quarta-feira, 19 de setembro de 2018

De mota até às Highlands IV – Palácios, Castelos e Assombrações



Castelo de Kirby

A Escócia convoca a nossa imaginação para cenários dramáticos, ao sabor das histórias de Sir Walter Scott. E um dos elementos desse dramatismo são os seus castelos. Imaginamo-los como ruínas altivas, dominando uma paisagem agreste ou melancólica, povoados de fantasmas de donzelas perseguidas ou de cavaleiros amargurados.
Com efeito, os castelos dominam a paisagem escocesa. Muitos deles são apenas ruínas de antigas torres de vigia ou fortificações que controlavam as passagens dos lagos ou marcavam os territórios dos clãs.


Varrich Castle 

A história escocesa é abundante em lutas entre os diversos clãs mas, mais ainda, é marcada pela luta contra o poderoso inimigo do sul, a Inglaterra. Há muitas referências a estas lutas, que duraram centenas de anos, ou aos seus heróis - como Robert the Bruce – e há muitos castelos destruídos durante essas guerras.


A paisagem escocesa, cerca do Varrich Castle

Também na Inglaterra há belos castelos em ruínas, evidentemente. É o caso do castelo de Kirby, em Kirby Muxloe, perto de Leicester. Construído no século XV, sofreu as consequências do seu dono se ter colocado do lado errado numa disputa dinástica. No entanto, as suas torres de tijolo vermelho, rodeadas de um fosso quadrangular, ainda são de grande beleza. 

Kirby Castle

Kirby Castle
Kirby Castle

Visitámo-lo pela manhã, quando os patos e as garças se banhavam no fosso e a paz do lugar só era perturbada por um pescador silencioso.
Muitos castelos permaneceram destruídos, como símbolos da derrota. No entanto, muitos outros mantiveram-se como grandes casas senhoriais ou foram reconstruídos em circunstâncias diversas.
A nossa ideia era visitarmos alguns desses castelos, escolhendo os que não nos afastavam muito da nossa rota. Não cumprimos tudo o que tínhamos planeado. Balmoral, por exemplo, é a residência da família real britânica, durante o mês de agosto. Só pudemos passar, apressadamente, por uma entrada lateral sem graça.
O Castelo de Mey, na costa setentrional das Highlands, também estava nos nossos planos. Comprado e reconstruído pela Rainha Mãe, tinha fama de ser assombrado por uma tal Green Lady. Mas não houve fantasmas para ninguém, estava fechado!

Drumlanrig Castle

O primeiro castelo com que nos deparámos, à entrada das Lowlands escocesas, foi o Castelo de Drumlanrig. Tem fama de ser o mais belo castelo da Escócia e, efetivamente, quando surge à nossa frente, ao fundo de uma alameda ladeada de árvores centenárias, é de uma imponência e graciosidade ímpares. Tínhamos rodado quilómetros por uma estrada rural privada, entre pastagens muito verdes habitadas por ovelhinhas curiosas que corriam à frente da mota. O castelo é quase uma visão, fantástica, repentina, feérica.
Embora tenha o nome de castelo, na verdade é um palácio do século XVII, que não teve qualquer função militar.
E quando eu já desesperava de encontrar um sítio assombrado, surgiu o Castelo de Dunrobin! 


Dunrobin Castle

Dunrobin Castle (face norte)

Em plenas Highlands, um pouco a norte de Golspie, fica esta residência dos duques de Sutherland, iniciada no século XIII mas totalmente remodelada no século XIX. Parece que os duques ainda lá moram, numa parte do palácio que não é aberta ao público, ou pelo menos vêm de visita a estes seus domínios frequentemente. A atestá-lo, há fotografias dos duques recebendo Sua Majestade a Rainha Isabel II e outros colunáveis!


Interiores do Dunrobin Castle: a sala de jantar

Interiores do Dunrobin Castle: a sala dos banhos

Interiores do Dunrobin Castle: as fotografias com os visitantes colunáveis...

O castelo tem uma localização privilegiada, sobre o mar, e uns jardins belíssimos, inspirados em Versalhes, projetados pelo arquiteto Sir Charles Barry.
Chegámos a tempo do show de falcoaria. O mestre falcoeiro sabia muito sobre as aves de rapina e os seus hábitos, e também sabia transmitir essa sabedoria com um humor britânico bem afiado! Foi um espetáculo muito didático e divertido.


Dunrobin Castle: os jardins sobre o mar

Dunrobin Castle: um bufo real com 21 anos

A visita ao castelo também foi interessante. Gostei particularmente dos quartos das crianças, com os brinquedos do século XIX, do cavalinho de pau aos livros infantis.


Interiores do Dunrobin Castle: a Nursery

Interiores do Dunrobin Castle: a Nursery

E, finalmente, deparei-me com um aposento chamado “Quarto Assombrado”! Segundo reza a história, no século XV o duque de Sutherland capturou uma bela rapariga do clã Mackay, depois de uma batalha, e fechou-a naquele quarto. Ela recusava-o sempre e, uma noite, o duque encontrou-a a tentar fugir por uma corda feita com lençóis. Enraivecido, puxou da espada e cortou a corda, provocando a queda e morte da jovem. Aparentemente, ainda se ouve a rapariga a chorar e a lamentar-se, mas nunca ninguém a viu. Por outro lado, já no século XX, foi avistada uma figura masculina, que passeia através dos corredores e das portas fechadas, mas ninguém sabe quem é. Portanto, mais estranho ainda, temos uma história sem fantasma e um fantasma sem história!
Saímos do Castelo de Dunrobin e parámos para almoçar em Golspie. Aí, junto à praia, os letreiros informavam que se podiam avistar focas. Bem esforçámos o olhar, mas nem sinal delas! E partimos outra vez, sem avistamentos, nem de fantasmas, nem de focas!


Finalmente, uma história de assombrações...

É impossível falar dos castelos da Escócia sem mencionar o Castelo de Scone. A região de Scone é o coração da Escócia e, durante séculos, aí se situou a capital do reino escocês. Ali esteve, desde o ano de 838, a chamada Pedra de Scone, uma base de pedra, talvez um antigo altar cerimonial, sobre a qual os reis escoceses eram coroados. E assim sucedeu durante quase mil anos, até à coroação do último rei da Escócia. Com a união dos dois reinos de Escócia e Inglaterra, a pedra foi levada para a Abadia de Westminster, em Londres, onde continua a cumprir a sua função de objeto simbólico de legitimação do soberano. O Castelo fica muito perto de Perth e é facilmente acessível a partir desta cidade.


O Castelo de Scone

Os símbolos da casa real escocesa nos portões de Scone

Os símbolos da casa real escocesa nos portões de Scone

Falta aqui escrever sobre o Palácio e o Castelo de Edimburgo, mas isso fica para depois… Edimburgo merece um post inteiro, só para si!







terça-feira, 11 de setembro de 2018

De mota até às Highlands III – Oxford e o coração da Inglaterra


Uma casa com telhado de colmo, típica das Cotswolds

Caminhar pelas ruas de Oxford é uma experiência subjetiva. Cada um deixa-se maravilhar por coisas diferentes. Em primeiro lugar, há a beleza dos edifícios. Dezenas de colégios, muitos deles com raízes medievais, aglomeram-se no centro da cidade. Dominada pela vida universitária, a cidade alberga nada menos do que trinta e seis colégios, fundados maioritariamente entre os séculos XIII e XVI. Alguns são bem conhecidos, como o All Souls, Christ Church, Trinity, Corpus Christi, e convocam a nossa imaginação para solenes cerimónias tradicionais e coros de rapazes de vozes angélicas. Os pátios e corredores, os refeitórios, conhecemo-los dos filmes. E deixamo-nos enlevar pelos seus pináculos góticos, ou pela sua simetria clássica, ou pelas recordações do nosso imaginário.



O pátio interior de um dos colégios de Oxford

Espreitando...

Mas Oxford não é só tradição, continua a ser um centro universitário de excelência, cheio de jovens que querem praticar desportos, conviver, beber umas cervejas com os amigos, e a cidade também é famosa pelos seus pubs.
A mim, o que me esmaga e maravilha, é o peso de todas aquelas pessoas que ali estudaram, trabalharam, tiveram ideias, fizeram experiências, ensinaram. Passo pelos edifícios e leio-lhes os nomes, reconhecendo muitos deles das matérias que estudei no liceu. Que magnífica massa crítica, que espantosa acumulação de inteligência!


A Radcliffe Camera, uma original biblioteca redonda

Há lojas do franchising Harry Potter, que vendem recordações de coisas que nunca aconteceram. A riqueza do que realmente se foi desenrolando entre as paredes daqueles vetustos edifícios fascina-me muito mais…
Para noroeste de Oxford, estende-se a região das Cotswolds. Chamam-lhe o coração de Inglaterra, talvez porque os ingleses gostem de se rever nas pequenas aldeias de pedra cor de mel, com telhados de colmo e canteiros de flores coloridas. São realmente encantadoras!
Passámos por algumas dessas aldeias, devagar. Os pequenos hotéis rurais condensam em si todas as características de tradição e encanto que pensamos encontrar e apetece-me fotografá-los sem cessar.


Os acolhedores hotéis das Cotswolds

Adicionar legenda


Parámos em Chipping Campden, dominada pelo belo mercado coberto medieval. Das que melhor preservam o estilo de construção típico das Cotswolds, é a povoação mais próxima da nossa rota. 


Chipping Campden

O mercado coberto medieval

O interior do mercado


Caminhamos pelas pequenas ruas, penetramos no mercado, exploramos a igreja. No Centro de Artesanato, encontramos as lebres pintadas, tão típicas desta região. No final da viagem, arrependi-me de não ter comprado uma nessa ocasião, pois não as voltei a encontrar.


Eu só queria comprar uma lebre pequenina...

Uma porta com o puxador em forma de cabeça de dragão numa das casas mais antigas de Chipping Campden

Pequena paragem em Stratford-upon-Avon. Já aqui escrevi sobre esta Shakespeareland e a minha opinião não se alterou, por isso não me vou alongar sobre o assunto.
Mais a norte, o Lake District volta a mergulhar-nos no coração dessa Inglaterra rural, preservada de uma forma romântica e idealizada, por contraste com a Inglaterra negra, a Inglaterra das fábricas e minas, a Inglaterra da Revolução Industrial. Beatrix Potter viveu no Lake District e foi uma das responsáveis pela criação do National Trust Fund, que hoje detém a propriedade de inúmeros castelos, abadias ou simplesmente áreas agrícolas; assim se garantiu a sua preservação.


O belo Lago Windermere

Confraternizando com os gansos do Lago Windermere

A paisagem varia entre os lagos e as colinas, de pastos muito verdes separados por pequenas sebes e povoados de inúmeras ovelhas. As aldeias são pitorescas e tradicionais. Vale a pena percorrer as estreitas estradas rurais para apreciar devidamente a região.


As estradinhas rurais do Lake District

Em Windermere, a maior atração não é o lago, mas o Museu de Beatrix Potter, onde os turistas vão reencontrar as personagens ternurentas dos seus livros infantis. O coelho Peter e os seus amigos estão em todo o lado, nas montras e nas lojas de recordações, e nas margens do lago ainda nos podemos cruzar com as descendentes da Pata Patrícia.


A entrada do Museu dedicado a Beatrix Potter

Lojas do Peter Rabbit and friends por todo o lado...

Uma orgulhosa descendente da Pata Patrícia?


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

De mota até às Highlands II – Portsmouth e a entrada na Grã-Bretanha



Entrada no porto de Portsmouth

Não sei se Portsmouth é uma cidade turística. Milhares de turistas por aqui passam, diariamente, a caminho de outras paragens. Aqui chegam e daqui partem, todos os dias, ferrys para vários destinos, tornando a cidade muito concorrida. Mas quantos aqui param para, efetivamente, explorar a cidade? Não sei. Eu não o fiz, cheguei… parti…
Charles Dickens nasceu em Portsmouth, em 1812. Tem uma estátua frente ao belo Guildhall. Já no seu tempo era uma grande cidade portuária, com toda a espécie de gente, de grandezas e de misérias, que caracterizam as cidades portuárias e que talvez tenham inspirado algumas das suas personagens.

Estátua de Dickens

Junto à amurada, vejo a cidade desfilar perante os meus olhos. Situa-se num estreito chamado Solent, frente à Ilha de Wight. É um porto natural, bem guardado por uma fortaleza e três baterias militares, construídas no tempo em que a Inglaterra temia uma invasão da França napoleónica.
A base naval militar domina o porto, com as suas fragatas fortemente armadas, um porta-aviões, outros navios que não sei identificar. Basta sair ou entrar no porto de Portsmouth para se perceber perfeitamente porque é que a Grã-Bretanha é tão necessária à Europa e à sua capacidade de defesa militar.

Entrada no porto de Portsmouth

Entrada no porto de Portsmouth

Após as formalidades de saída do barco e do próprio porto, iniciamos o nosso caminho para norte. Confesso que tinha algum receio da condução à esquerda, nada intuitiva para quem está habituado a conduzir no continente europeu. A máxima, afixada num lembrete no para-brisas da mota, era keep left! Não sei quantas vezes repeti look right, go left! Mas os nossos condutores deram mostras de uma perícia e capacidade de adaptação invejáveis e guiaram pela Grã-Bretanha como se nunca tivessem feito outra coisa na vida!
A partir de agora, é seguir os letreiros da auto estrada que indicam The North. O grande Norte, as Highlands, com as suas paisagens desoladas e imensas, espera-nos. Mas antes de lá chegarmos, ainda temos previstas umas quantas paragens. 


Entrada no porto de Portsmouth

domingo, 2 de setembro de 2018

De mota até às Highlands I – O princípio da viagem


Partida de Santander rumo a Portsmouth, com o Centro Botín em primeiro plano

Quem gosta de viajar conhece bem aquela excitação do momento da partida, quando finalmente pomos em prática todos os preparativos que se foram sucedendo ao longo de meses. Está tudo preparado, ao pormenor, e esperamos que só haja imprevistos positivos e enriquecedores da experiência da viagem. Infelizmente, houve alguns imprevistos bem desagradáveis, mas lá os conseguimos ultrapassar com alguma sorte e muita determinação. E também esse é um dos ensinamentos da viagem: nem tudo se consegue controlar e é preciso, em cada momento, saber lidar com os percalços inesperados.
A primeira etapa levou-nos até Burgos. Mais de 700 quilómetros que se fazem muito bem, nas autovias de Espanha. Algumas paragens estratégicas, para desentorpecer as pernas e abastecer a mota. O almoço foi em Castellanos de los Moriscos (que estranho nome!), exatamente no mesmo comedor onde parámos no ano passado.


A belíssima Catedral de Burgos (exterior)

A belíssima Catedral de Burgos (claustro)

À chegada a Burgos, a decisão era apressar-nos para encontrar a catedral aberta. No ano passado, visitámos o centro histórico de Burgos, a terra do Cid el Campeador, capital de Castela e bastião da Reconquista. Este ano, reservámos todo o fim da tarde para a catedral, iniciada no século XII e Património da Humanidade. É impossível descrevê-la com justiça, há que a visitar com vagar, olhar os tectos, os retábulos, as esculturas policromadas, e deixar-nos penetrar pela sua beleza ímpar!


Pormenores: a Porta do Paraíso...


...pormenor de um retábulo...

...estátuas jacentes dos Condestáveis de Castela...

...com o cãozinho aos pés, eterno símbolo de fidelidade.

A escadaria dourada

Burgos merecia um post inteiro, mas terá de ficar para outra ocasião.
O ferryboat para Portsmouth, onde iniciaremos realmente a nossa viagem rumo à Escócia e às Highlands, partiu de Santander. Com a exceção do pequeno espaço da Catedral, nada é antigo. Santander foi destruída por um incêndio em 1941, recordado num conjunto escultórico junto do Centro Botín e junto ao mar. A partir daí, a cidade reconstruiu-se, vibrante e moderna, virada para o futuro.


Catedral de Santander

O Centro de Artes Botín

As esculturas de José Cobo Calderón que recordam o incêndio de 1941

A saída do porto de Santander, rumo a norte, é belíssima! Passamos pelas praias, pela Península da Magdalena... A cidade vai desfilando à frente dos nossos olhos, com os Montes Cantábricos a desdobrarem-se em planos quase infinitos, até que o farol, na sua pequena ilha, determina as despedidas.


A península da Magdalena, com o palácio mandado construir por Afonso XIII

A ilha do farol

O mar está encrespado e a ondulação faz-nos vacilar como bêbados pelo navio.
É impossível não me lembrar do ferryboat em que fizemos a ligação entre Génova e Barcelona. São dois grandes navios, que transportam pessoas e veículos sobre as águas, de um porto para outro desta nossa velha Europa. As semelhanças ficam-se por aí. Escrevi na altura sobre esse barco, essa viagem, essa mistura humana tão mediterrânica. Espanhóis ruidosos, outros viajantes discretos e fleumáticos, centenas de marroquinos por todo o lado, deitados no chão ou nos assentos do cinema. Havia um restaurante halal e uma sala de oração. O Mediterrâneo sobre as suas águas.
Este navio tem um ambiente totalmente diferente. A grande maioria dos viajantes são ingleses, famílias que regressam de férias, motards que estiveram na concentração de Faro e que regressam também a casa. Conversamos com alguns, trocam-se informações. O ambiente é tranquilo. Há uma sala com poltronas para quem não reservou uma cabine, maioritariamente jovens. O cinema passa, efetivamente, filmes, em vez de servir de dormitório. Há um bom restaurante gourmet, além dos self-services. Há até um canil com acomodações individuais e um espaço para os cães passearem e brincarem com os seus donos. Estivemos a vê-los brincar, ao final da tarde, enquanto conversávamos com a dona galesa de dois cãezinhos farfalhudos e adoráveis, o Chico e o Benji, ambos resgatados em Espanha, há já alguns anos.


O espaço para os cães, no navio Pont Aven

Dois barcos, dois percursos. Na verdade, duas Europas e duas culturas diversas. Mundos diferentes, talvez complementares, talvez compatíveis!