sábado, 3 de dezembro de 2016

A Fortaleza de Salses



A Fortaleza de Salses fica no sul de França, perto da fronteira espanhola. Situada num espaço reivindicado durante séculos por franceses e espanhóis, é um daqueles casos em que a situação geográfica marca a vocação e a construção de um edifício.


Foi mandada construir por Fernando de Aragão, entre 1497 e 1506, para defender o Roussillon espanhol da ameaça francesa e é uma obra prima da engenharia militar. Embora pouco conhecida nos circuitos turísticos, a fortaleza de Salses (ou Salses-le-Château, na versão francesa) é uma obra ímpar, pela sua envergadura e pela sua originalidade.


O primeiro aspeto marcante é a sua quase invisibilidade. É preciso ir à procura para encontrar a fortaleza, não está situada no cimo de um monte como um castelo medieval, pelo contrário, está meia enterrada no solo, para assim os seus canhões poderem varrer qualquer exército atacante. Quando nos aproximamos, mesmo assim, não temos a noção do que é aquela mole maciça. Foi construída com tijolos da mesma cor ocre da terra, assemelhando-se a um grande castelo de areia, como aqueles que construímos na praia.


Salses foi construída para ser inexpugnável. As suas linhas de torreões redondos podiam aguentar um cerco de quarenta dias e albergar um enorme exército. As suas cavalariças subterrâneas podiam acolher trezentos cavalos. E todos os pontos de fogo foram concebidos para anular qualquer possibilidade de ataque bem sucedido.


A grande fortaleza concebida pelo engenheiro militar espanhol Francisco Ramiro Lopez aguentou vários cercos até que caiu definitivamente nas mãos dos franceses, em 1642. Dizem que o exército francês, reconhecendo que a fortaleza era invencível, resolveu fazer um cerco sem limites, ficando à espera que os espanhóis morressem de fome. E assim aconteceu.



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Stratford upon Avon, ou a Shakespeareland


Uma rua da cidade...

A visita a Alcalá de Henares, sobre a qual já aqui escrevi, teve como pretexto a celebração dos quatrocentos anos da morte de Cervantes. A efeméride fez-me lembrar outro grande (gigantesco...) nome das letras europeias, de que também se comemora o quadricentenário da morte neste ano de 2016: William Shakespeare.
Estive na sua terra natal, Stratford upon Avon, há já alguns anos. É uma pequena cidade do condado de Warwickshire, ao sul de Birmingham, no centro de Inglaterra, que guarda o encanto das pequenas cidades inglesas, com os seus pubs coloridos e acolhedores e as suas casas de ripas de madeira cuidadosamente envernizadas.

O Royal Shakespeare Theatre

Naquela cidade, no entanto, há um tema comum a todos os espaços: Shakespeare. Compreende-se. Não é qualquer cidade que se pode orgulhar de ser o berço de um génio como esse. Mas, em Stratford upon Avon, há um exagero qualquer. As ruas ostentam símbolos e decorações que nos levam invariavelmente para o universo shakespeariano. Os homens-estátua, tal como as estátuas propriamente ditas, remetem para as suas personagens teatrais. Há o Teatro de Shakespeare, é claro, e o pub "Black Swann", famoso por ser o ponto de encontro dos seus atores. Mas também há a casa onde Shakespeare nasceu, a casa onde a sua mãe Mary Arden viveu, a casa da sua filha Susanah, a Anne Hathaway's Cottage, pertença da sua mulher e, quem sabe, as propriedades de outros parentes ainda... todas visitáveis e decoradas à época. Só visitei a casa onde Shakespeare nasceu, pertencente ao seu pai John Shakespeare, luveiro de profissão. Gostei, embora a tenha encarado como um espaço museológico encenado.

A casa onde Shakespeare nasceu

A minha sensação final não foi de encantamento, como esperava, mas de alguma encenação para consumo turístico. Senti a perda da genuinidade em troca de um certo voyerismo folclórico. Como se tivesse comprado bilhetes para um parque temático, a Shakespeareland...

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Livros e Viagens - Roma, Exercícios de Reconhecimento



Acabei de ler ( talvez devorar, ou saborear, fossem verbos mais adequados...) este livro de António Mega Ferreira sobre Roma. Não é um guia turístico, nem mesmo um roteiro da cidade. Mas também não é uma obra de ficção sobre a Cidade Eterna. O autor dá-nos a sua própria definição:

Este livro não descreve Roma: toma-a como pretexto para incursões que vivem comigo há muitos anos, seja o cinema italiano do pós-guerra ou a paixão da Tosca, a tragédia de Caravaggio ou a graça reqintada de Rafael. E o meu longo fascínio, sempre ambivalente, pela arquitetura; o meu gosto pelas cenografias fantásticas de Bernini; a sugestão de uma grandeza impensável nas ruínas imperiais; o sonho de Adriano vazado nos restos de uma villa que fez construir nos arredores de Roma. Roma é uma tradição literária que conta mais do que se vê e uma tradição visual que nos mostra mais do que aquilo que qualquer literatura seria capaz de imaginar.


Efetivamente, este livro não descreve Roma. Mas sugere passeios e incursões por locais inesperados, ou outros olhares por locais já visitados. Dá-nos leituras e divagações, pretextos para nos perdermos pela capital mais historicamente fascinante da Europa. A mim, deu-me vontade de pegar no livro e voar para Roma. E aí, sem pressas, deixar-me guiar por estes exercícios de reconhecimento.




sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A Ponte do Diabo



A Ponte do Diabo, Teufelsbrucke

Pelos vistos, a acreditar na tradição popular, o diabo entreteve-se a construir pontes por esta Europa fora. Nós, por cá, também temos uma que o povo atribui às artes do demo: a ponte da Misarela. Mas a que está na origem deste post fica no cantão de Uri, na Suiça, no meio de maciços montanhosos impressionantes. 
A Teufelsbrucke, a Ponte do Diabo, é um estranho e intrincado cruzamento de pontes: a ponte ferroviária, a nova ponte rodoviária e a velha ponte de pedra, construída em1595, que veio substituir a ainda mais velha ponte, datada de 1360.


Um intrincado nó de pontes...



... ferroviária, rodoviária e pedonal

É sobre essa ponte do século XIV que os camponeses e pastores da época contam uma história bem curiosa. Havia, naquela passagem tumultuosa do rio, um antigo passadiço de madeira. Mas a travessia era tão difícil e perigosa que os aldeãos fizeram um acordo com o diabo: o demo construiria a ponte, obtendo em troca a alma da primeira criatura que ali passasse. Uma vez construída a ponte, o diabo exigiu o seu pagamento, mas os espertos aldeãos enviaram uma cabra e o diabo ficou tão furioso que pegou numa grande pedra para destruir a sua obra e castigar os seres humanos. Uma velhota com um crucifixo na mão, no entanto, conseguiu assustá-lo e levá-lo a deixar cair a pedra. Um desenho à entrada do túnel ainda nos recorda esta lenda.


O desenho lembra a lenda



O tumultuoso rio Adda

Este desfiladeiro de Schollenen não tem caminhos fáceis e foi também aqui, na Ponte do Diabo, que os franceses lutaram contra os russos, nas guerras napoleónicas. Olho para as altas paredes de pedra e para a ponte, que parece tão estreita e frágil sobre os redemoinhos ruidosos do rio Adda, e imagino o horror da batalha e o desespero dos que ali tombaram. O impressionante Monumento Suwarov ainda recorda os que ali caíram na batalha de 1799.
Quem sabe? Talvez o diabo ainda por ali andasse, à espera de cobrar o seu quinhão de almas!

O Monumento Suwarov

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Cervantes e cegonhas em Alcalá de Henares


Alcalá de Henares, Património da Humanidade

Chegámos a Alcalá de Henares ao começo da tarde, essa hora mágica em que, como em qualquer cidade do centro-sul de Espanha, não se vê vivalma na rua. O calor resguarda as pessoas. E a cidade aparece, nua de ruídos e de modernidade, a quem vai cruzando as ruas desertas. Assim vamos passando por igrejas e colégios, capelas e dependências da muito antiga e prestigiada Universidade de Alcalá de Henares. E assim, na cidade vazia, sinto-me mais perto do tempo de Cervantes.


Cervantes, na praça com o seu nome

Quis ir a Alcalá de Henares neste ano em que se cumprem quatrocentos anos da morte de Cervantes, embora não tenha muito tempo para aproveitar as iniciativas. Mas dá para apreciar o ambiente.
Alcalá de Henares foi uma boa surpresa. Tão perto de Madrid e tão longe do turismo de massas! O que vemos são as pessoas da cidade, que povoam as ruas e os bares quando o calor abranda, que convivem, bebem e conversam nas praças e nas esplanadas. 

Campanário da Catedral Magistral dos Santos Justo e Pastor, visto do Huerto de los Leones

O centro histórico de Alcalá leva-nos para o século XVI, o siglo de oro. Aqui, Isabel de Castela encontrou-se com Cristovão Colombo, antes da sua partida para o oceano desconhecido, em busca de um novo mundo. 


Palácio Episcopal, onde Isabel de Castela se encontrou com Colombo

Aqui estudaram e ensinaram muitos dos intelectuais que marcaram a cultura espanhola e europeia, na famosa Universidade, fundada em 1499. Mas, acima de todos, esta é a terra natal de Miguel de Cervantes Saavedra e, neste ano em que se comemoram quatro centenários da sua morte, toda a cidade respira a sua memória. Na praça com o seu nome e a sua estátua, há faixas comemorativas. Há grafitis e citações em muitas paredes. 


Plaza de Cervantes com as suas faixas...

...e grafitis na Plaza de los Santos Niños


E a casa onde nasceu, e onde continua através das suas personagens imortais, Dom Quixote e Sancho Pança, desenvolve várias atividades que tenho pena de não poder acompanhar.


Dom Quixote e Sancho Pança, junto à casa natal de Cervantes

A cidade, Património da Humanidade, é também chamada Cidade das Três Culturas devido ao cruzamento das culturas cristã, muçulmana e judaica. Aí coexistiram, influenciando-se mutuamente, populações dos três cultos. E a cidade presta também homenagem a essas raízes culturais.



























Relembro Cervantes, mas a cidade não está obcecada pela comemoração. E os turistas repartem a sua atenção pelos desenhos de Dom Quixote e pelas atrevidas cegonhas que ocupam os telhados das igrejas e colégios universitários. Aqui, as cegonhas têm até direito a um roteiro turístico, que nos permite percorrer o centro da cidade de nariz no ar, observando os telhados, de onde elas nos observam também, indiferentes à passagem do tempo cá em baixo!


As cegonhas, sempre...

domingo, 28 de agosto de 2016

Kotor - Um paraíso ignorado


A ilha de San Giorgio e o Mosteiro de Nossa Senhora das Pedras, na baía de Kotor

É um fiorde, mas não se encontra na Noruega. Situa-se na costa adriática, no sul da Europa e leva o mar Mediterrâneo pelo Montenegro dentro. 
Continuamos pela estrada da costa, virando agora para o interior, bordejando este mar azul que aqui se parece com um rio. O mar entra muitos quilómetros pela terra dentro, rodeado de montanhas, pontilhado de pequenas aldeias, com as suas casas de pedra e os seus barcos coloridos atracados em pequenos cais. O mar é límpido e muito sereno. De vez em quando, uma ilha emerge da água, mas quase não se vê a terra, apenas o que o homem lá construiu, umas casas, um mosteiro...
No fundo do fiorde, como uma jóia muito bem guardada, está Kotor. Surge subitamente à nossa frente, rodeada de muralhas, como uma aparição ficcionada d' "O Senhor dos Anéis". No final da Idade Média, dominada pelos venezianos, foi um entreposto comercial de alguma importância. As casas dos mercadores, apertadas em ruelas estreitas, aconchegadas dentro das muralhas, lá continuam, todas idênticas entre si. A muralha, entretanto, foi aumentada, subindo pela montanha acima, acrescentada com pequenas capelas e fortificações. É preciso coragem (e mais tempo do que nós tinhamos) para subir as centenas de degraus e calcorrear todo aquele complexo. Mas, à noite, todo o percurso se ilumina com outras tantas centenas de luzes, que rodeiam a pequena cidade de Kotor como uma coroa.


Entrando na cidade de Kotor

Comemos peixe grelhado e bebemos vinho da região numa pequena praça, ao som de um saxofone sentido. Passeamos pelas ruas empedradas, olhamos o porto de águas profundas onde um navio de cruzeiro lançou âncora, pensando que, felizmente, só ali cabe um desses navios de cada vez. Dormimos num pequeno hotel debruçado sobre as águas. 
No dia seguinte, partimos para o interior do Montenegro, a descobrir as suas montanhas e os seus rios turbulentos. Mas levamos connosco uma certeza: sim, o paraíso existe.


A baía de Kotor

terça-feira, 26 de julho de 2016

Belgrado e São Sava



A pequena igreja e a grande catedral de São Sava

Chamam a Belgrado a Princesa dos Balcãs. O nome assenta-lhe bem. A capital da Sérvia é uma cidade grande e animada, uma autêntica cidade europeia numa zona onde se misturam já muitas influências culturais diferentes.
Situada na confluência de dois grandes rios, o Danúbio e o Sava, Belgrado é uma cidade muito antiga.


A confluência dos rios Sava e Danúbio, vista do Kalamegdan

A cidade divide-se em dois espaços bem diferentes: a velha Belgrado, o centro histórico, e a Nova Belgrado, a cidade construída de raiz nos tempos de Tito para acomodar o crescimento da então capital da Jugoslávia. A Nova Belgrado é uma zona moderna, com amplas avenidas, onde se encontram edifícios administrativos, zonas residenciais e grandes hotéis. No entanto, é a velha Belgrado que atrai o visitante, entre ruas pedonais e comerciais, grandes igrejas ortodoxas e ruelas de bares e restaurantes bem animadas. É nos recantos e encantos dessa velha Belgrado que temos vontade de nos perder!


O Restaurante Ponto de Interrogação, um dos mais antigos e típicos

A zona antiga de Belgrado é dominada pelo Kalamegdan, a Fortaleza. Construída pelos Romanos, é depois muito aumentada e fortalecida pelos Turcos. Hoje, é um espaço imenso, que integra velhos edifícios turcos com o Museu de História Militar ou a bela Torre do Relógio, construída no tempo na ocupação austríaca. Com muitos espaços arborizados e por onde se pode passear, é um dos locais mais agradáveis de Belgrado. Como fica localizado no ponto mais alto da cidade, é também um belo início de visita. Dali, pode-se ver a velha e a nova Belgrado e apreciar a confluência dos dois grandes rios que banham a cidade.


A entrada na fortaleza 

O túmulo do governador Damad Ali-pasha

Outra entrada para a fortaleza

Mas o coração comercial da cidade são as avenidas, algumas pedonais, onde se pode parar a ver as montras ou a descansar numa esplanada. Tal como outras zonas da cidade, têm, no entanto, um ar um pouco nostálgico, de saudades de uma belle époque em que era o coração da grande e socialista Jugoslávia. Um passeio pela avenida Knez Mihajlova faz-nos sentir essa mistura de nostalgia pelo passado e de pressa pelo futuro.


Domingo de manhã na Avenida Knez Mihailova

A cidade está repleta de grandes monumentos: alguns são grandes construções do tempo comunista; mas muitos outros são construções século XIX e do início do século XX, de uma época de prosperidade sérvia e mostram-nos um estilo arquitetónico muito próprio e de cores vibrantes. 


O Parlamento Nacional

O célebre Hotel Moscovo

O Ministério da Educação
A praça Republike é outro ponto importante de Belgrado. Frente ao belo Teatro Nacional ergue-se a estátua equestre do Príncipe Mihailo, um dos mais importantes governantes da Sérvia, quando o país reconquistou a sua independência dos Turcos. Na estátua, o príncipe aponta para Prizren, local de origem da nação sérvia, hoje localizado no Kosovo...


Estátua do Príncipe Mihailo na Praça Republike

A zona boémia da velha Belgrado é Skadarlija, entre as ruas Cetinjska e Skadarska. Tudo começou com a construção de uma fábrica cervejeira, que ainda lá está, embora não esteja em funcionamento. Seguiram-se os bares e restaurantes, que dão à zona um ambiente colorido e animado. Há sempre música, dentro e fora dos restaurantes, e é um espaço imperdível da velha Belgrado.


A cervejaria Bajloni

A fonte a meio da Skadarlija

Ao fundo da rua Skadarska, há um sebilj, um fontanário público, oferecido pela cidade de Sarajevo à cidade de Belgrado em 1989, tão pouco tempo antes da ecosão da guerra que haveria de opor as duas cidades!


O sebilij oferecido pela cidade de Sarajevo

Para entender a Sérvia, é preciso entender a relação dos sérvios com a religião. Há um fervor religioso profundo e notório. Já o tinha pressentido nos mosteiros rurais, volta a ser evidente aqui em Belgrado. Há muitas igrejas, algumas magníficas, como é o caso da Catedral de São Miguel Arcanjo, situado junto ao Patriarcado e ao Museu da Igreja Ortodoxa Sérvia. O seu interior é tão belo e tranquilo como o exterior, em verde e dourado. Aí estão os túmulos de alguns dos mais importantes reis da Sérvia.


Catedral de São Miguel Arcanjo

Outra igreja magnífica é a igreja de São Marcos, Apóstolo e Evangelista, erigida no local onde foi promulgado o Édito do Sultão Mahmud II, estabelecendo pela primeira vez um Estado Sérvio independente, no século XIV.


Igreja de São Marcos, Apóstolo e Evangelista

A mais esmagadora é, no entanto, a Catedral Memorial de São Sava, a maior igreja do mundo ortodoxo (sem contar com Santa Sofia, em Istambul, que já não é dedicada ao culto religioso). Tem uma história curiosa.
São Sava, que viveu no século XII, é considerado o santo inspirador do amor a Deus, à Ortodoxia e à Pátria, que se misturam nos corações dos sérvios. O seu culto fortaleceu-se em 1594, quando o vizir turco mandou vir as ossadas do santo, que repousavam no mosteiro de Mileseva, e as mandou queimar, à vista dos aterrorizados habitantes de Belgrado, na colina de Vracar. As cinzas espalharam-se pela colina, consagrando aquele espaço e tornando-o sagrado para os sérvios.
Quando se cumpriram 300 anos sobre a destruição do corpo do santo, em 1894, surgiu a ideia de erigir uma grandiosa catedral dedicada a São Sava, no mesmo local onde as suas relíquias tinham sido queimadas. Foi criada a Sociedade para a Construção da Catedral e, em muito pouco tempo, foi construída uma pequena igreja para o serviço religioso durante a construção da catedral, que ainda existe. No entanto, as situações de guerra impediram o início dos trabalhos até 1932. Com a entrada da Jugoslávia na 2.ª Guerra Mundial, os trabalhos de construção cessaram e, no final da guerra, o espaço foi ocupado pelos resistentes e pelo Exército Vermelho. A Igreja Ortodoxa Sérvia não desistiu e, ano após ano, foi pedindo a restituição do espaço, até que, em 1985, pôde recomeçar os trabalhos de construção, com fundos recolhidos entre a população. A Guerra Civil fez parar novamente os trabalhos, entre 1991 e 2000 ("Enquanto algum dos nossos compatriotas sofrer de doença ou fome por causa da guerra, a Catedral não será construída", terá afirmado o Patriarca Sérvio Pavle) mas, a partir daí, a construção avançou decididamente. 
Quando estive na basílica, em agosto de 2015, não estava ainda terminada mas era já um edifício grandioso. As grandes paredes de mármore branco, as cúpulas de cobre, a grande cruz folheada a ouro, impõem admiração. Também no interior se segue o estilo tradicional: nas colunas, na iconostase com os seus ícones, nas pinturas que cobrem as paredes, na delicada e profusa decoração dos arcos, nos mosaicos do pavimento. Não é possível tirar fotografias no interior, pelo que não posso mostrar muitas imagens da basílica. É preciso lá ir!
A basílica de São Sava representa, de algum modo, a identidade e o nacionalismo sérvio. No folheto explicativo com que acompanhamos a visita lê-se: A Catedral representa uma nova Jerusalém (...) a unidade da Ortodoxia (...) a glória e a honra do povo sérvio (...) e a oferenda do povo sérvio à comunidade humana universal.

A Catedral Memorial de São Sava



sábado, 11 de junho de 2016

As igrejas de Amesterdão


O Campanário da Wester Kerk

A palavra Amesterdão evoca imediatamente, na nossa mente, imagens de canais, com as suas casinhas flutuantes, pontes cheias de bicicletas e recantos tranquilos. É, sem dúvida, uma imagem que corresponde à realidade. Os canais de Amesterdão são Património da Humanidade e representam bem o espírito trabalhador e tenaz dos holandeses.
Pouco se ouve falar das igrejas de Amesterdão. E, no entanto, elas encantaram-me pelo que nos contam sobre o modo de ser holandês, a sua proverbial tolerância e o seu pragmatismo. Um passeio pelos locais sagrados de Amesterdão é um percurso pela evolução do seu pensamento sobre a nossa relação com a religião.

Oude Kerk, a igreja mais antiga de Amesterdão

A igreja mais antiga de Amesterdão é a Oude Kerk, edificada em1306 no local onde já existia uma velha ermida de madeira, e consagrada a S. Nicolau, padroeiro dos marinheiros. É uma igreja bastante grande, com mais de trinta capelas e um belo orgão barroco. As convulsões violentas das lutas religiosas do século XVI levaram a igreja para as mãos dos protestantes calvinistas, que a esvaziaram de todas as estátuas e pormenores decorativos. Hoje, o que mais espanta os nossos olhos habituados à riqueza decorativa das igrejas católicas, é precisamente o esvaziamento do espaço, onde apenas restaram as colunas e os bancos de madeira.

O espaço interior da Oude Kerk

A mesma perceção estranha de espaço vazio nos atinge quando visitamos outras igrejas protestantes da cidade. A mais conhecida é provavelmente a Westerkerk, construída já no século XVII, em que as grandes janelas permitem uma bela entrada de luz, que ilumina e alegra o amplo espaço interior. Esta igreja tem o campanário mais alto de Amesterdão, visível de quase toda a cidade. Um pormenor interessante: uma lápide na parede informa-nos de que ali se encontram os restos mortais do grande pintor Rembrandt. O que a lápide não conta é que Rembrandt morreu cheio de dívidas e foi sepultado naquele local porque a família não teve meios para lhe dar uma sepultura mais digna.
Várias igrejas foram perdendo a sua função de locais de culto, ou por falta de praticantes ou por alteração das prioridades cívicas. É o caso da Ronde Lutherse Kerk, com a sua grande cúpula de cobre, que serviu de armazém durante uma grande parte do século XX, até que uma multinacional americana apresentou uma proposta de restauração que foi aceite pela cidade, e a transformou num luxuoso centro de congressos.

A fachada da Nieuwe Kerk

É também o caso da Nieuwe Kerk, em plena Praça Dam. Esta igreja data ainda do século XV, mas desse tempo, pouco mais resta do que o púlpito e o grande vitral virado para a Dam, que representa a entrega das armas da cidade aos seus magistrados. Hoje, a igreja é principalmente uma original sala de exposições. Atualmente, expõe regularmente telas de um artista contemporâneo que se relacionem com temas religiosos. Quando lá estive, estava em exposição a obra Calvary de Marc Chagall: um judeu perseguido que pinta o sofrimento de Jesus, mostrando-o como outro judeu perseguido. Havia painéis interpretativos da obra, contextualizando-a na época e na obra do autor. Gostei imenso desta ideia e desta utilização do espaço.

O altar-mor da Igreja do Nosso Bom Senhor do Sotão

Mas não encontramos só igrejas protestantes em Amesterdão. Nunca deixou de haver católicos na cidade e, depois dos primeiros tempos de perseguição e destruição, os católicos reorganizaram-se e ao seu culto. Um dos espaços mais estranhos e interessantes da cidade é a igreja de Nosso Bom Senhor no Sotão (Ons' Lieve Heer op Solder). Como o nome indica, é uma igreja clandestina, construída nos últimos três andares de uma casa de habitação, completamente escondida dos olhares do público. Foi feita por um comerciante de tecidos, alemão e católico, e era frequentada por muitas das famílias católicas de Amesterdão, que subiam para a igreja por entre os quartos de habitação e os armazéns de tecidos. Hoje, é um espaço museológico muito interessante e bem organizado. Aparentemente, o culto católico era aceite, desde que não fosse visível. Tolerância? Ou um pragmatismo com um toque de cinismo?

A grande basílica de S. Nicolau

Mas os católicos tiveram a sua desforra. Quando lhes foi dada liberdade de culto, construiram a mais monumental igreja de Amesterdão, a Igreja de São Nicolau, terminada apenas em 1887. É uma basílica grandiosa, ricamente decorada, com duas torres barrocas e uma cúpula que se avista de toda a cidade. E merece uma visita atenta.

O altar-mor da basílica de S. Nicolau

Fazendo justiça à sua mentalidade aberta e tolerante, encontram-se hoje em Amesterdão locais para todos os cultos imagináveis. Passei por armazéns transformados em mesquitas e até por um prédio dedicado à Cientologia. A relação dos judeus com Amesterdão também fica bem atestada pela imponente Grande Sinagoga Portuguesa.

A Grande Sinagoga Portuguesa
A Sinagoga Portuguesa conta a história da perseguição movida pela Inquisição ibérica aos judeus, que encontram abrigo e liberdade de culto na Amesterdão dos séculos XVI e XVII. O seu exterior, um grande cubo de tijolo vermelho, não permite prever a beleza e luminosidade do interior. Está rodeada por três sinagogas mais pequenas, que hoje abrigam o Museu Histórico Judeu. Aí encontramos, além de peças preciosas, retratos e documentos interessantes de famílias que ainda têm nomes portugueses. Identificamo-nos com os seus nomes e com as suas atribulações. Aceites no século XVI, trabalharam e contribuiram para a riqueza da cidade. No século XX, quando voltaram a ser perseguidos, nenhum Estado os defendeu, nem o estado holandês, onde há tanto tempo estavam estabelecidos, nem o estado português, ao qual ainda estavam ligados por laços familiares. 

O interior da Grande Sinagoga Portuguesa

E saio de Amesterdão a revolver o verdadeiro significado da palavra tolerância. O que quer dizer, afinal? Admitir junto a nós? Ou aceitar como um de nós? Fico com a minha dúvida...


Vista sobre os telhados de Amesterdão, a partir da Igreja do Nosso Bom Senhor do Sotão

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