quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Crónicas de uma viagem a Itália – Perugia, no coração da Itália


Os telhados de Perugia

A Úmbria situa-se aproximadamente no centro da Itália, a meio caminho entre o norte alpino e o sul calabrês, mas também a meio caminho entre as costas bordejadas de praias e carregadas de turistas do mar Tirreno e do mar Adriático.
É uma região verdejante, de colinas coroadas de pequenas vilas e cidades com nomes antigos, berço dos Etruscos, que aí se instalaram e deixaram os seus vestígios e a sua influência. Uma dessas cidades é Perugia.


O Arco Etrusco


Tenho dificuldade em escrever sobre Perugia. Não sou perugina, mas também não me sinto uma vulgar turista. Aí vivi durante um mês, por razões que já aqui expliquei, e vejo Perugia com os olhos do coração.
Quando saí do comboio, entrei na estação e deparei com um grande painel cerâmico onde um mapa da Úmbria nos convida à descoberta da região. Quantas vezes esperei pelo comboio sentada no banco por baixo desse painel! A visão do painel comoveu-me como se reencontrasse um amigo há muito tempo perdido!

À espera do comboio...

Hoje, a subida até à cidade tornou-se mais simples. Além do autocarro, há também um sistema de metro circular que, em certos pontos, se articula com um funicular que nos deixa muito próximos do centro histórico.

A grande escadaria que sobe do Arco Etrusco até ao centro

Perugia não é uma cidade muito turística; fica afastada dos centros turísticos mais fortes e fora dos eixos que os unem. Para mim, isso é uma enorme vantagem. Ainda podemos sentir-nos numa cidade italiana, cheia de italianos que se cruzam, conversam, passam tempo nas esplanadas a beber os seus aperitivos, frequentam os concertos ou outras iniciativas culturais, namoram ou marcam encontros para o serão, passeiam com os seus filhos ou os seus cães.
Em termos históricos, ainda se encontram alguns vestígios etruscos, como o magnífico Arco Etrusco, uma das portas de entrada para o centro histórico. Se houver tempo, vale a pena visitar o Museu Arqueológico Nacional, principalmente pelos sarcófagos e estelas funerárias etruscas, algumas de grande beleza.

Sarcófagos etruscos no Museu Arqueológico Nacional


A zona medieval da cidade fica do lado da Porta de Sant’Angelo. Aí se situa uma pequena igreja circular, construída sobre um templo romano. É a mais antiga de Perugia.

O pequeno templo circular de S. Michele Arcangelo


Aí se encontram também antigos conventos e casas de peregrinação, algumas das quais foram transformadas em albergues, casas de turismo de habitação e restaurantes. Mas não é excessivo, consegue manter os traços antigos e genuínos. Apetece deambular pelas ruas estreitas, subir e descer escadas, passar pequenos arcos e encontrar sempre mais um recanto sombreado ou um balcão colorido onde pousar a nossa cadeira durante uma temporada…

A torre da Porta de Sant'Angelo

Arcos e fontes, ruas e recantos...



O centro turístico de Perugia é a grande praça que medeia entre a Catedral de S. Lourenço e o Palazzo dei Priori. O centro da praça é marcado pela Fontana Maggiore, uma fonte muito interessante e original: enquanto a parte de baixo representa o povo e as várias profissões, a parte de cima, suportada por uma colunata circular, representa os anjos e santos do mundo celestial.

A Fontana Maggiore


O Palazzo dei Priori


O Palazzo dei Priori é um edifício gótico, que data do século XII. É o antigo palácio comunal, por isso ostenta uma coroa de ameias, que simbolizam a cidade livre. A sala mais notável é a Sala dei Notari (Sala dos Notários), a antiga Câmara Municipal. Data do século XIII e é um belo salão abobadado, onde se podem ver os brasões das famílias que governaram Perugia até à queda da cidade em poder do Papado.

A Sala dei Notari...

... com os brasões pintados nas paredes

Por cima da porta, duas estátuas em bronze representam um leão e um grifo, símbolos da cidade.
Atualmente, a maior parte do Palácio está ocupada pela Galeria Nacional da Úmbria, com uma importante coleção artística.

A entrada para a Galeria Nacional da Úmbria

A Catedral de São Lourenço mantém-se inacabada e virada para a praça lateral; e a figura que, da catedral, abençoa a praça principal e a cidade não é o dito santo, mas o Papa Júlio III, que voltou a dar autonomia à cidade.

A parte lateral da catedral, virada para a fonte

A bela sacristia

O papa Julio III

Tanto o Palazzo dei Priori como a Catedral têm escadarias que enquadram a praça e onde turistas e locais se sentam a descansar nos fins de tarde. Ainda me lembro desta praça, agora pedonal, cheia de vespas e pequenas motas que rodavam à volta da fonte. Já nessa altura me sentava nestas escadas e sentia vontade de ficar aqui, colada a estas pedras. Uma parte de mim aqui permanecerá sempre.
No último dia antes da partida, fomos assistir a um concerto no Convento Franciscano, empoleirado numa colina fronteira a Perugia. Enquanto olhava o pôr do sol, envolvida nas melodias de Gershwin e Astor Piazzola, pensava para comigo que não podíamos ter escolhido uma maneira melhor de dizer adeus a Perugia.

Perugia vista do convento franciscano


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Crónicas de uma viagem a Itália – Brescia, uma surpresa



Brescia, uma surpresa...

Brescia não é uma cidade muito turística, nem um destino de viagem muito óbvio.
Nós escolhemos a cidade porque ficava perto do Lago de Garda e já conhecíamos Verona, do outro lado do Lago. Então, porque não? Mas, para quem chega de comboio, como nós, a cidade não apresenta um aspeto convidativo. A zona à volta da estação parece ser uma zona mais pobre, onde residem emigrantes e pululam pedintes. As forças militares vigiam a entrada da estação, onde se aglomeram grupos de homens de todos os tons, que conversam alto, comem e bebem, enfim, passam o tempo. Só se veem restaurantes de kebab e comida chinesa, além da omnipresente McDonald’s! Para quem chega do mundo limpo e ordenado do Trentino, é um mergulho numa Itália bem diferente…
Mas basta caminhar um pouco pelo centro histórico da cidade para percebermos que Brescia esconde muitos segredos, à espera de serem revelados.
É uma cidade muito antiga, a Brixia romana, e as escavações, apenas iniciadas no século XIX, têm posto à luz um templo dedicado a Júpiter Capitolino e um teatro. Embora não tenha a grandiosidade dos vestígios romanos de outras cidades, vale a pena passar pelo Centro Interpretativo, que é recente e está muito bem feito.


O que resta do velho templo de Júpiter Capitolino

Ao longo dos tempos, Brescia teve vários invasores e dominadores, que deixaram as suas marcas. É o leão veneziano que nos recebe nos portões do castelo, enquanto na Piazza della Loggia há um memorial que recorda os dez dias de luta encarniçada contra o domínio austro-húngaro.
É interessante subir ao castelo, e não apenas pela magnífica vista que daí se tem sobre a cidade. Ao subir, deparamos com pequenas placas embutidas no chão, que nos acompanham como num calvário. Nas placas, encontram-se os nomes dos italianos que morreram vítimas de terrorismo, desde os atentados das Brigate Rosse dos anos 60, até aos mais recentes atentados ligados ao fundamentalismo religioso. Seja qual for o objetivo ou a ideologia que está por trás, um atentado é sempre uma violência estúpida e é imperativo recordar aqueles que com isso perderam a vida, às vezes por um acaso igualmente estúpido.


Subindo ao castelo

No castelo, encontramos outro registo histórico, de tipo totalmente diferente: uma velha locomotiva de 1906, que fez 2 milhões e meio de quilómetros ao serviço dos caminhos-de-ferro da região, conseguindo sobreviver incólume à Primeira e à Segunda Guerras Mundiais.


A velha locomotiva de 1906

O mesmo não aconteceu com muitas zonas da cidade, castigadas fortemente pelos bombardeamentos anglo-americanos de 1943/44. Dessa destruição nos dá testemunho a Igreja de Santa Maria dei Miracoli, da qual só sobreviveu a fachada, tapada pelos habitantes. Laboriosamente reconstruída, ainda mostra porém as marcas desses bombardeamentos.


A fachada da igreja da Santa Maria dei Miracoli

O centro de Brescia é formado por várias praças, que se articulam entre si. A grande Piazza della Vitoria, com os seus edifícios retilíneos, faz-nos regressar à estética fascista do tempo de Mussolini, mas a Piazza della Loggia e a Piazza del Duomo trazem-nos de novo para uma dimensão mais humana.


Piazza della Vitoria

A Piazza della Loggia, como o próprio nome indica, é dominada pelo Palazzo della Loggia, agora dedicado à memória dos brescianos que morreram pela pátria. Do outro lado da praça, mais um conjunto de arcadas encimado por um belo relógio astronómico, definindo assim um espaço harmonioso e equilibrado.


Piazza della Loggia, com a torre do relógio astronómico

Piazza della Loggia

Ao fundo, a Loggia...

Mas a minha praça preferida é a do Duomo. De um lado da praça, alinham-se o Duomo Vecchio, um belíssimo edifício de planta octogonal (e por isso também chamado de Rotonda) e o Duomo Nuovo, que veio substituir o anterior. E, ainda no mesmo alinhamento, ergue-se il Broletto, o velho edifício comunal, com a sua alta torre a afirmar o poder da cidade e dos seus cidadãos.

O Duomo Vecchio ou La Rotonda



O interior do Duomo Vecchio

E, ainda no mesmo alinhamento, ergue-se il Broletto, o velho edifício comunal, com a sua alta torre a afirmar o poder da cidade e dos seus cidadãos.
No interior d'Il Broletto

Qualquer destas praças é pedonal e tem esplanadas muito agradáveis, onde os italianos se reúnem ao fim da tarde para beberem os seus aperitivos, enquanto as crianças brincam e andam de bicicleta no vasto espaço aberto.


Ao entardecer, as esplanadas das praças enchem-se de vida

Mas eu disse que Brescia escondia segredos… vou revelar um! Numa pequena rua, a caminho do Templo Romano, quase não se dá pela entrada para o pequeno oratório de Santa Maria della Caritá.
Um velhote que estava à porta, ao ver-nos observar o dístico da igreja, chamou-nos: “Se quiserem visitar aproveitem agora, a igreja está quase a fechar!” Resolvemos seguir o chamamento e entrámos numa pequena mas belíssima igreja circular. A maior surpresa, todavia, escondia-se atrás do altar. Segundo o velhote nos explicou, ali estava uma réplica exata da casa de Maria, com a janela onde o anjo apareceu e tudo, tal como tinha sido transportada pelos anjos (ou seria a família degli Angeli?) desde a Palestina até à cidade italiana de Loreto.
E esta, hem?

Santa Maria della Caritá


sábado, 14 de setembro de 2019

Crónicas de uma viagem a Itália - O dia do Palio em Siena

A festa do Palio: cores e tradição


É sexta-feira, dia 16 de agosto de 2019, e hoje corre-se o Palio em Siena. É uma festa com raízes medievais, que opõe os diversos bairros da cidade. Cada bairro tem os seus símbolos, o seu santo padroeiro, as suas cores.

Há bandeiras em todas as ruas
Quando começamos a aproximar-nos da cidade, começamos também a sentir os ecos da festa: vai surgindo muita gente,velhos e novos, com os típicos lenços ao pescoço, cada um com as cores do seu bairro.
Entramos em Siena pela Porta della Camolia. Por todo o lado se vêem grupos com as cores do bairro da Camolia, azul, branco e vermelho. É o bairro mais recente e dizem que é o mais rico. O azul, o branco e o vermelho estão por todo o lado, nas janelas embandeiradas, nos candeeiros das ruas, assim como o porco-espinho, o animal que simboliza o bairro. 

O ouriço-caixeiro está presente nos locais mais inesperados

Vamos percorrendo as ruas e vamo-nos apercebendo da passagem dos bairros pelas cores das bandeiras que enfeitam as portas e as janelas.
Hoje, não há risos nem conversas descontraídas de verão à volta das mesas das esplanadas. Sente-se uma efervescência, uma azáfama; é dia do Palio.

A Piazza di Campo começa a encher-se de gente

A grande Piazza di Campo, com o seu original formato de concha, dominada pela grande torre comunal, começa a encher-se de gente. As bancadas, a toda a volta da praça, já estão montadas, assim como as tribunas e as grandes portas de madeira que irão fechar o espaço. A pista onde os cavalos irão correr, hoje, ao fim da tarde, já está coberta de terra bem batida. Os cavalos, por agora, estão a ser preparados e abençoados nas capelas dos bairros.

Armam-se as bancadas...

... e preparam-se os cavalos.

O acesso ao grande espaço central da praça é gratuito, mas sem acesso a casas-de-banho a partir do encerramento da praça, cerca das 16h30. Não é para mim! As bancadas têm acesso a casas-de-banho e um preço que oscila entre os 200 e os 400 euros. Também não é para mim!...

As tribunas estão prontas

Os carros que vão participar no desfile aproximam-se dos portões de madeira

A partir da hora do almoço, a azáfama torna-se mais intensa. Os membros das confrarias montam os carros e estandartes que irão integrar o cortejo. E, gradualmente, as ruas que vão da Piazza del Duomo à Piazza dei Banchi enchem-se com os cortejos dos vários bairros.

Piazza dei Banchi, onde se situa o Monte dei Paschi di Siena,
o mais antigo banco do mundo ainda em atividade

É um festival de cores e sons, conjugado com um mergulho no passado. À frente de cada contrada desfilam os pagens e escudeiros. Os primeiros tocam os tambores, outros transportam as bandeiras, ou fazem a guarda de honra dos homens de armas, vestidos com brilhantes armaduras.
Os fatos e armas são à moda do século XV, variando nas cores de acordo com as cores do bairro que representam. Cada conjunto é seguido pelos habitantes do bairro, todos com o seu lenço colorido ao pescoço.





A certa altura, o trajeto já é pequeno para tanta gente. As contradas cruzam-se nas ruas; enfrentam-se atirando as bandeiras ao ar e cantando os seus cânticos.
Por agora, o confronto é calmo. Mais logo, na praça, vai estar ao rubro. 



Às 19 horas em ponto, o sino vai tocar e os cavalos que representam as várias contradas vão correr à volta da praça, numa corrida com poucas regras. Os cavaleiros, ou fantini, correm sem selas nem estribos, numa corrida louca, onde as quedas e acidentes são frequentes. Competem por um estandarte religioso, que será transportado para o bairro durante esse ano. Mas o primeiro lugar para onde se dirigirão, em tropel, será para a catedral: homens, mulheres, fantini e o cavalo vencedor, claro está, invadem a catedral para o último episódio de uma festa que tem tanto de sagrado como de profano e que tem raízes ainda mais antigas do que esta magnífica catedral que os acolhe.

A magnífica catedral de Siena, na Piazza del Duomo

Uma jovem adepta da Camolia, levanta orgulhosamente a bandeira da sua contrada

No final, só um bairro irá fazer a festa. Como se lia hoje no jornal Corriere di Siena, na edição especial dedicada ao Palio, para todos os outros bairros começa hoje o inverno.


Nem os cães ficam indiferentes à festa!