quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

A elegância francesa em Cienfuegos

 

Cienfuegos, a Pérola do Sul

Mal saímos de Havana e nos começamos a internar pelo interior de Cuba, o panorama muda. Com chuva e temperaturas elevadas durante todo o ano, a vegetação cresce e cobre os campos como um manto espesso em todas as direções que o nosso olhar abarca. Calculo que aqui tudo cresce e se multiplica... Habituada aos verões quentes, secos e inclementes do sul da Europa, aprecio extasiada o verde luxuriante. Os urubus voam em círculos, à procura de algum animal morto, ou pousam nos postes da estrada, por vezes de asas abertas para secar as penas.

Um urubu na estrada

As estradas, em geral, são más, cheias de buracos e sem marcação de qualquer espécie, por isso avançamos com cuidado. No entanto, o trânsito é pouco. À medida que nos afastamos das cidades principais, os automóveis começam a ser substituídos por carroças puxadas por cavalos. Vêem-se alguns bicitáxis e muitos camponeses ainda se deslocam a cavalo, com um grande facalhão para os trabalhos do campo preso nos arreios.

O transporte diário...

As pequenas localidades são todas parecidas. Pequenas casas quadrangulares, com uma grade na parte da frente. Uma escola, identificável pelas palavras de ordem revolucionárias. Um posto médico ou dispensário, identificado com um número. Pequenas bancas de mercado, geralmente animadas. Na beira das estradas, também aparecem produtos que os camponeses trazem para uma venda informal, em bancas improvisadas nos muretes da estrada. Vendem as frutas e os legumes da época, um ou outro pote de mel.

Pontos de venda na estrada


A primeira cidade que visitamos, depois de Havana, é Cienfuegos. Foi fundada por colonos franceses na costa sul da ilha, aninhada numa vasta baía, e ainda mantém uma certa elegância. Percebo porque lhe chamaram “Pérola do Sul”. Cienfuegos vivia do comércio e a baía acolhia um porto importante, por onde se escoava a produção de açúcar e de café.

Amanhecer na baía de Cienfuegos

O centro da cidade é o Parque José Martí, o herói da independência de Cuba, com lugar marcado em todas as localidades onde estivemos. No centro da praça há uma estátua do herói cubano mas quem domina o espaço são os rapazes que jogam à bola, descalços mas com um entusiasmo imenso... Reparo que um deles enverga uma camisola da seleção portuguesa de futebol com o número 7. Cristiano Ronaldo, um herói global.

O topo norte da praça

José Martí, o herói de Cuba

Futebol na praça

A praça é bonita e equilibrada. Num topo, a catedral, no outro um pequeno arco de triunfo. A um dos lados, o edifício do Partido Comunista, como sempre o mais bem conservado. Do outro lado, o belo Teatro Tomás Terry, remanescente de épocas mais prósperas. Ao lado do Teatro, o café do Ariel salvou-me, nesse dia: não havia eletricidade em toda a cidade, como aliás é comum, mas ali havia um gerador e conseguimos tomar um café!

O Teatro Tomas Terry...

... e o pequeno Arco do Triunfo, ao fundo da praça

A rua principal é o Paseo del Prado, uma longa rua rodeada de casas com arcadas de inspiração neoclássica, claramente uma inspiração francesa, mas que resulta muito elegante! No meio do Paseo, a estátua de Benny Moré, o criador do mambo, dá o toque final da elegância cubana!

O Paseo del Prado






Benny Moré

A baía de Cienfuegos é uma vasta concha que se abre para o mar. Ao longo da baía, até à chamada Punta Gorda, sucedem-se belas casas e palacetes, construídos por famílias de posses no século XIX e princípios do século XX. Quase todos esses edifícios estão ocupados pelo Estado cubano. Ao fundo da baía, o palacete mais bonito é o Palacio del Valle. Pode-se visitar e é exuberantemente luxuoso! Hoje, funciona como um restaurante de luxo, apenas para turistas!

A Punta Gorda

Entrada do Palacio del Valle

Uma das salas de restaurante do Palacio del Valle

O antigo Clube Náutico continua com a mesma função. Aí almoçámos, nem bem nem mal, porém, a máquina de café estava avariada (ou assim me disseram...) e ninguém teve vontade de pensar numa alternativa. A marina tinha uma característica estranha, mas que não identifiquei imediatamente: os barcos eram todos idênticos e todos de propriedade estatal. Apenas para uso turístico!

O Clube Náutico

A bela baía de Cienfuegos

O passeio de barco pela baía continua a ser muito bonito. No entanto, este sentimento de que estamos numa espécie de cenário para utilização turística, usufruindo de coisas que estão interditas aos próprios cubanos, deixou-me com um gosto amargo na boca.

O Palacio del Valle visto da baía



sábado, 22 de novembro de 2025

“Maltratada e alegre, ruidosa e dolorida”, assim é Havana

 


Estas palavras não são minhas, são de Leonardo Padura, um escritor cubano que eu sigo e leio há muitos anos e que me familiarizou com os ambientes habaneros. Mesmo assim, as leituras raramente nos preparam para a realidade.

José Martí, o herói da independência cubana, na Plaza 13 de marzo

Chegámos a Havana, ao aeroporto internacional José Martí, ao início da noite. Fomos imediatamente transportados para o passado numa cápsula do tempo. Tudo em Cuba parece ter parado nos anos 50.

O antigo palácio do governo foi transformado no Museu da Revolução
(agora em obras)

Seguimos para o centro da cidade num pequeno autocarro. À luz incerta da fraca iluminação pública, comecei a ver ruas esburacadas, pequenos prédios decrépitos e montes de lixo acumulado nas ruas. Pensei que estavamos a entrar em alguma favela. Mas não. Depois percebi que estavamos a entrar no bairro de Centro Habana. Aqui não há favelas, a pobreza está instalada no centro da cidade.

Um velho convento transformado em habitação comunal

O nosso hotel, o Hotel Inglaterra, localizado no Passeo del Prado, é um dos mais antigos e emblemáticos de Havana e os espaços foram meticulosamente restaurados, o que não obsta a que os quartos mostrem a falta de alguns confortos modernos a que já estamos habituados. Fica no epicentro da animação da capital cubana, junto ao Capitólio e ao Teatro Nacional de Havana (antigo Centro Cultural Galego). 

O Paseo del Prado

O Capitólio de Havana

Centro Cultural Galego, hoje sede do Teatro Nacional

Ao lado do Teatro Nacional, uma escultura homenageia a Dança

Nas suas esplanadas há sempre música e o dia da nossa chegada não foi exceção. Aí fomos recuperar da longa viagem e tomar os primeiros mojitos. O vocalista da pequena banda cantava antigos boleros com muita alma e uma voz suficientemente potente para ultrapassar os sucessivos apagões elétricos que pontuaram a noite.

O interior do velho Hotel Inglaterra

Cuba foi colonizada no século XVI por espanhóis e franceses. O cultivo da cana de açúcar, do tabaco e do café garantiu aos colonos uma grande prosperidade, baseada no trabalho escravo. Depois da independência, a proximidade americana trouxe outro tipo de prosperidade, baseada no lazer, na corrupção dos gangsters, nos casinos. É a época de ouro da cultura cubana, os anos 50, que eles replicam sempre, principalmente na música. As rumbas e mambos inundam as ruas, transbordando das esplanadas e bares. Compay Segundo e Benny Moré são as grandes referências. O grande espetáculo musical de Los Legendarios del Guajirito é uma homenagem ao Buena Vista Social Clube e ao esplendor dos anos 50.

Homenagem ao Buena Vista Social Club

Castillo de la Real Fuerza, uma das primeiras fortalezas

A cidade de Havana foi logo de início rodeada por fortalezas, destinadas a protegerem a cidade de corsários e piratas. Do alto da fortaleza dos Três Reis do Morro, avista-se a cidade no seu esplendor, a Pérola do Caribe, como era chamada. 

La Habana, vista do Castillo de los Tres Reyes del Morro

Junto à Fortaleza, o Cristo de Havana continua a abençoar a cidade

A grande avenida marginal com o seu paredão, o Malecón, delimita a cidade face ao mar. Ao longo do Malécon, os belos edifícios, hotéis e palacetes, falam de uma prosperidade já passada, mas a beleza continua lá.

A marginal do Malecón

Velhos edifícios ao longo do Malecón

O Castillo de los tres Reyes del Morro visto do Malecón

A Primavera numa esquina do Malecón

O centro histórico da cidade, Habana Vieja como é chamada, foi declarado Património da Humanidade em 1982. A UNESCO financiou e ajudou a restaurar esse conjunto de praças e fortalezas que formou o núcleo da cidade colonial, junto à baía de Havana. Inclui quatro belas praças, a praça da Catedral, a Plaza de Armas, a Plaza de San Francisco de Asís e a Plaza Vieja. Hoje, essa zona da cidade mostra igrejas, antigas casas coloniais, hotéis de charme e galerias de arte. É uma zona elegante e belíssima, que convive bem com a atmosfera ruidosa dos vendedores de rua. Em todo o lado há gente a tentar vender qualquer coisa, desde fritos a fruta fresca ou a medicamentos que têm de ser comprados no mercado negro, porque as farmácias estão vazias.

A velha catedral de Havana

A praça da Catedral, com o Museu de Arte Colonial

Praça de São Francisco de Assis

Entrada de um dos edifícios da Plaza de Armas

Rodeada de restaurantes, a Plaza Vieja

Outra perspetiva da Plaza Vieja

A cidade velha é também das zonas mais populosas. Os velhos edifícios, com um alto pé direito para fazer circular o ar, foram divididos e subdivididos em pequenos cubículos, e foram criados andares intermédios, em madeira, de modo a acomodar mais gente. Continuam a ser chamados de solares e aí, nos pátios centrais, juntavam-se desde o início do século XX os seus habitantes, ocupando os seus domingos a tocar e a cantar. Parece que aqui, nos pátios dos solares, germinaram muitos dos ritmos que marcam a música cubana.


O interior de um solar

Nas ruas desta Habana Vieja, esburacadas e pejadas de gente, encontram-se muitos bares, alguns celebrizados por pessoas como Ernest Heminway, que viveu em Havana durante vários anos; é o caso da Bodeguita del Medio, ou do Bar La Floridita... Também se encontram os chamados paladares que são restaurantes informais, muitas vezes geridos de forma familiar. Há outros restaurantes, certificados pelo turismo cubano e evidentemente mais caros...


O célebre bar La Floridita

Abundam as lojas. Há-as de três tipos. Existem as lojas formais, oficiais, com preços subsidiados e às quais se acede com uma caderneta de racionamento. Vimos várias, invariavelmente de prateleiras vazias. Depois, existem as lojas informais, onde os pequenos produtores vêm vender os seus produtos, ou que vendem águas e refrigerantes, ou outros produtos de pequeno valor. Por fim, existem as lojas oficiais, bem recheadas de produtos, tanto de mercearia como de higiene, mas onde só se pode comprar com dólares ou euros, o que obriga os cubanos a uma verdadeira ginástica financeira para aí poderem aceder.

Loja do estado... de prateleiras vazias

Pequeno mercado informal em Habana Vieja

Embaixada de Espanha: à porta, longas filas de pessoas tentam diariamente obter um
visto ou uma declaração de nacionalidade 

Confuso? Não para os habaneros, que aprenderam a gerir todas estas camadas. São resilientes , compram, vendem, trabalham em tudo o que aparece, fazem biscates, desenrascam-se! A prioridade é ir sobrevivendo e, se sobrar para uns mojitos, melhor! Ouvir uns boleros, dançar umas rumbas! E sorrir, sempre! Talvez a alma cubana também devesse ser património da humanidade...

Rumbas na esplanada do bar La Francesa




sábado, 18 de outubro de 2025

Irlanda, os efeitos da fome

 

Fome, de Edward Delaney, no St. Stephen's Park, em Dublin

Parece-me que um dos fatores mais determinantes da identidade irlandesa é a Grande Fome do século XIX. Como se chega lá? Desde o século XVI que o domínio britânico se estabelece sobre a pequena ilha, discriminando a população nativa, católica, face ao vizinho mais poderoso, protestante, e criando um fosso cultural e religioso que ainda hoje é evidente. Um dos direitos que lhes era negado era o direito a adquirir terras, mantendo assim a população irlandesa num estado de submissão, pobreza e sobrevivência. O Act of Union de 1800, apesar de integrar legalmente a Irlanda na Grã-Bretanha, não muda significativamente a situação da maioria da população, composta por rendeiros pobres que subsistiam graças ao cultivo extensivo da batata.

Os belos vitrais da Guildhall de Londonderry contam toda a história 
da colonização da Irlanda

Cerca de 1845, uma bactéria chamada Phytophtora infestans atacou os campos de batata. A praga espalhou-se rapidamente e arruinou totalmente as colheitas. Durante três anos, não houve batatas para alimentar a população. Os landlords continuavam a exportar carnes e leite para Inglaterra mas, entretanto, mais de um milhão de irlandeses morreu de fome e problemas ligados à desnutrição. Por toda a Irlanda se encontram memoriais a esse período de fome e desespero. Alguns são mais singelos, outros são verdadeiramente impactantes, como os que se encontram nos cais de Dublin.

O Memorial da Fome em Dublin

Uma das figuras do Memorial da Fome

Os sapatos de bronze juntam ao cais lembram o caminho dos irlandeses que fugiam da fome

O desespero empurrou aquelas famílias esfomeadas para as cidades e daí para a emigração. Até ao final do século mais de três milhões emigraram, principalmente para os Estados Unidos da América. 

Em Sligo, esta escultura chamada "Letter to America" (que se pode ler abaixo)
é uma homenagem aos que emigraram para fugir da fome e da miséria


Os navios que vinham à Irlanda descarregar os seus produtos, principalmente madeiras, levavam aqueles infelizes na viagem de retorno por um preço simbólico. Eram os chamados “navios da fome”. No cais de Dublin está um desses navios, o Jeanie Johnston, totalmente recuperado. Vale muito a pena fazer a visita guiada ao navio, que nos transporta para aqueles tempos terríveis. O Jeanie Johnston original transportou mais de 2500 irlandeses para os portos americanos e mostra bem como era a vida a bordo. Apesar de tudo, foi chamado “navio milagre”, já que as medidas sanitárias impostas pelo capitão e pelo médico de bordo permitiram a sobrevivência da maioria dos passageiros.

O Jeanie Johnston

No interior do navio há reconstituiçoes de cenas da viagem


Muitos morriam durante a viagem. Os sobreviventes eram descarregados nos portos americanos, no meio de muitos outros imigrantes em busca de uma vida melhor. O EPIC, Museu da Emigração, mesmo frente à doca onde está o navio, tenta dar uma visão panorâmica da diáspora irlandesa. 

A entrada do EPIC


Embora também apresente as histórias de pobreza e os mais conhecidos bandidos irlandeses que inundaram os bairros de uma Nova Iorque em crescimento, foca-se mais no contributo que todos esses emigrantes deram para a expansão da cultura irlandesa pelo mundo. Da música ao desporto, da literatura à política, a cultura irlandesa impôs-se, particularmente nos EUA. Hoje, o St. Patrick’s Day é um festival que marca as cidades americanas e as inunda da cerveja, da música e do verde da Irlanda. O EPIC é um museu muito dinâmico, muito interativo. Vale bem uma visita.

Parece que são muitos...

Sabemos o resto da história. Os finais do século XIX e inícios do século XX são marcados por revoltas, insurreição armada e pressão política até que, finalmente, em 1923, a Irlanda consegue aceder à independência. Não na totalidade, a Irlanda do Norte mantém-se integrada na Grã-Bretanha, mas a maioria da ilha pode trilhar um caminho de autonomia, com escolhos e dificuldades mas que deu os seus frutos.

O belo texto da Declaração de Independência da Irlanda (hoje na Biblioteca do Trinity College)


Memorial aos heróis da independência, em Cork

Os heróis da luta pela independência estão em todo o lado, têm estátuas nas avenidas e bustos nos parques. 

Cuchulain, o herói mítico da luta pela independência

Outros são heróis ou heroínas mais recentes...

Os locais onde a luta foi mais acesa, como o GPO – o grande edifício dos Correios na principal avenida de Dublin – estão preservados e com centros de interpretação. Até nas lojas e nos pubs há reproduções de fotos e cartazes antigos que lembram figuras ou momentos marcantes da luta pela independência.

O edifício do GPO, centro da insurreição de 1916

Cópia de uma foto que representa a destruição do GPO em 1916 (esta foto decorava
uma parede de um restaurante em Cashel)

Mas o espírito não é melancólico nem depressivo. É a preservação de uma memória importante. E, se houver momentos difíceis ou casos que pareçam irresolúveis, não é nada que uma cerveja não cure, num dos alegres e ruidosos pubs irlandeses.