quinta-feira, 2 de abril de 2020

Crónicas de uma viagem a Itália – Fragmentos de Florença



Piazza della Signoria - Palazzo Vechio

Mesmo dentro do panorama rico, pleno de beleza e multifacetado da Itália, Florença é uma cidade singular. A capital da Toscânia tornou-se uma cidade próspera nos finais da Idade Média, mas procurou mostrar a sua riqueza e magnificência através da arte. Os Médicis foram comerciantes e banqueiros, mas também governantes da cidade e mecenas. Trouxeram artistas e intelectuais de toda a Itália, investiram na arte e cultura e transformaram a cidade numa espécie de museu a céu aberto. 


Lourenço de Medicis à entrada dos Uffizzi

O Bargello

Os museus e galerias são imperdíveis, mas para quem não quiser, ou não puder, ou não tiver tempo, basta passear pelas praças e ruas da parte antiga da cidade e entrar em algumas igrejas, para nos deixarmos envolver pelos ares magníficos do Renascimento. Muitas das inovações artísticas da época foram ali experimentadas e executadas.


Catedral de Santa Maria del Fiori

A Porta do Paraíso, de Ghiberti, no Baptistério

A acumulação de obras de arte é tão densa que criou uma espécie de paradigma que nos leva a considerá-la como fator de comparação com outras cidades igualmente ricas de história e beleza – Dresden, por exemplo, é frequentemente apelidada de Florença do Elba, e não é caso único.


Pormenor da fachada da Catedral

Um anjo junto à porta

Não é fácil escrever sobre Florença. Não sou Dante, mas também não quero ser o “trip advisor”. Não quero fazer listas de locais a visitar, necessariamente incompletas, nem alinhar trivialidades sobre espaços tão magníficos que nos deixam sem palavras.


Os Grotescos no Cortile do Palazzo Vecchio

Faz parte da tradição acariciar o javali do Mercado dos Panos

Escrevia Olga Tokarczuk no seu livro Viagens: “Há mundo em demasia; logo, é melhor concentrarmo-nos nos pormenores e não no todo. (...) Isso parece ser uma boa ideia, porque alivia as mentes exaustas.” Talvez esta seja uma estratégia salvadora no que diz respeito a Forença, demasiado bela para ser descrita no seu todo.


Um sátiro na fonte...

A Torre dei Marsili

Quando penso em Florença, são os pormenores que me enchem o espírito...
A cúpula de terracota de Brunelleschi.
Um anjo que tenta escapar da fachada da catedral.
O casamento da Virgem visto por Ghiberti.
O focinho brilhante e polido do javali do Mercado dos Panos.
O homem que nos olha de soslaio do altar-mor de Santa Maria Novella.


Os frescos de Ghirlandaio em Santa Maria Novella

As linhas de mármore claro e escuro que se multiplicam no Campanile.
Lourenço de Médicis a convidar-nos para os Uffizzi.
Os grotescos do pátio do Palazzo Vecchio.
A réplica do David de Miguel Ângelo dominando a praça.
Cosme de Médicis, Pai da Pátria, cavalgando orgulhoso.


A estátua equestre de Cosme de Médicis
O Perseu de Cellini

Um balcão delicadamente talhado no Bargello.
Uma Anunciação na Torre dei Marsili.
A cabeça desgrenhada da Medusa suspensa da mão de Perseu, na Loggia.
A Ponte Vechio banhada pela luz do entardecer.

Placa de agradecimento ao cônsul alemão

Um agradecimento ao cônsul alemão que percebeu que destruir Florença era um crime sem perdão.
Um trio de anjos músicos, na fachada da Catedral.
Um cavalo que almoça, cansado de transportar turistas.
Uma taça de Chianti numa esplanada junto ao Arno...

Um intervalo para o almoço...

Podia continuar a lista indefinidamente.
Ao anoitecer, sentei-me nos degraus da catedral de Santa Maria del Fiori, ainda quentes do sol de verão. Queria simplesmente estar ali, no berço do Renascimento, sorver o ar saturado de genialidade, com o espírito a aquietar-se, lentamente.
Já não há muita gente na Piazza del Duomo, à exceção dos grupos de turistas chineses.
Reparo num homem que faz flexões, no chão. Caminha na praça, vinte passos para um lado, cinquenta para outro, novo conjunto de flexões. Será que o excesso de beleza também enlouquece? 


Entardecer junto à Ponte Vecchio


domingo, 29 de dezembro de 2019

Crónicas de uma viagem a Itália – A Rota dos Mosaicos Bizantinos de Ravena


O Mausoléu de Gala Placídia

Ravena é uma pequena cidade do norte de Itália. Situada perto da costa do mar Adriático, a menos de uma hora de comboio de Veneza, é atualmente utilizada por milhões de turistas como base para visitar a cidade dos doges. Dormem em Ravena, que é muito mais económico, e deslocam-se de comboio para Veneza que, infelizmente, se transformou numa espécie de Disneyland turística.
Nas suas deslocações por Ravena, talvez avistem umas igrejas antigas, que provavelmente não lhes despertarão muita curiosidade. Mas fazem mal e não sabem o que perdem!

O exterior do Batistério Neoniano
A cidade de Ravena cresceu no meio de pântanos e foi o vizinho porto de Classe que lhe garantiu alguma proeminência. É no século V que o imperador do Império Romano do Ocidente transfere para Ravena a sua capital e a cidade transforma-se no símbolo dessa época de confusão e decadência. Tal como o resto da Europa, a Itália sofria ataques e invasões dos povos germânicos, a que os Romanos chamavam bárbaros.
Uma mulher simbolizou bem esse choque entre o norte bárbaro e o sul romano, um choque violento e gradual do qual haveria de emergir outra Europa, a dos tempos medievais. Essa mulher foi Gala Placídia. Era filha do imperador Teodósio o Grande e foi capturada por Alarico, rei dos Visigodos, quando estes invadiram Itália. Gala Placídia foi obrigada a casar com Ataulfo, o filho de Alarico. Depois da morte deste, a princesa foge para Constantinopla e é casada com o general Constante, do qual tem um filho que será, ele próprio, imperador do Império Romano do Ocidente, Valentiniano III. Esta mulher de destino incerto mas caráter enérgico, de rosto tranquilo mas espírito forte, fascina-me e é com emoção que visito o seu Mausoléu, um dos monumentos mais belos de Ravena. 
Gala Placídia faleceu em Roma e não está no Mausoléu que lhe foi consagrado. Mas lá está o grande sarcófago que lhe estava destinado, tal como os do seu marido Constante e do seu filho Valentiniano III.
A tradição dos mosaicos romanos nunca se tinha perdido e refinava-se, no século V, sob o efeito da espiritualidade cristã. Os tetos e as paredes do Mausoléu de Gala Placídia retratam cenas do Antigo e do Novo Testamento, debaixo de uma abóbada celeste de um azul esplendoroso.

O céu estrelado no teto do mausoléu de Gala Placídia

A maravilhosa decoração das capelas laterais

A cena do Bom Pastor encima a porta de entrada
É da mesma época o Batistério Neoniano ou Ortodoxo. Visito-o fascinada. As figuras dos apóstolos e dos evangelistas rodeiam a cena do próprio Batismo de Cristo. As expressões sérias e vividas das figuras são adoçadas pelas cores dos milhares de pequenos mosaicos que os compõem Os brancos e os dourados, os verdes, azuis e vermelhos, entrelaçam-se em motivos florais, geométricos e figurativos, e atraem o nosso olhar para cima, abrindo-o ao mundo celeste.

Os doze apóstolos povoam a cúpula do Batistério Neoniano

Os profetas preenchem os arcos

No centro da cúpula, o Batismo de Cristo
Sento-me com o olhar perdido nas figuras que me observam do teto e imagino a emoção e o deslumbramento daqueles que ali entravam, há mil e quinhentos anos atrás. Como o mundo celeste lhes devia parecer brilhante e atrativo, em comparação com o seu mundo de inseguranças e terrores!...
Entretanto, a Itália continuava a ferro e fogo. O Império Romano do Ocidente cai em 476 e as invasões sucedem-se. Teodorico, rei dos Ostrogodos, instala-se em Ravena e aí constrói o seu palácio, o Batistério Ariano, a capela episcopal e a maravilhosa igreja de Santo Apolinario Nuovo.

A representação dos Reis Magos na parede de Sant' Apollinare Nuovo

O cortejo das santas e virgens...

No topo, as cenas da vida de Cristo

Os mosaicos cobrem as paredes, desenhando longas procissões de virgens e santos, de um lado os homens e do outro as mulheres. Acima, a vida de Cristo desdobra-se frente aos nossos olhos, naquela que é a primeira representação sequencial conhecida.
Ao fundo da igreja, no entanto, já nos aparece a figura de Justiniano, imperador do Império Romano do Oriente e último grande governante de Ravena. É dessa época de domínio bizantino que data a magnífica catedral de S. Vitale.

A Catedral de S. Vitale

Em S. Vitale, o imperador Justiniano e a imperatriz Teodora ocupam o lugar de honra, no altar-mor, ao lado do representante do poder religioso. Mas essa afirmação do poder terreno deixa muito espaço para as representações religiosas ou simplesmente decorativas que cobrem o espaço.

O magnífico interior de S. Vitale

O Imperador e o Bispo partilham o altar-mor

As cenas religiosas construídas com os minúsculos mosaicos preenchem as paredes

Teodora e o seu séquito

Os interiores destes monumentos, com toda esta riqueza decorativa, esta mestria figurativa e simbólica, este esplendor cromático, contrastam com os exteriores simples, escuros, de tijolo queimado pelos séculos, enganando os mais incautos.

Há 97 aves diferentes no teto da Capela Episcopal de Sant'Andrea

Aqui, os mosaicos criam as figuras dos quatro evangelistas e dos seus símbolos

Quando saía de S. Vitale, um casal de meia-idade avaliava a entrada: oito euros pelo bilhete? Será que vale a pena? Ah! Se calhar não, vamos só tirar uma foto exterior ao monumento! Apeteceu-me correr atrás deles e gritar: “Não façam isso! Entrem! Vão perder um tesouro, uma maravilha!...” Mas fiquei quieta e deixei-os ir embora. É o que acontece a quem vai visitar um lugar sem se informar do que de mais belo ali pode encontrar!

A toponímia das ruas de Ravena continua a ter como referência os mosaicos maravilhosos dos seus monumentos

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

BRENOIRE 2017 - II


A catedral de Orléans

As marcas dos cultos célticos e druídicos estão muito presentes em França, particularmente no noroeste. Na Bretanha, encontram-se por todo o lado grupos de menhires e os alinhamentos de Carnac ainda hoje nos espantam e interrogam. Mas também os encontramos noutros locais. Lembro-me de, já depois do Vale do Loire, encontrarmos uma indicação na estrada para o Menhir de Ceinturat. Não estava nos nossos planos, mas passou logo a estar!... Depois de cerca de um quilómetro em off-road e mais um bocado a pé, deparámos com o enorme menhir, com cerca de cinco metros. Um placard identificava o menhir, contando que estava rodeado por uma lenda: as raparigas que quisessem encontrar noivo, tinham de atirar uma moeda e colocá-la no seu topo plano. Atendendo à quantidade de moedas que lá estava, ainda há por aí muita gente à procura de parceiro!


Alinhamentos de menhires em Carnac

O menhir de Ceinturat

O Vale do Loire, compreendendo o rio Loire e os seus afluentes, é uma região ímpar. Com os seus inúmeros castelos e abadias ligados, de uma forma ou de outra, à monarquia francesa, implantados em locais de grande beleza, banhados por rios tranquilos, constitui um conjunto considerado como Património da Humanidade.


Interior da Abadia de Cléry


O Loire visto do Castelo de Amboise

aqui escrevi também sobre os Castelos do Loire e, por isso, não me vou alongar no tema. Queria apenas deixar um bom conselho: se houver alguma disponibilidade de tempo, explorar para lá dos castelos mais conhecidos. Castelos como Chambord ou Chenonceau estão sempre a abarrotar de turistas, despejados de consecutivos autocarros e, por vezes, até se torna incómodo ver bem os locais no meio de tanta gente.


Estátua de Joana d'Arc em Orléans


Igreja de Notre-Dame-la-Grande, em Poitiers, uma maravilha da arte românica
Há outros sítios, menos turísticos mas igualmente interessantes de visitar. Lembro-me, por exemplo, de Chinon, uma pequena cidade, antiga e pitoresca, nas margens do rio Vienne. As ruas medievais, bem conservadas, sobem pela colina até à fortaleza, que nos lembra a história de Joana d’Arc. Cidade natal de Rabelais, é um local agradável, onde apetece perder (ou ganhar…) tempo.


Em Chinon, subindo para a fortaleza

Estátua de Rabelais, junto ao rio Vienne

Alguns quilómetros a sul de Chinon, situa-se a pequena localidade de Richelieu. Não vem mencionada em nenhum guia turístico, mas merece uma paragem. Integra-se naquilo que foi a grande propriedade doada ao Cardeal Richelieu pelo rei Luis XIII, em pagamento dos seus serviços. O cardeal manda construir a cidade de raiz, seguindo o traçado e a estética arquitetónica do século XVII. Imperam a regularidade e a simetria. A grande rua central é ladeada de prédios de habitação, todos idênticos, segundo o mesmo plano neoclássico. A cidade, de plano quadrangular, é rodeada por uma muralha, como as bastides medievais, e o acesso é feito através de três portas monumentais. Há uma quarta porta, mas é falsa, só para manter a simetria!...


Uma das portas monumentais de Richelieu

Na praça central não podia faltar o museu, que guarda as peças artísticas da coleção particular do Cardeal Richelieu.
Continuamos para sul. Tínhamos decidido parar em Oradour-sur-Glane, para visitar a cidade mártir, mas a experiência é ainda mais angustiante do que já seria previsível. A pequena cidade de Oradour-sur-Glane foi destruída por uma divisão militar nazi em 1944, já depois do desembarque na Normandia. Deslocados do sul de França para a defesa da costa norte, decidem a destruição da povoação como uma lição aos rebeldes franceses. Arrebanharam homens, mulheres e crianças, matando-os a tiro ou na igreja  que incendiaram. Toda a povoação foi destruída pelo fogo.



Oradour-sur-Glane, cidade mártir

Há locais assinalados, mas toda a cidade é um local de suplício

No final da guerra, o General de Gaulle decidiu que a cidade de Oradour-sur-Glane não seria reconstruída, mantendo-se as suas ruínas como um testemunho da barbárie e da alucinação. Hoje, passeamos pelas ruas e vemos os restos daquelas vidas bruscamente cortadas. Aqui, um brinquedo, ali, um ferro de engomar ou uma máquina de costura. Alguns carros, um trator, tudo calcinado.


No meio da vila, passava um elétrico...

As ruínas da igreja pedem-nos silêncio e reflexão

Deixamos para trás estes vestígios de um tempo trágico e rolamos para o esplendor do vale do rio Dordogne. Considerado Reserva da Biosfera, é uma paisagem magnífica. A estrada bordeja o rio e atravessa localidades encantadoras, que sobem pelas colinas coroadas de pequenos castelos. Ao entardecer, o sol enche o rio e as casas de reflexos dourados.


O rio Dordogne

As pequenas vilas nas margens do rio Dordogne

O ambiente é de festa. A Volta à França tinha passado por ali há duas semanas e as ruas e praças ainda estavam engalanadas como para os Santos Populares. Há carros de feno e bicicletas enfeitados com flores de papel. Há camisolas do Tour penduradas em cordas de secar a roupa. Há frases de acolhimento aos corredores. Onde passa o Tour, é uma festa!


O Tour é uma festa!

E é neste ambiente festivo que chegamos a Bergerac. É a nossa última paragem em França, por isso tínhamos preparado uma brincadeira à volta do seu personagem mais famoso, Cyrano de Bergerac, e do seu famoso nariz. Os rapazes tinham comprado uns narizes postiços, que colocaram à entrada da cidade. Do rececionista do hotel até à senhora que nos vendeu uns patês para trazermos para casa, o sucesso foi estrondoso. Após umas fotografias para memória futura junto à estátua de Cyrano, de narizes bem erguidos, iniciamos o regresso a casa.


A chegada dos forasteiros a Bergerac

A estátua do verdadeiro Cyrano de Bergerac
Dirigimo-nos para os Pirinéus, que cruzamos pela velha estrada de peregrinação do caminho francês para Santiago de Compostela, por S. Jean Pied-de-Port e Roncesvales.
Agora, é só rolar rapidamente para casa. Ainda temos de atravessar Espanha e o seu calor tórrido, mas as boas recordações da viagem ajudam-nos a passar o tempo.
Para o ano, há mais viagens e mais histórias para contar.