sábado, 9 de abril de 2016

's-Hertogenbosch, a cidade de Bosch

A avenida que liga a estação dos comboios ao centro da cidade

Faz este ano 500 anos que Hieronimus Bosch, o famosíssimo pintor holandês, morreu. A propósito desta efeméride, a cidade que o viu nascer e onde ele viveu a maior parte da sua vida, decidiu fazer uma grande comemoração, juntando no seu museu um conjunto muito significativo de obras de Bosch, atualmente espalhadas por museus e coleções particulares, um pouco por todo o mundo.

Entrada do Museu do Norte do Brabante, onde decorre a exposição comemorativa de Bosch

A ocasião era irresistível e talvez irrepetível. E lá fui eu até 's-Hertogenbosch...
A cidade é encantadora. Situada no Brabante, a cerca de uma hora de comboio de Amesterdão, é de fácil acessibilidade. As ruas ladeadas de casas antigas, as margens tranquilas do rio, as bicicletas que substituem a poluição e o barulho dos automóveis, tudo é agradável e dá vontade de passear sem pressas.

As margens tranquilas do rio

A praça principal ainda mantém marcas da prosperidade medieval da cidade, do tempo em que era um entreposto comercial com alguma importância regional. Está rodeada de cafés e restaurantes, com esplanadas aquecidas, para apreciar os fins de tarde solarengos.

A Praça do Mercado

O monumento mais importante da região é a magnífica Catedral de S. João, católica. Iniciada no século XIII, é concluída no século XVI, em estilo gótico. É uma igreja belíssima, de grandes dimensões, e de uma grande riqueza escultórica. 

Entrada da catedral de S. João

Exterior da ábside, com os seus arcobotantes rendilhados

O Altar-mor

O Tríptico de Antuérpia, num dos altares laterais

Mas o aspeto que me impressionou mais foram as extraordinárias figuras que povoam os telhados: sentadas nos arcobotantes, em filas, como subindo para o céu, dezenas de figuras esculpidas surpreendem-nos pelo exotismo ou pela fantasia. Todas diferentes, reproduzem profissões humanas, mas também um mundo animalesco, ou animais antropomorfizados. Há quem diga que as esculturas são inspiradas nas figuras dos quadros de Bosch... Talvez! Talvez esta cidade tenha gerado estas ideias, um mundo às avessas! Heresias?

As figuras que povoam os telhados...

... e as gárgulas

Neste ano de 2016, a cidade comemora o seu filho mais célebre. Desde os pendões na ponte aos autocolantes nas montras das lojas, tudo nos lembra Bosch. 

Os pendões na ponte anunciam a exposição

As imagens de Bosch nas montras das lojas


Esculturas reproduzem imagens dos quadros de Bosch

Há esculturas nas ruas que reproduzem imagens dos seus quadros. Há desfiles e espetáculos multimédia. E há a exposição de muitos dos seus quadros e rascunhos, únicos no estilo, que nos interpelam, e aos nossos valores, através da fantasia. Uma viagem inesquecível!

sábado, 19 de março de 2016

Para comer - Dom Lambuças



Às vezes, vamos a um sítio específico para comer, porque é famoso ou porque nos recomendaram. Outras vezes, comemos qualquer coisa em trânsito, porque andamos em viagem e aquele restaurante até fica em caminho. E outras vezes, temos tanta sorte que quase tropeçamos numa pérola, como este restaurante petisqueira Dom Lambuças.
Fica em Alcaria, algures entre Porto de Mós e Minde, no belo território da Serra de Aire. Mas é preciso saber o que procurar, porque fica um bocadinho afastado da estrada principal. No entanto, vale a pena a busca. Neste pequeno restaurante come-se mesmo muitíssimo bem. Tudo gira à volta dos pratos tradicionais portugueses: guisados ricos, ensopados, arroz de grão, migas ou massadas, lulas no tacho, a dificuldade está na escolha! Mas não precisa de estar, porque o dono acaba sempre por trazer vários pratinhos para prova...
E, quando dizemos: "Bem, isto não vale a pena experimentar, porque não gosto!", como aconteceu com as favinhas guisadas com chouriço, o dono diz-nos: "Ainda não provou estas!" E, quando traz as ditas favas, e as experimentamos, muda a nossa opinião sobre favas com chouriço, para sempre!
Na hora do pagamento, temos a última boa surpresa. Se há um restaurante que demonstra que se pode comer bom e barato, é sem dúvida o Dom Lambuças.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Ecos de Sarajevo



Ruas de Sarajevo

Sarajevo é uma cidade estranha, cheia de ecos, em que cada um escolhe os ecos que quer ouvir. Cidade multifacetada, parece estar suspensa numa indefinição entre o passado e a modernidade, entre a tradição e o progresso. Cruzamento cultural, encruzilhada entre o oriente e o ocidente, densa de histórias.

A bela Câmara Municipal de Sarajevo

A presença mais forte é a muçulmana. Passamos por inúmeras mesquitas, umas atuais, outras que recuam até ao século XVI. 

Uma mesquita moderna

Há banhos turcos e até uma madrassa (escola corânica) ainda em funcionamento. Tudo no meio do labirinto de ruelas e becos do bairro turco, ainda tão vivo e cheio de movimento.

Uma rua do Bairro Turco

O velho fontanário é o centro da vida social de Sarajevo. Aí se juntam os jovens, de roupas ocidentais, mas também muitos outros de indumentárias muçulmanas, incluindo muitas mulheres tapadas da cabeça aos pés. De vez em quando, sai de dentro do traje totalmente negro uma mão cheia de anéis, com uma moderníssima máquina fotográfica ou manejando um iPhone. Homens à frente, mulheres atrás. Não consigo habituar-me...

O velho fontanário - Baščaršija

Os donos do nosso hotel também são muçulmanos. São ambos simpáticos, mas é ele quem faz conversa. Vai-nos dizendo que cerca de 70% da cidade é muçulmana e partilha histórias do cerco de Sarajevo, durante a Guerra da Bósnia, nos anos 90. Mostra-nos o mercado próximo, enquanto conta que ali morreram muitas pessoas, com o lançamento de granadas para o meio dos que faziam as suas compras diárias.

Partes do Complexo Bei Gazi-Husrev 

A entrada da Sala de Orações do Complexo Bei Gazi-Husrev 

A guerra ainda está muito presente. No centro da cidade, há exposições e filmes intitulados Sarajevo, cidade-mártir, que relembram o cerco de três anos imposto à cidade. No chão, somos de vez em quando surpreendidos por uma mancha rubra, que marca o lugar onde caiu uma bomba.

Aqui caiu uma bomba...

Vem-me à memória o Diário de Zlata, uma rapariguinha de Sarajevo que, tal como Anne Franck, partilha no seu diário  experiência dos dias da guerra. A certa altura, ela desabafa: "Entre os meus colegas, os meus amigos, a nossa família, há sérvios, croatas, muçulmanos. É um grupo muito misturado, e eu nunca soube quem era sérvio, quem era croata, quem era muçulmano. Agora, a política meteu o nariz e pôs um S nos sérvios, um M nos muçulmanos e um C nos croatas. E para escrever essas letras, usou o pior, o mais negro dos lápis. O lápis da guerra, que só escreve infelicidade e morte." 

A catedral Ortodoxa...

A memória desses dias de convivência tolerante ainda está bem evidente na proximidade entre os templos das várias religiões, no centro da cidade. A catedral católica fica a algumas ruas de distância da catedral ortodoxa, da principal mesquita e da sinagoga judaica.


... e a Sinagoga

A velha Ponte Latina traz-nos ecos de violências mais antigas. Aqui foi assassinado o arquiduque da Austria-Hungria em junho de 1914, dando início à 1.ª Guerra Mundial.

A Ponte Latina, onde começou a 1.ª Guerra Mundial

Apesar dessas feridas, Sarajevo continua a ser uma cidade muito agradável, de belos edifícios e espaços apetecíveis. Hoje, volta-se inequivocamente para a modernidade. Quando ali estivemos, decorria o Festival de Cinema e toda a cidade se vestia de festa.

A passadeira vermelha para o Festival de Cinema

Um bus-bar


Os ecos das feridas passadas continuam lá, mas só os ouvimos quando queremos.

O rio Bosna e o Monte Igman, nos arredores de Sarajevo


domingo, 17 de janeiro de 2016

Višegrad, uma ponte e um livro


A velha ponte sobre o rio Drina

Quando comecei a interessar-me pelos Balcãs, um amigo que conhecia bem a região ofereceu-me um livro e disse-me: "Se leres este livro, ficarás a compreender um pouco melhor os Balcãs". O livro era A Ponte sobre o Drina de Ivo Andrić. Li-o numas férias. Conta a história de uma ponte, mandada construir pelo vizir Mehmed Pasha Sokolović, no século XVI. 

A ponte vista do hotel

Eram tempos difíceis para a região: o Império Otomano dominava e exigia um tributo anual de sangue, rapazinhos de tenra idade que iriam ser criados na corte do sultão. O vizir foi um desses rapazinhos. A maioria tornaram-se soldados do exército otomano, mas ele chegou a grão-vizir e nunca esqueceu aquele rio, nem a personagem sinistra do barqueiro que fazia o transporte entre as duas margens.

As margens do rio Drina

O livro acompanha a ponte, desde a sua construção até às vésperas da 1.ª Guerra Mundial, já no século XX. Dito de outra forma, a ponte é a sua personagem principal. Ela liga as margens do rio, liga as populações, entreliga-se com as suas misérias e com as suas pequenas vitórias.

Turistas tiram selfies no meio da ponte

Ivo Andrić cruza lendas e contos tradicionais com peripécias verídicas. Através dele, vamos conhecendo as pessoas que passam a ponte e que vão fazendo crescer a cidade nas suas margens, Višegrad, sejam camponeses cristãos ou comerciantes turcos ou judeus. Perto da fronteira entre a Sérvia e a Bósnia, esta é uma zona de transição entre o ocidente e o oriente, entre o cristianismo e o Islão, e a ponte é o seu símbolo. As comunidades confrontam-se mas, nas horas de aflição, os seus líderes juntam esforços.

A entrada de Andrićgrad, recriando uma fortaleza turca

Assistimos à chegada dos austríacos e às primeiras lutas pela independência. Presenciamos casamentos e execuções. Sentamo-nos com os negociantes turcos que fumam os seus cachimbos no banco de pedra que marca o meio da ponte. Seguimos as suas histórias de amor e de violência. E, quando chegamos à última página do livro, é como se nos estivessemos a despedir de membros de uma família que fomos espreitando pelo buraco da fechadura e acompanhando durante gerações.

A rua principal de Andrićgrad

O autor deste livro, Ivo Andrić, foi um escritor notável e acarinhado na antiga Jugoslávia, tendo até ganho um Prémio Nobel da Literatura. A ascensão dos nacionalismos fê-lo cair em desgraça, conotado com o regime anterior mas, felizmente, a sua qualidade voltou a impô-lo como uma figura incontornável da literatura balcânica.

O cinema do novo complexo cultural

Junto à velha ponte sobre o rio Drina, ergue-se agora um complexo cultural e turístico que presta homenagem ao livro e ao seu autor. Chama-se Andrićgrad e foi projetado pelo conhecido realizador  sérvio Emir Kusturica. Talvez por isso, tem um ar cinematográfico e um pouco irreal! Mas é um espaço muito interessante, que tenta recriar os locais emblemáticos do livro e, ao fim e ao cabo, da própria cidade cujo crescimento o livro retrata.


Os espaços de bares e esplanadas recriam o velho bairro turco

Ainda não está terminada, mas a cidade de Andrić já inclui praças e ruas com bares, restaurantes, um cinema e uma igreja. Previa-se que durante este ano de 2016 abrisse uma sala de espetáculos e uma escola de artes. 

O espaço da nova escola de artes

O imperador Pedro II frente à Igreja Ortadoxa de Andrićgrad

O Hotel já lá está! Aí ficamos por uma noite, sentindo-nos parte da trama desta ponte sobre o rio Drina.

Estátua de homenagem a Ivo Andrić na praça central de Andrićgrad

sábado, 2 de janeiro de 2016

Niš - A cidade do imperador


Vestígios turcos em Niš

O imperador Constantino é a personagem mais notável nascida na cidade de Niš, hoje uma cidade importante do sul da Sérvia, na altura uma região central do Império Romano.
É interessante percebermos que os Balcãs, na época imperial, estavam no centro do império, perto da Itália, de tal forma que hoje há uma Rota dos Imperadores, que liga vários pontos de interesse histórico com eles relacionados.


Estátua comemorativa do Édito de Milão

Em Niš, já não sobra nada do imperador Constantino, a não ser a memória. Em 2013, comemoraram-se os 1700 anos do Édito de Milão, em que Constantino permite a liberdade de culto aos cristãos dentro do Império Romano, e esse importante acontecimento foi comemorado na sua terra natal com pompa e circunstância. Foi construída uma catedral dedicada a Constantino e a sua mãe, Santa Helena, e foi erigida uma interessante estátua junto ao rio Nišava.


Catedral de Constantino e Santa Helena

Nesta região, sobrepõem-se memórias. A mais forte é, sem dúvida, a dos tempos dos turcos otomanos. Em Niš, erguia-se uma imponente fortaleza turca. 

Entrada da fortaleza turca

Hoje, as suas muralhas, ainda bem conservadas, abrigam um parque e uma agradável zona de esplanadas, assim como um espaço para concertos ao ar livre. 


Esplanadas dentro da fortaleza

Na parte mais antiga da cidade, a rua central do bairro turco continua a ser a zona mais animada. Há restaurantes e bares, alguns dos quais recriam os espaços muçulmanos da época otomana. É aí que paramos para jantar, uns belos petiscos à maneira sérvia.


No bairro turco

Mas há também memórias sombrias desse tempo. No século XIX, os sérvios tentavam conquistar a cidade aos turcos, mas foram derrotados. A vingança foi cruel. As cabeças dos sérvios mortos na batalha foram cortadas e encastoadas numa torre, para servirem de exemplo. O escritor francês Lamartine foi o primeiro a descrever a torre e a dar testemunho desse massacre na Europa Ocidental. Calculo o susto de Lamartine, quando se abrigou do sol junto a uma torre que lhe parecia brilhar de mármores e madrepérolas e descobriu que, afinal, eram centenas de caveiras descarnadas!
A torre ainda lá está, preservada dentro de uma capela que é, ao mesmo tempo, um espaço museológico e de memória.


A capela que abriga a Torre das Caveiras
(dentro não se pode fotografar)

Outra memória cruel ainda presente na cidade é a do domínio nazi. Em 1941, os nazis invadem e ocupam a então chamada Jugoslávia. Quando ocupam Niš, transformam umas antigas instalações militares num campo de trânsito e concentração. Dão-lhe o nome da estação de caminhos de ferro próxima e assim surge o campo de concentração Cruz Vermelha. Os primeiros a serem detidos são os líderes da cidade, políticos, padres, professores, maçons... É mais fácil dominar uma população quando lhe são retiradas as referências...


O pátio do Campo de Concentração Cruz Vermelha

Este campo de concentração é muito chocante. Somos imediatamente transportados para aquela realidade triste e sombria. Quando se visita Dachau ou Auschewitz, por exemplo, encontramos todo o horror do universo concentracionário nazi, mas o espaço está limpo, organizado de forma informativa, o que nos permite ganhar algum distanciamento. Aqui em Niš não se consegue manter essa distância. O campo está exatamente como era. As camaratas de paredes escuras, com o chão coberto de palha, onde os prisioneiros eram amontoados.


Dentro da camarata

O terreiro da chamada, rodeado por um muro com dezenas de postos para as metralhadoras. Os edifícios da cozinha e das instalações dos oficiais, com as suas desbotadas inscrições em alemão. Tudo tem um ar cinzento e abandonado, que o torna ainda mais sombrio.


O edifício dos guardas (hoje, a portaria)

Alguns cartazes mostram-nos o temível chefe do campo, assim como a história da única fuga bem sucedida.


Um cartaz conta a história da fuga de 12 de fevereiro de 1942

Há apenas um memorial, já fora dos portões de acesso, erigido pela União Soviética em memória dos soldados do Exército Vermelho, os últimos a serem ali aprisionados.


Memorial aos soldados do Exército Vermelho

Ainda subimos ao topo da colina de Bubanj, onde os nazis fizeram alguns dos seus assassinatos em massa. Hoje é um espaço arborizado, coroado por um conjunto impressionante de três punhos, em tamanho gigante, que evoca a resistência ao nazismo.


A colina de Bubanj

Niš concilia bem todas estas memórias, prazenteiras ou sombrias. Hoje é uma cidade agradável, de avenidas largas e parques agradáveis. Onde ficamos com vontade de regressar...



Parques onde apetece passear