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quinta-feira, 1 de julho de 2021

Os castelos de Loarre e Ponferrada – Os guardiões do caminho

 

O Castelo de Ponferrada

Quer acreditemos ou não que o túmulo descoberto nos confins da Ibéria no século IX continha mesmo os restos mortais do apóstolo Santiago Maior, para ali transportado numa barca de pedra depois de ter sido decapitado em Jerusalém, pouco importa... O facto inegável é que essa descoberta deu origem à Rota Jacobeia, ou Caminho de Santiago, a peregrinação mais importante da Europa medieval. Mais significativa para o crente, só a peregrinação aos centros do Cristianismo, Roma ou Jerusalém. Mas essas peregrinações esgotavam-se no local de destino, enquanto na Rota Jacobeia o mais importante era precisamente o caminho.

O Castelo de Loarre


Cada vez mais pessoas percorriam os campos e os caminhos do norte da Península Ibérica, na direção da Galiza e de Santiago de Compostela. O caminho semeou-se de ermidas e locais sagrados e povoou-se de lendas e histórias edificantes, que ajudavam o peregrino no seu percurso em direção a Compostela e à transcendência de si mesmo.

Todavia, nos séculos X e XI, o norte da Península era um lugar perigoso, assolado pelos muçulmanos que ocupavam todo o restante território peninsular. Se, por um lado, a peregrinação era importante como uma afirmação do Cristianismo face ao Islão, por outro lado, colocava desafios no que dizia respeito à proteção dos peregrinos. Assim, ao lado das ermidas e catedrais que pontuam o caminho, cresceram também castelos para garantir a sua defesa.

Ao longe, o castelo mal se distingue dos rochedos


Um dos mais importantes e majestosos é o Castelo de Loarre. Localizado em Aragão, ainda terra de fronteira com os infiéis, assinalava quase o início do chamado caminho aragonês, logo à saída dos Pirinéus. A sua silhueta imponente mistura-se com os maciços rochosos, tornando-o difícil de distinguir ao longe. E, no entanto, é a maior e mais complexa fortificação românica de Espanha.




Dentro do castelo...

Foi mandado construir pelo rei de Navarra logo no início do século XI, constituindo-se de imediato como um baluarte defensivo face ao poder muçulmano. No final do século, funda-se no castelo um mosteiro de monges agostinhos. Com esta fundação, o castelo é ampliado e há várias campanhas de obras. Esta junção da esfera militar com a esfera religiosa, torna o edifício uma estrutura complexa, composta por três andares, ligados por escadas interiores e exteriores. A função militar e a função religiosa cruzam-se. As torres de defesa, a sala de armas, os calabouços, são vizinhos das celas dos monges e das pequenas capelas de Santa Maria e Santa Quitéria. A bela Capela Real, ou Igreja de São Pedro, é um exemplo do estilo românico no seu apogeu, desde as finas colunas que rodeiam as janelas até aos capitéis que rematam as colunas da ábside, decorados com motivos vegetalistas ou fantásticos e cenas da Bíblia.

Os nossos capacetes repousam numa das belas janelas do Castelo de Loarre


E aqui se pôde admirar, durante algum tempo, o próprio Santo Graal, isto é, a taça que teria recolhido o sangue de Cristo na cruz. É aqui que a história se mistura com as lendas, com o misticismo popular, com os símbolos de poder. Juan G. Atienza, no seu livro sobre as lendas do Caminho de Santiago, traça o itinerário que o dito Cálice teria percorrido, desde as mãos de S. Pedro, que recolheu o sangue, até ao recém-formado reino de Aragão. Hoje, como se sabe, repousa alegadamente numa capela da Catedral de Valencia.

Réplica do Graal que terá andado por terras de Aragão (mosteiro de San Juan de la Peña)

Não vale confundir este cálice aragonês com o Graal das lendas arturianas, relacionado com a busca da sabedoria e do auto-aperfeiçoamento. Como escreve Atienda, aqui em Aragão o mito “transformou-se numa realidade palpável e acabou por se converter num objeto devocional por excelência, meta de ideais e versão palpável de um símbolo universal.”

Se o Castelo de Loarre é o primeiro grande castelo que encontramos na proteção do Caminho de Santiago, o último localiza-se quase no outro extremo da península, à entrada da Galiza: é o Castelo de Ponferrada.

A entrada principal do castelo de Ponferrada

O nome de Ponferrada parece ter surgido de uma ponte medieval reforçada com ferros (pons ferrata), construída para benefício dos peregrinos a caminho de Santiago. E é aí que é construído também o grande castelo dos Cavaleiros Templários, na sequência da doação feita pelos reis de Leão à Ordem do Templo, em 1178. Desde o início, o objetivo assumido é a defesa do Caminho de Santiago.

O maior torreão do castelo

Hoje, o castelo que podemos visitar já é seguramente muito diferente do original. Houve obras de ampliação e reformas até ao século XV e, em alguns setores, mesmo no século XIX e início do século XX.

O espaço interior ainda mostra os sinais das campanhas de obras

A entrada do castelo, através do chamado Portão de Armas, rodeado de torreões, é imponente e irresistivelmente bonita. Dentro do castelo funciona o Museo del Bierzo, que expõe a Recuperación del Castillo de los Templarios. Vale a pena visitar e perceber as vicissitudes por que o espaço já passou, em especial nos últimos séculos. Depois de ficar quase destruído durante a Guerra Peninsular, as suas pedras foram utilizadas para outras construções e até vendidas. Foi utlizado como terreno de cultivo, depois como clube desportivo. A construção de um campo de futebol no seu interior ajudou à destruição. Só no final do século XX se restaurou e requalificou o castelo templário. Talvez por tudo isto, apresenta um certo ar de castelo de desenhos animados.

Pátio de Armas recuperado do Castelo de Ponferrada

Quando visitei o castelo, estava aberta ao público uma grande exposição chamada Templum Libri – As páginas mais belas do conhecimento, com um conjunto maravilhoso de livros e estampas repletos de iluminuras. Alguns são réplicas, mas estão indicados como tal e só acrescentam beleza ao conjunto.





Dois castelos, dois estilos, duas histórias. Em comum, o objetivo de defenderem uma das rotas religiosas mais importantes da Europa, o Caminho de Santiago.

Também em comum, a chuva que caía quando os visitei: chuva puxada a vento no Loarre; uma chuvinha miúda em Ponferrada. Em consequência, as fotografias não ficaram tão bonitas como eu gostaria e não fazem jus a estas imponentes fortificações. Como sempre, melhor do que ver as fotografias será visitar os próprios castelos.

Outra perspetiva do Pátio de Armas recuperado do Castelo de Ponferrada


terça-feira, 14 de abril de 2015

De mota pelos Pirinéus VII - O misterioso Mosteiro de San Juan de la Peña


À descoberta do monasterio...
Começamos a sair do Maciço Central dos Pirinéus e a descer pelo chamado Pirineo Aragonês. É aqui, no meio da paisagem protegida do Monte Oroel, que encontramos um dos locais mais estranhos e fascinantes da nossa viagem: o Monasterio de San Juan de la Peña.


O Monasterio de San Juan de la Peña, debaixo da sua enorme pedra
Conta a lenda que um jovem caçador, Voto, em perseguição de um cervo, teria caído de um destes penhascos, ou penhas, e teria encontrado numa cova o cadáver de um ermitão, Juan de Atarès. Impressionado, vendeu todos os seus bens e recolheu-se com o seu irmão Felix no mesmo local, criando aí uma ermida, que está na origem do mosteiro.


Vista da penha que cobre o mosteiro
Estavamos no século VIII, e conta também a lenda que aqui se teriam reunido os companheiros de Garci Ximenez, o primeiro vencedor, nesta zona, dos sarracenos que ocupavam a Península Ibérica. Vem daqui a ligação dos primeiros reis de Aragão a este mosteiro, onde estão enterrados.
O mosteiro vai sendo construído e ampliado, entre os séculos XI e XIII. Ainda se podem visitar várias salas, dormitórios, refeitório, capelas. A vida no mosteiro era austera, como a paisagem que o rodeava.

A paisagem circundante
As salas, de tetos altos e grossas paredes de pedra, ajudam-nos a reviver o dia a dia dos monges, nessa época remota. Os que pretendiam ser admitidos tinham de ficar cinco dias à porta, sem comer, e passar depois o primeiro ano em absoluto silêncio. Vidas de eremitas...


As capelas
O claustro é exterior ao edifício principal e situa-se debaixo da enorme penha que dá nome ao local. É de uma beleza e originalidade ímpar.


O invulgar claustro exterior
Os capitéis ilustram cenas da Bíblia, com uma mestria e um naturalismo invulgares na época.


Um dos capitéis, com a cena da última ceia de Cristo
Mas os tempos mudam e as exigências de conforto também. É assim que, no século XVII, na sequência de um grande incêndio, se decidiu construir um novo mosteiro, num local próximo mas mais acessível. Talvez o velho ermitão Juan de Atarès não tenha gostado de ser abandonado. Várias vicissitudes fazem com que o novo mosteiro nunca seja terminado. Hoje, completamente reabilitado, ressurgiu como uma Hospedaria com quatro estrelas!
Curiosidade: também conta a lenda que o mosteiro teria guardado o Santo Graal, entre os séculos XI e XIV. Ainda lá se pode ver uma suposta réplica do verdadeiro cálice.


A réplica do Santo Graal
Ainda repletos desta beleza austera e de espírito monástico, continuamos o nosso caminho à procura de um local para almoçar. O salto para o século XXI não podia ser mais brusco. Acabamos por almoçar com um grupo de motards da Catalunha, num camping para amantes dos ditos motociclos. Falam-nos dos Mallos de Riglos, as espetaculares portas dos Pirinéus, com as suas protegidas colónias de abutres. As portas servem para entrar, no nosso caso servirão para sairmos dos Pirinéus. Já com saudades!


A primeira visão dos Mallos de Riglos
Não estavamos preparados para a visão, quase súbita, daquelas enormes formações de pedra. Erguem-se realmente como portas de entrada para um mundo mágico e fantástico!
Ali se praticam vários desportos de aventura, como escalada ou simples caminhadas. O Trail Mallos de Riglos, uma prova de trail running, realiza-se no próximo mês de maio. Se alguém estiver interessado, talvez ainda vá a tempo de fazer a sua inscrição...


Os grandiosos Mallos de Riglos, vistos de frente

segunda-feira, 6 de abril de 2015

De mota pelos Pirinéus VI -O charme discreto de Ainsa


Os rios que correm da montanha em Vielha
A zona sul dos Pirinéus espanhóis, desde Vielha a Biescas, está direcionada para a prática de desportos de aventura, desde a escalada  aos passeios a pé ou de bicicleta, da caça à pesca desportiva. Não é de admirar. Estes maciços montanhosos são abruptos, erguem-se repentinamente impondo respeito com os seus picos, que atingem oa 3000 metros de altura. O Monte Perdido, por exemplo, em pleno Parc Nacional de Ordesa, atinge 3355 metros. Por todo o lado se encontram lojas de artigos desportivos. Os rios, que correm das montanhas e chegam apressados aos vales, por entre pedras e rápidos, estão marcados para provas de rafting. Há trilhos de caminhada e de escalada, bem indicados. 

Via Ferrata do Sorrosal

Castejón de Sos é a capital do parapente. E os turistas acompanham esta tendência, são principalmente jovens descontraídos e desportistas.


Jovem turista em Castejón de Sos

E, no meio desta agitação, Aínsa. Encantadora, imperturbável, com o seu charme de outros tempos.
Aínsa fica situada num promontório, entre os rios Cinca e Ara, que aí se juntam, e é uma espécie de viagem no tempo. Mal entramos no núcleo antigo da cidade, somos transportados para um distante passado medieval. 

Porta de entrada no núcleo medieval de Aínsa

As suas ruas estreitas e floridas, as praças sossegadas, as igrejas de pedra escura, as velhas casas senhoriais, tudo nos remete para um passado ainda muito presente. 

Uma das casas senhoriais de Aínsa

Na história de Aínsa cruzam-se celtas e romanos, muçulmanos e cristãos, lendas e história. O seu castelo do século XI lembra-nos o tempo em que a cidade era disputada por cristãos e sarracenos e, a cada dois anos, Aínsa festeja La Morisma, celebrando a vitória de Garcia Ximenez sobre os muçulmanos, em 724, quando uma milagrosa cruz em chamas apareceu aos combatentes.

Esplanadas na praça

A praça principal, cercada de pórticos e colunas, é um hoje um espaço muito agradável, cheio de esplanadas, onde se pode petiscar ou simplesmente beber uma cerveja fresca no fim da tarde. E a vista sobre o Monte Perdido, a partir da esplanada do castelo, é imbatível.

Vista da praça a partir do castelo

Depois de Aínsa e antes de chegar a Torla, recomendo um desvio da estrada principal, substituindo-a pela velha estrada HU631. Encaixada entre duas falésias, que chegam a ultrapassar os mil metros, é uma estrada estreita, para percorrer devagar, acompanhando o rio que corre lá em baixo, à medida que se vai apreciando a beleza das escarpas. A estrada só tem um sentido, por isso, quando se chega ao cruzamento para Biescas, ou se segue em frente ou se volta para Aínsa pela estrada nacional. Há ainda uma terceira hipótese: deixar a mota no parque de estacionamento, seguir o trilho pedestre que sobe até uma antiga capelinha e prolongar um pouco mais o encantamento daquelas paragens.

Cascata de Sorrosal


terça-feira, 31 de março de 2015

De mota pelos Pirinéus V - Andorra e Val d'Aran


Os pequenos hotéis de montanha
Tinhamos decidido cruzar outra vez os Pirinéus, para Espanha, em Andorra. Atendendo a que já conheciamos o principado e não estavamos interessados em comprar equipamento de ski ou máquinas fotográficas, não tencionavamos parar muito tempo por lá. Os nossos objetivos, decididamente, estavam longe dos grandes aglomerados turísticos; estavamos virados, isso sim, para a montanha e parecia um bom local para atravessar novamente para Espanha.



Uma rua de Escuñau
O tempo ameaçava chuva, mas já tinhamos apanhado muitos chuviscos e estavamos confiantes de que não seria mais do que isso. Mas, mal começamos outra vez a subir a montanha, a temperatura começou a descer e as nuvens adensaram-se no céu. Em Pas de la Casa já chovia e quando chegamos a Andorra la Vella chovia copiosamente. A chuva, em cima de uma mota, é muito desagradável; pior mesmo só o calor excessivo. Os nossos fatos de água protegiam-nos o corpo, mas as luvas de verão ensoparam-se de água que começou a escorrer pelas mangas e pelos braços. A viseira do capacete, sem limpa pára-brisas, tirava-nos visibilidade. E eu só pensava em parar e abrigar-me!
Parámos, finalmente. Nunca me agradou tanto entrar num centro comercial! Era tudo tão quentinho e confortável! Encontramos um secador de mãos muito potente, numa casa de banho, e aí estivemos a secar a roupa, particularmente as luvas. Almoçamos no centro comercial. Não viamos as montanhas naturais, mas viamos montanhas de gente que passava! Foi o melhor que se conseguiu arranjar!


A Igreja de San Péir - Ço de Péirjoan
Considerada a casa mais antiga do Vale de Aran
A porta medieval do Ço de Peirjoan





















A seguir ao almoço, tinhamos de seguir, com chuva ou sem ela. Felizmente, o temporal amainou e conseguimos cumprir o nosso itinerário. Cruzamos os vales d' Aneu e d'Aran, bordejando o Parc Nacional d'Aiguestortes, com as suas belas e consecutivas estâncias turísticas. No inverno e na primavera, quando toda aquela zona está coberta de neve, são estâncias de ski muito concorridas, como Baqueira e Beret. No verão, os grandes hotéis são muito menos concorridos, mas há hotéis mais pequenos e pitorescos, bares e restaurantes, casas de férias, e o ambiente é igualmente muito agradável. Foi num desses pequenos hotéis do Val d'Aran que pernoitamos, com paredes de pedra e sardinheiras nos balcões.
Estes vales mereciam uma paragem maior. Podiamos bem fazer umas férias só a explorar os trilhos de montanha, os lagos, as paisagens magníficas, as pequenas igrejas medievais... mas havia que seguir viagem!
Do percurso que tinhamos preparado, só falhamos a paragem no Port de la Bondigua, com os seus 2072 metros. Ainda lá passamos, mas o frio e o nevoeiro eram tão intensos que decidimos não parar. Os sacrifícios têm limites! Especialmente em férias...


Quarto com vista sobre a montanha

quarta-feira, 25 de março de 2015

De mota pelos Pirinéus IV - Os Cavalos Merens

Os cavalos Merens
O Haras Picard du Saint fica no extremo de uma pequena aldeia, aninhada na paisagem ondulante das colinas de Ariège. Na prática, são duas ruas, uma bifurcação, um café. Um cemitério onde avultam os memoriais aos mortos da Primeira Guerra e aos resistentes da Segunda. Uma dúzia de casas, com os seus jardinzinhos e as garagens ocupadas por tratores e utensílios agrícolas. Não é fácil descobrir a quinta, a casa não difere muito das restantes, mas lá nos indicam o local.

À entrada da coudelaria
Parece não estar ninguém. Não há resposta para os toques de campainha. Resolvemos telefonar para o dono da quinta que nos põe à vontade: "Empurrem o portão, entrem, a casa não está trancada!" Insiste para levarmos as bagagens para dentro, dá-nos o nome do quarto (aqui, os quartos não têm números, têm nomes próprios!) e diz-nos onde podemos trocar as botas por uns chinelos de andar por casa. É assim o Jean-Louis, informal e descontraído!
Ao fim da tarde, o Jean-Louis e a Christine, os donos da casa, explicam-nos a situação. Nas traseiras da casa, pastam uns quatro ou cinco belos cavalos negros, da raça Merens. São calmos e meigos, deixam-se afagar. Aparentemente, são os mais velhotes, já quase membros da família. A manada está lá em cima, nos pastos de montanha, acompanhada por um pastor daqueles que alia os velhos métodos de busca e contenção às novas tecnologias. Isto é, o pastor anda acompanhado por um cão e um telemóvel! Na noite anterior, a manada tinha-se assustado com um urso que por ali rondava, e o pastor dera pela falta de um cavalo. Agora, procuravam encontrar o cavalo ou, pelo menos, perceber qual faltava! Soubemos depois que o cavalo que faltava era um dos mais jovens que, assustado, caíra por uma ribanceira.

Os cavalos que pastam nas traseiras da casa
A coudelaria Picard du Saint cria e leva a concurso os cavalos Merens. Os prémios são muitos e estão expostos, juntamente com muitos objetos que nos remetem para uma antiga casa de lavoura, mas com todos os confortos da atualidade. A cozinha confina com a sala e está recheada de produtos caseiros, dos chás aos bolos, dos doces aos pickles. Infelizmente, levantei-me cheia de dores de estômago e não pude fazer jus aos bons sabores da mesa do pequeno almoço.

A nossa montada no estábulo, junto às placas dos prémios
Tenho de admitir que as dores de estômago foram totalmente da minha responsabilidade, já que me tinha empanturrado de cassoulet de canard no jantar do dia anterior, num restaurante de uma aldeia próxima que o Jean-Louis nos tinha recomendado.
Além de nós, também estava alojada na quinta uma família francesa, com duas crianças. Os nossos anfitriões indicavam-nos de bom grado as atividades interessantes que podiamos fazer nas proximidades. E há muita escolha, desde passeios a cavalo até uma visita ao encantador Castelo de Foix, que também tem atividades para crianças. São com certeza umas férias diferentes, mas igualmente com os seus encantos.


O Castelo de Foix

quarta-feira, 18 de março de 2015

De mota pelos Pirinéus III - A rota dos cumes


Para quem anda a passear pelos Pirinéus franceses, é imprescindível fazer a Route des Cols ou, traduzindo, a Rota dos Cumes. A Rota completa cruza toda a cadeia montanhosa dos Pirinéus, do Oceano Atlântico ao Mar Mediterrâneo, subindo a nada menos do que trinta e quatro cumes. Nós não fizemos toda a Rota, mas tirámos um dia para subir a alguns dos cumes mais famosos.



Em Oloron Sainte Marie começamos a percorrer a famosa rota. O dia não estava famoso, ameaçava chuva e, quando começamos a subir a montanha, rodeou-nos um nevoeiro denso como algodão em rama. O nosso objetivo era o famoso Col du Tourmalet, com os seus 2.115 metros de altitude. Lá iamos subindo, no meio do nevoeiro, com a triste certeza de estarmos a perder umas paisagens fantásticas. Mas a altitude salvou-nos. Quando nos aproximavamos do cimo da montanha, passamos para cima das nuvens e pudemos apreciar a paisagem em toda a sua imensa beleza.



O Col du Tourmalet tornou-se famoso através da Volta à França e os primeiros ciclistas a alcançarem o topo tornaram-se verdadeiros heróis. Lá têm os seus nomes escritos na estrada e uma pequena estátua evocativa, hoje quase coberta pelos autocolantes dos clubes de ciclistas e motociclistas de toda a Europa que assim querem afirmar que também conseguiram ali chegar. Mas... será que com o tempo se tornou mais fácil rodar até lá acima? O cume da montanha estava cheio de gente, especialmente ciclistas. Grupos, famílias... Há lojas de recordações e selfies por todo o lado. Também tiramos as nossas fotos e seguimos viagem.



A Route des Cols passa por lugares encantadores e há pequenos restaurantes onde se pode apreciar a gastronomia da região, como o restaurante Les Cîmes, onde comemos truta do rio e uma espécie de guisado de pato, com as ervas e os produtos locais.



Passamos o dia a subir de Col em Col. Col d'Aspin, Col de Peyresourde, Col de Portet d'Aspet. O tempo foi variando entre o sol, o nevoeiro e os chuviscos, mas deixamos de nos preocupar com isso, tal como todas as outras pessoas que encontravamos, em cada topo de montanha, com um sorriso de etapa ultrapassada. No Col d' Aspin, encontramos um ciclista alemão, com uma simpatia equivalente à idade, que parecia já razoavelmente avançada. Disse-nos que estava ali a descansar e, entretanto, dispunha-se a tirar fotografias aos trepadores que ali chegavam. Gostei da disponibilidade.
Após o Col des Ares, viramos as costas à montanha. Tinhamos uma dormida marcada numa quinta de criação dos cavalos da raça Merens. Mas isso já é outra história...


Lamas a subirem ao Col du Tourmalet?



sexta-feira, 6 de março de 2015

De mota pelos Pirinéus II - Betharram


Estrada nos Pirinéus Franceses
Entramos nos Pirinéus franceses pelo Pico de Orhy, procurando fugir às estradas nacionais, mais frequentadas. Queriamos sentir a montanha, perceber como se vive ali, percorrer sem pressa as velhas estradas. Passamos por manadas de vacas e por cavalos que pastavam serenamente nas encostas. O dia estava húmido e a estrada, por vezes, escorregadia. As pequenas cascatas apressavam-se pelos montes abaixo.



No Pico de Orhy
Quando a fome começou a apertar, paramos a mota numa aldeia, onde vimos uma indicação de "Alimentation" escrita na parede. Lá dentro, duas mesas e um balcão de madeira recriavam o ambiente de um episódio do detetive Maigret. E nada para comer... Mais à frente, num bar, lá nos arranjaram umas sandes para enganar a fome. Na televisão, passava um programa local, com informações sobre atividades que iriam decorrer nas redondezas, intercaladas com pequenos apontamentos sobre a língua basca. Passamos o nosso improvisado almoço, muito divertidos, aprendendo palavras e expressões em basco. Infelizmente, não apontei nada e não me lembro de uma palavra.
Regressamos à estrada, no meio de uma vegetação compacta. Aqui, já não há vacas nem cavalos, mas, em contrapartida, deparamos com uma águia, que levantou voo mesmo à nossa frente, olhando para nós, como se nos indicasse o caminho. Pareceu-me um bom prenúncio...
A tarde já vai a meio quando reentramos na estrada principal, que liga Pau a Lourdes. Aí, encontramos à nossa direita o santuário de Betharram. Ofuscado e um pouco esquecido a favor do seu vizinho, o grande Santuário de Lourdes, é, no entanto, um local encantador e cheio de histórias.


O Santuário de Betharram
Conta a lenda que ali se teria dado um milagre: uma rapariguinha, prestes a afogar-se, ter-se-ia salvo pela mão de Nossa Senhora, que lhe teria estendido um ramo a que ela se agarrou, até chegar à margem do rio que por ali corre. Estavamos no século XVII. Mais de oitenta milagres são reportados só durante esse século, sempre por intercessão da Virgem. É então construído o santuário, em estilo barroco, que ainda hoje se pode visitar.


Estátua da rapariga salva pela Virgem
É também dessa época a Via-Crucis, com várias capelas que se espalham pela encosta da montanha. Foram destruídas durante a Revolução Francesa, mas foram depois reconstruídas durante o século XIX.
Em 1837, São Miguel Garicots funda aí a Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus. O sarcófago de vidro onde repousa pode ainda ser visto na Capela de São Miguel.


Capela de São Miguel

Quando visitamos o Santuário, estava aí patente uma exposição sobre as perseguições de que os cristãos são vítimas, neste momento, em várias partes do mundo. Todas as manhãs, as televisões passam imagens onde pontuam as atitudes intolerantes e violentas do chamado Estado Islâmico. Infelizmente, o assunto não podia ser mais atual...


Velha ponte sobre o rio em Betharram