turistas, e nós misturamo-nos com os habitantes da cidade. Caminhamos pelos mesmos becos e ruelas, bebemos uma cerveja nos mesmos bares. 

Entrada do Museu de Split, num antigo palácio

No lusco-fusco do entardecer, observamos as crianças que brincam às escondidas junto do Templo de Júpiter. Sentamo-nos num banco da Riva, a bela marginal, a olhar o mar e os barcos que entram e saiem do porto. Muitos são ferrys que ligam o continente a diversas ilhas. Decidimos logo que havemos de apanhar um ferry para uma das ilhas... E cumprimos.

Vista do porto de Split, a partir da colina de Marjan

Chegada à ilha de Brac

Split é uma cidade impressionante, que cresceu dentro de um palácio. No século III, o imperador romano Diocleciano decidiu construir um palácio na bela costa da Dalmácia, para se afastar dos ares turbulentos de Roma. Escolheu esta baía, construindo um imenso palácio, quadrado, com 300 metros de lado. Aí incluiu templos e casas da guarda, os seus próprios aposentos e o mausoléu para repousar depois da sua morte. 

O Mausoléu de Diocleciano, à noite

No século VI, o Império Romano já não existia e o palácio começava a degradar-se. Sob a ameaça dos Ávaros, que atacavam a região, a população da cidade vizinha de Salona vam instalar-se dentro do palácio do imperador. O espaço central do palácio torna-se a praça principal da nova cidade: é o Peristilo.

O Peristilo

A cidade floresce, crescem palácios dentro do palácio, e o antigo mausoléu do imperador é transformado numa catedral, a mais pequena catedral do mundo. O sarcófago de Diocleciano é substituído pelos altares dos mártires cristãos que ele próprio condenou à morte. Ironias da História!

Ermida de S. Nicolau, na colina de Marjan

Gregório de Nin e eu

A cerca de 30 quilómetros de Split, a pequena cidade de Trogir conta uma história totalmente diferente. Fundada pelos gregos, como uma colónia, desenvolveu-se com o próspero comércio do Mediterrâneo. 

Templo grego frente à Fortaleza, em Trogir

Os habitantes transformaram a pequena península numa ilha, muralhada e circundada por um canal. Uma fortaleza e uma torre asseguravam a sua defesa. 

A Torre de São Marcos

Hoje, dentro da muralha, as ruas estreitas mostram os seus palácios e igrejas medievais. Muitos estão transformados em estabelecimentos turísticos mas, felizmente, estamos em fevereiro e podemos caminhar tranquilamente, sem sermos atropelados por multidões de turistas.

O antigo mercado, encostado à Fortaleza

A praça principal é de uma beleza requintada e equilibrada: de um lado, a catedral, com os seus pináculos góticos; do outro lado, a Torre do Relógio, encostada à magnífica loggia de inspiração italiana. Ao centro, o palácio do século XV que hoje alberga a Cãmara Municipal.

A entrada da catedral

A loggia e a Torre do Relógio

A escola também está alojada num palácio de janelas ogivais. Ouve-se um toque de sineta, familiar, e as crianças começam a sair, em pequenos grupos. 
Também chegou a nossa hora de partir. Regressamos a Split de autocarro, como muitos outros croatas. Como se não fossemos turistas!...

Vista da Riva de Split, a partir do porto







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