quarta-feira, 8 de abril de 2020

Como descrever a Capadócia?



Imagina-se uma paisagem de montes e vales, com estradas que a cruzam a custo, os tons entre o castanho esbranquiçado e o amarelo desbotado. Nessa paisagem dura, porém, a terra tem o aspeto mole e fofo de um pudim de claras. O vento moldou a rocha como quis, escavando buracos e túneis. A erosão esculpiu a paisagem, criando torres e cones de rocha de formas fantasiosas.



Muitas equilibram no topo uma pedra, como um pequeno chapéu ridículo. Chamam-lhes "chaminés de fada" e parecem, realmente, ter saído de um livro de fantasia ou de um filme de Tim Burton.
A explicação científica para aquela estranha paisagem é muito mais prosaica: dois vulcões, há uns milhares de anos, vomitaram ali as suas lavas e as suas turfas, que a passagem do tempo se encarregou de desgastar e esculpir. Aos meus olhos, porém, qualquer explicação mágica parece mais plausível do que a realidade.




As gentes que ali viveram, ao longo de gerações, procuraram adaptar-se, como sempre. Aproveitaram e aperfeiçoaram o trabalho do tempo e criaram as suas próprias casas dentro da rocha. Um buraco para a porta, outros para as janelas... Quartos, escadas e arrecadações escavados no interior de cada construção de turfa... Lá dentro, os rigores do frio e do calor extremos ficam amenizados e, ao passar, conseguimos vislumbrar mesas ou tapetes que nos dão ideia de um inesperado conforto.
A terra não protege apenas dos rigores do clima, também abriga as gentes em alturas de perigo. Visitámos Kaymakli, uma de várias "cidades subterrâneas". Caminhámos por túneis e escadas, salas e passagens aéreas, quartos, cozinhas e despensas. Dizem-nos que ali se abrigaram, por vezes, centenas de pessoas, aldeias inteiras, camufladas pelas formas inesperadas e fantásticas das rochas. E não custa a acreditar.



Hoje, são os turistas os grandes beneficiários desta região encantada. Os buracos na rocha transformaram-se em pequenos hotéis ou casas de chá. E podemos sentar-nos a tomar uma bebida numa varanda escavada na pedra, sentindo-nos parte da paisagem.



Pode haver lugares muito belos para andar de balão, mas a Capadócia está certamente num lugar cimeiro. Chegamos ao ponto de encontro para a viagem de balão ainda noite escura. Grandes fogueiras iluminavam a noite, aquecendo o interior dos balões, que começavam a levantar-se como gigantes estremunhados. Cada balão leva dez a doze pessoas, mas não há barulho, pelo contrário, envolve-nos um silêncio quase religioso, apenas quebrado pelo sopro cadenciado do ar no balão.



Os balões sobem ao céu ao mesmo tempo que o sol e observamos a Capadócia lá de cima, numa madrugada luminosa. O cenário é estranho, fantástico e belo. As rochas de formas fantasiosas sobrevoadas pelas bolas coloridas dos balões resultam numa paisagem surrealista como uma pintura de Dali.




Após a viagem, o balão aterra suavemente em cima de um atrelado de madeira, num exercício de precisão admirável. Somos recebidos com uns bolinhos e umas taças de champanhe. O estômago já agradece aqueles aconchegos. E o champanhe dá o tom festivo. Com efeito, a Capadócia é uma festa para os sentidos.


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