terça-feira, 26 de julho de 2016

Belgrado e São Sava



A pequena igreja e a grande catedral de São Sava

Chamam a Belgrado a Princesa dos Balcãs. O nome assenta-lhe bem. A capital da Sérvia é uma cidade grande e animada, uma autêntica cidade europeia numa zona onde se misturam já muitas influências culturais diferentes.
Situada na confluência de dois grandes rios, o Danúbio e o Sava, Belgrado é uma cidade muito antiga.


A confluência dos rios Sava e Danúbio, vista do Kalamegdan

A cidade divide-se em dois espaços bem diferentes: a velha Belgrado, o centro histórico, e a Nova Belgrado, a cidade construída de raiz nos tempos de Tito para acomodar o crescimento da então capital da Jugoslávia. A Nova Belgrado é uma zona moderna, com amplas avenidas, onde se encontram edifícios administrativos, zonas residenciais e grandes hotéis. No entanto, é a velha Belgrado que atrai o visitante, entre ruas pedonais e comerciais, grandes igrejas ortodoxas e ruelas de bares e restaurantes bem animadas. É nos recantos e encantos dessa velha Belgrado que temos vontade de nos perder!


O Restaurante Ponto de Interrogação, um dos mais antigos e típicos

A zona antiga de Belgrado é dominada pelo Kalamegdan, a Fortaleza. Construída pelos Romanos, é depois muito aumentada e fortalecida pelos Turcos. Hoje, é um espaço imenso, que integra velhos edifícios turcos com o Museu de História Militar ou a bela Torre do Relógio, construída no tempo na ocupação austríaca. Com muitos espaços arborizados e por onde se pode passear, é um dos locais mais agradáveis de Belgrado. Como fica localizado no ponto mais alto da cidade, é também um belo início de visita. Dali, pode-se ver a velha e a nova Belgrado e apreciar a confluência dos dois grandes rios que banham a cidade.


A entrada na fortaleza 

O túmulo do governador Damad Ali-pasha

Outra entrada para a fortaleza

Mas o coração comercial da cidade são as avenidas, algumas pedonais, onde se pode parar a ver as montras ou a descansar numa esplanada. Tal como outras zonas da cidade, têm, no entanto, um ar um pouco nostálgico, de saudades de uma belle époque em que era o coração da grande e socialista Jugoslávia. Um passeio pela avenida Knez Mihajlova faz-nos sentir essa mistura de nostalgia pelo passado e de pressa pelo futuro.


Domingo de manhã na Avenida Knez Mihailova

A cidade está repleta de grandes monumentos: alguns são grandes construções do tempo comunista; mas muitos outros são construções século XIX e do início do século XX, de uma época de prosperidade sérvia e mostram-nos um estilo arquitetónico muito próprio e de cores vibrantes. 


O Parlamento Nacional

O célebre Hotel Moscovo

O Ministério da Educação
A praça Republike é outro ponto importante de Belgrado. Frente ao belo Teatro Nacional ergue-se a estátua equestre do Príncipe Mihailo, um dos mais importantes governantes da Sérvia, quando o país reconquistou a sua independência dos Turcos. Na estátua, o príncipe aponta para Prizren, local de origem da nação sérvia, hoje localizado no Kosovo...


Estátua do Príncipe Mihailo na Praça Republike

A zona boémia da velha Belgrado é Skadarlija, entre as ruas Cetinjska e Skadarska. Tudo começou com a construção de uma fábrica cervejeira, que ainda lá está, embora não esteja em funcionamento. Seguiram-se os bares e restaurantes, que dão à zona um ambiente colorido e animado. Há sempre música, dentro e fora dos restaurantes, e é um espaço imperdível da velha Belgrado.


A cervejaria Bajloni

A fonte a meio da Skadarlija

Ao fundo da rua Skadarska, há um sebilj, um fontanário público, oferecido pela cidade de Sarajevo à cidade de Belgrado em 1989, tão pouco tempo antes da ecosão da guerra que haveria de opor as duas cidades!


O sebilij oferecido pela cidade de Sarajevo

Para entender a Sérvia, é preciso entender a relação dos sérvios com a religião. Há um fervor religioso profundo e notório. Já o tinha pressentido nos mosteiros rurais, volta a ser evidente aqui em Belgrado. Há muitas igrejas, algumas magníficas, como é o caso da Catedral de São Miguel Arcanjo, situado junto ao Patriarcado e ao Museu da Igreja Ortodoxa Sérvia. O seu interior é tão belo e tranquilo como o exterior, em verde e dourado. Aí estão os túmulos de alguns dos mais importantes reis da Sérvia.


Catedral de São Miguel Arcanjo

Outra igreja magnífica é a igreja de São Marcos, Apóstolo e Evangelista, erigida no local onde foi promulgado o Édito do Sultão Mahmud II, estabelecendo pela primeira vez um Estado Sérvio independente, no século XIV.


Igreja de São Marcos, Apóstolo e Evangelista

A mais esmagadora é, no entanto, a Catedral Memorial de São Sava, a maior igreja do mundo ortodoxo (sem contar com Santa Sofia, em Istambul, que já não é dedicada ao culto religioso). Tem uma história curiosa.
São Sava, que viveu no século XII, é considerado o santo inspirador do amor a Deus, à Ortodoxia e à Pátria, que se misturam nos corações dos sérvios. O seu culto fortaleceu-se em 1594, quando o vizir turco mandou vir as ossadas do santo, que repousavam no mosteiro de Mileseva, e as mandou queimar, à vista dos aterrorizados habitantes de Belgrado, na colina de Vracar. As cinzas espalharam-se pela colina, consagrando aquele espaço e tornando-o sagrado para os sérvios.
Quando se cumpriram 300 anos sobre a destruição do corpo do santo, em 1894, surgiu a ideia de erigir uma grandiosa catedral dedicada a São Sava, no mesmo local onde as suas relíquias tinham sido queimadas. Foi criada a Sociedade para a Construção da Catedral e, em muito pouco tempo, foi construída uma pequena igreja para o serviço religioso durante a construção da catedral, que ainda existe. No entanto, as situações de guerra impediram o início dos trabalhos até 1932. Com a entrada da Jugoslávia na 2.ª Guerra Mundial, os trabalhos de construção cessaram e, no final da guerra, o espaço foi ocupado pelos resistentes e pelo Exército Vermelho. A Igreja Ortodoxa Sérvia não desistiu e, ano após ano, foi pedindo a restituição do espaço, até que, em 1985, pôde recomeçar os trabalhos de construção, com fundos recolhidos entre a população. A Guerra Civil fez parar novamente os trabalhos, entre 1991 e 2000 ("Enquanto algum dos nossos compatriotas sofrer de doença ou fome por causa da guerra, a Catedral não será construída", terá afirmado o Patriarca Sérvio Pavle) mas, a partir daí, a construção avançou decididamente. 
Quando estive na basílica, em agosto de 2015, não estava ainda terminada mas era já um edifício grandioso. As grandes paredes de mármore branco, as cúpulas de cobre, a grande cruz folheada a ouro, impõem admiração. Também no interior se segue o estilo tradicional: nas colunas, na iconostase com os seus ícones, nas pinturas que cobrem as paredes, na delicada e profusa decoração dos arcos, nos mosaicos do pavimento. Não é possível tirar fotografias no interior, pelo que não posso mostrar muitas imagens da basílica. É preciso lá ir!
A basílica de São Sava representa, de algum modo, a identidade e o nacionalismo sérvio. No folheto explicativo com que acompanhamos a visita lê-se: A Catedral representa uma nova Jerusalém (...) a unidade da Ortodoxia (...) a glória e a honra do povo sérvio (...) e a oferenda do povo sérvio à comunidade humana universal.

A Catedral Memorial de São Sava



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