sexta-feira, 28 de setembro de 2018

De mota até às Highlands V – A North Coast 500





O nosso principal objetivo nesta viagem era percorrer a North Coast 500, uma estrada que circunda todo o extremo norte da Escócia. Partindo de Inverness e terminando também em Inverness, a NC 500 configura uma rota circular de mais ou menos 500 milhas, que percorre as paisagens costeiras das Highlands.
Não é um percurso para quem gosta de turismo urbano. A última grande cidade que encontramos é, precisamente, Inverness. Mas é, sem dúvida, uma rota a considerar por todos aqueles que gostam de guiar por pequenas estradas panorâmicas, tendo por companhia apenas a imensidão do mar e das charnecas, muitas ovelhas e um ou outro veado!
O afastamento das grandes cidades põe alguns desafios. Tivemos um problema na mota, logo no início deste percurso, que nos obrigou a alterar o itinerário previsto e a deixar a mota no melhor mecânico das Highlands: Mitchell's em Inverness. Felizmente é o melhor, porque também é o único; até às Ilhas Orkney, lá bem a norte, não há outra oficina para motorizadas.


A oficina Mitchell's em Inverness

Como já mencionei, a NC 500 é uma rota circular e foi isso que nos valeu. Deixámos a mota na oficina e voltámos a apanhá-la quatro dias depois, já reparada com uma peça vinda sei lá de onde!
Entretanto, alugámos uma Triumph para continuarmos a nossa viagem, o que é muito mais "british"!


Uma Triumph em vez de uma BMW

Vinhamos de Corran, perto de Fort William. Depois do Loch Lomond - talvez o mais belo lago da Escócia - as paisagens começaram a ficar mais despidas e desoladas, mas não menos bonitas. O tempo também começou a ficar mais "escocês", isto é, bem mais frio e com chuvadas ocasionais, por vezes nas alturas menos convenientes. Por exemplo, queríamos apreciar as Neptune's staircase, junto a Fort William, uma sistema de comportas que transporta os barcos para o canal que atravessa a Escócia, até Fort Augustus. Mas a bátega de água foi tão forte que já nem apetecia apreciar a água que entrava e saía das comportas... Era água a mais!


O Loch Lomond pela manhã

A Igreja de Luss, na margem do Loch Lomond

Tínhamos previsto uma passagem pela Ilha de Skye mas, quando chegámos a Mallaig com a intenção de apanhar o ferry para Armadale, já na ilha, descobrimos que não havia bilhetes disponíveis para a travessia. Portanto, a ilha de Skye terá de ficar para outra oportunidade...
Como já disse, a avaria da nossa mota obrigou-nos a alterar o percurso e passámos uma boa parte da tarde na oficina, situada perto de Inverness, na margem do Loch Ness. Avistámos muitas motas, mas da Nessie nem sinal!


A cidade de Inverness...

... sobre o River Ness

Em Inverness fomos brindados com um espectáculo de gaita de foles

O "drum major"

Conseguimos recuperar o itinerário e ainda seguir para o hotel previsto, em Kinlochewe. Não costumo fazer aqui grandes apreciações sobre os hotéis em que pernoitamos, mas este merece um pouco mais. O edifício é antigo, recuperado seguindo uma linha rural mas muito confortável. Os donos receberam-nos com grande afabilidade e a conversa fluiu, fácil e agradável, durante o jantar e no dia seguinte, pela manhã. Era um casal interessante: ela, risonha e calorosa, era uma antiga professora; ele tinha trabalhado para a IKEA nos mais diversos países, incluindo Portugal. Um dia, chegaram à conclusão de que era o momento de deixarem as carreiras seguras e abraçarem um sonho e um desafio. E nasceu o Kinlochewe Hotel, onde não há televisão mas um grande puzzle na mesa da sala de estar pede a atenção e o contributo dos hóspedes! E onde as floreiras são velhas botas de caminhada!


Kinlochewe Hotel


São botas velhas ou floreiras?

O dia seguinte levou-nos até ao célebre Applecross Pass, um dos pontos icónicos da NC 500. Depois de um percurso espetacular pelos Glen Docherty e Glen Carron, eis-nos na célebre passagem. Mal começamos a subir, o tempo começou a piorar e a chuva instalou-se. Pouco vimos do trajeto, fustigados pela chuva e pelo vento. Felizmente, havia muito pouco trânsito; só me lembro de nos cruzarmos com um cortejo de Porshes descapotáveis!


Entrada no Applecross Pass

À chegada a Applecross, o tempo melhorou e a estrada até Shieldaig reconciliou-nos com o mundo. Muito estreita (nas Highlands as estradas rurais só têm espaço para um automóvel, havendo regularmente reentrâncias para os cruzamentos) mas muito bonita, alcandorada nas encostas verdejantes, onde só há pequenas quintas e muitas ovelhas! Cada curva abre um novo cenário magnífico, entre o mar e a terra, sempre idêntico e sempre diferente.


Monumento aos mortos nas guerras do século XX, em Applecross

Como descrever a paisagem neste norte das Highlands, a que chamam Wester Ross? Não há fotografias que lhe façam justiça. Rodamos durante quilómetros sem encontrar povoações, no meio das montanhas arredondadas de Torridon ou dos inúmeros lagos e enseadas. A costa é muito irregular e as ilhas e penínsulas sucedem-se. A água é uma constante e por todo o lado há fios de água que escorrem pelas encostas. As árvores são gigantescas e estendem-se em ramos e raízes que lhes dão um ar quase humano, de quem quer abraçar o mundo ou levantar o tronco e caminhar. Lembro-me de Tolkien e da Terra Média. Podia ser ali...
Quanto mais para norte, menos florestas se encontram, mas há uma imensidão de charneca, pintada de pequenas flores rosadas.


Os fios de água escorrem pelas encostas

A imensidão da charneca

As cidades são poucas e de pequena dimensão. Surgem em portos ou enseadas naturais, onde se desenvolveu a atividade piscatória e onde hoje aportam os ferrys que ligam todas aquelas regiões. São austeras, com as suas casinhas todas idênticas de pedra escura, mas ao mesmo tempo acolhedoras, cheias de vasos de flores coloridas. É o caso de Ullapool, debruçada sobre o Loch Broom.


Ullapool...

... no Loch Broom

Lembro-me de Oban, ainda à entrada das Highlands. É uma cidadezinha encantadora, que se abre em concha sobre o porto e onde se situa um santuário de focas.


O porto de Oban
Vamos sempre avançando para norte. Depois de dobrarmos o Cape Wrath, a costa inflete para leste e torna-se muito mais amena. Deparamos com belas praias de areia fina e dourada, como em Durness.


As praias de areia fina de Durness
A cidade de Thurso, já quase no extremo norte, trouxe uma das melhores surpresas da nossa rota. Sentados junto a Thurso Bay, passámos uns momentos inesquecíveis a apreciar os salmões que saltavam na entrada do rio. Isolados ou em pequenos grupos de dois ou três, saltavam da água e deixavam-se cair com belas piruetas, numa brincadeira infindável. Será que faziam bailados de acasalamento? Ou apenas se divertiam como crianças num parque de diversões? Momentos únicos!


Descanso em Thurso Bay

Vamo-nos aproximando do extremo norte das Highlands, um dos objetivos da nossa viagem; chamam-lhe "land's end" e é o ponto mais setentrional da Grã-Bretanha continental. É na pequena povoação de John o'Groats que se encontra o célebre poste que marca o fim do caminho. Há aqui muita gente, que chegou de automóvel, de mota, de bicicleta, e o ambiente é de celebração. Também ali tirámos as nossas fotografias, pois claro! 


O célebre poste de John o'Groats

Um tocador de gaita de foles no "fim do caminho". 

No entanto, o ponto mais setentrional é, na realidade, a ponta de Dunnet Head, alguns quilómetros a leste de John o'Groats. É um local belíssimo, de altas falésias coroadas por um farol, de onde se podem observar as Ilhas Orkney, para lá de Pentland Firth.

O farol de Dunnet Head, com as Orkney ao fundo


As falésias de Dunnet Head
Em Dunnet Head, estamos apenas a 8º do Círculo Polar Ártico, mas não temos essa sensação porque a Corrente do Golfo ameniza bastante o clima. O que estranhamos é a duração do dia, que começa cerca das cinco horas da manhã, o que é um pouco incomodativo numa região onde não se usam persianas... Nada, no entanto, que umas cortinas não ajudem a resolver.
A partir de John o'Groats, começamos a rolar para sul e instala-se um sentimento de "fim de festa": realmente, estamos a iniciar a viagem de regresso.


Wick, já para sul de John o'Groats

Mas, entretanto, ainda há muitas coisas interessantes para descobrir.