quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

De mota pelos Alpes I – O princípio


Passando o Lago Como, nos Alpes Italianos

Já não sei como surgiu a ideia de darmos uma volta de mota pelos Alpes. Eu creio que foi a ver umas filmagens da Volta à França em bicicleta, que apresenta sempre umas imagens magníficas dos locais de passagem de cada etapa. Mas há outras versões e, na realidade, foi uma espécie de prolongamento lógico das nossas viagens de mota anteriores, pela Galiza e Cantábria, pelos Pueblos Blancos e Gibraltar e, mais recentemente, pelos Pirinéus.
A ideia foi ganhando espaço e consistência. Entusiasmamos um casal amigo e os planos começaram a surgir. A fase do planeamento de uma viagem é uma fase fantástica, que eu aconselho toda a gente a cumprir. Não é uma chatice necessária, pelo contrário, é já uma construção da própria viagem e, como tal, um prazer.
Seguiram-se meses de pesquisas. O meu marido intitula as nossas viagens “Rotas do Património” porque nos preocupamos sempre em procurar tudo o que há de interessante para visitar ou usufruir em cada região por onde passamos e não temos qualquer problema em alterar rotas ou fazer mais uns quilómetros para visitar uma capela românica ou comer uns petiscos num local que nos chamou a atenção. Dito de outro modo, não queremos apenas fazer quilómetros em cima da mota, queremos usufruir de tudo o que possa tornar a nossa experiência de viagem mais rica e agradável. Isto implica muitas horas de pesquisa e discussão, que são uma mais-valia da própria viagem.


A emblemática passagem do Stelvio

Chegou finalmente o momento de partir. Ainda há que ultrapassar a fase difícil de enfiar toda a bagagem e equipamento num “top-case” e duas malas laterais. Tenho amigas que me perguntam como é que eu sou capaz, quando elas mal se conseguem organizar com uma mala grande e inúmeros sacos quando vão de férias. Nós já estamos habituados. A chave é perguntar: “O que é que é mesmo indispensável levar?” e responder sinceramente…
Outro problema é que Portugal fica num cantinho da Europa e, mesmo uma simples volta por França, implica muitos quilómetros e muitas horas em cima da mota até ultrapassar os Pirinéus. Não há volta a dar, por isso, o melhor é transformar o problema numa oportunidade. Nós nunca fazemos o percurso da mesma maneira, escolhendo locais diferentes para pernoitar e, portanto, aproveitando para visitar sempre qualquer coisa diferente em cada viagem. E assim foi também este ano.


Dom Quixote e Sancho Pança...

Neste ano de 2016 cumpriram-se quatrocentos anos sobre a morte de Cervantes. Decidimos, por isso, fazer uma paragem a meio de Espanha e dormir a primeira noite em Alcalá de Henares, a cidade onde Cervantes nasceu, uma cidade que é Património da Humanidade, cheia de pergaminhos universitários e onde, seguramente, a data seria festejada. Foi uma boa escolha. Tem um centro histórico muito interessante, testemunho de muitos encontros de culturas, e Cervantes, com os seus personagens D. Quixote e Sancho Pança, marcava presença por todo o lado.
Seguimos para a segunda etapa, rumo a Figueres, já na Catalunha. A ideia era dormir ainda em Espanha e entrar em França no dia seguinte logo pela manhã, com o depósito repleto de gasolina, já que não encontraríamos tão bons preços durante o resto da viagem. De caminho, visitávamos o Teatro-Museu de Dali, onde o artista do surrealismo expressou toda a sua loucura visionária. Eu já lá tinha estado há anos, mas os meus companheiros de viagem não conheciam e era uma oportunidade a não perder. 


O Teatro-Museu Dali
Interior do Museu - Pormenor do Táxi Chuvoso

O Museu é extraordinário, como era o génio de Salvador Dali, e extravasa para as ruas e praças, tornando todo o centro da cidade uma experiência de modernismo e inesperado.
O dia seguinte foi longo e muito intenso. A primeira paragem, já no Roussillon francês, foi em Salses-le-Chateau, uma enorme obra-prima de engenharia militar. Mandada construir pelos espanhóis, sofreu vários cercos até cair nas mãos dos franceses. Construída para ser inexpugnável, acabou por ser vencida pela fome.

A fortaleza de Salses
Antes ainda uma breve paragem em Narbonne, apenas para respirar o mesmo ar da que foi a segunda maior colónia romana fora de Itália (depois de Cartago) e imaginar a motivação e engenho que esteve presente na construção do Canal du Midi, que se une ao rio Aude pelo canal de la Robine que aqui cruzamos.
Seguimos para o litoral e chegamos a La Grande Motte no meio da confusão e do trânsito de um domingo de verão no sul de França. Demasiado calor, demasiada gente, demasiados carros. Felizmente, é a porta de entrada na Camargue e, mesmo no verão, o encantamento desta região está presente, nos grandes espaços, nas manadas de cavalos brancos, nos pássaros, nos braços de mar e rio que se entrelaçam e nos rodeiam a cada passo. Rolamos em pequenas estradas isoladas, entre a terra e a água. Por engano, fomos parar a Bac du Sauvage e tivemos de passar o rio de barco, num pequeno ferry que faz os transbordos locais, o que só deu mais encanto ao dia.


Paragem em La Grande Motte



A Camargue em Bac du Sauvage

Ainda passámos por Aigues-Mortes, que nos remete para Luis IX e o tempo das Cruzadas, e por Saintes-Maries de la Mer. O ambiente era muito animado, com gente nas esplanadas e uma tourada a decorrer. Ouviam-se os acordes da “Carmen”, mas não se viam nem vestígios das três santas Marias que ali terão aportado.

Luis IX em Aigues Mortes

Acabámos o percurso diário já bem de noite, em Aix-en-Provence, no Cours Mirabeau, a comer hambúrgueres e crepes, o que não condiz muito com o ambiente, informalmente seleto,  nem com a “presença”de Paul Cézanne, Émile Zola e Albert Camus na esplanada do “Les Deux Garçons”!
Só umas últimas fotos e vamos descansar, porque no dia seguinte entramos, finalmente, nos Alpes!


Les Deux Garçons no Cours Mirabeau

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