Restos do Império II

Os dois vestígios mais impressionantes do passado imperial de Roma são o Arco de Constantino e o Coliseu. Reproduzidos até à exaustão em postais, calendários e filmes promocionais, parece que não poderiam oferecer-nos mais nada. No entanto, não é assim.



O Coliseu, mesmo desprovido dos mármores que o ornamentavam nos seus tempos áureos, é um monumento impressionante. Em primeiro lugar, pelo seu tamanho. Tinha espaço para 50.000 espectadores sentados, além do largo palanque onde o imperador e os altos dignatários assistiam aos espectáculos, separados da plebe. Largos corredores circundam as bancadas, servidas também por grandes escadarias, onde nos é fácil imaginar uma multidão de gente a entrar e a sair, a vender, a comer guloseimas nos intervalos, a entusiasmar-se com o programa das festas.
Dispostos num espaço ligeiramente ovalado, em três grandes anéis de bancadas, os espectadores assistiam comodamente aos espectáculos que lhes eram oferecidos, espectáculos de sangue e emoção, de que as nossas actuais touradas são ainda herdeiras.



Por baixo da enorme arena, situavam-se os armazéns e as jaulas dos animais. Ainda nos surpreende o engenho com que os romanos organizavam a entrada em cena dos animais. As jaulas funcionavam como elevadores, subidas por roldanas para garantir uma entrada rápida e surpreendente na arena.
Se nos sentarmos durante uns momentos, se ouvirmos com atenção, aquelas pedras têm com certeza muito para contar. É-nos fácil e doloroso imaginar os espectáculos que ali decorreram: animais exóticos em lutas ferozes, leões contra elefantes, tigres contra ursos; mas também as célebres lutas de gladiadores, homens (e até algumas mulheres) treinados para lutar, se necessário até à morte. Sabemos que também aí foram sentenciados criminosos comuns e aí foram chacinados alguns milhares de cristãos, até ao século III. É aflitivo ouvir o que estas pedras nos contam.



O belíssimo Arco de Constantino, que espera o visitante frente ao Coliseu, conta-nos a continuação da história. O imperador Constantino mandou construir este Arco em 315 d. C., para comemorar a sua vitória sobre o seu rival Maxêncio. 




Embora a decoração do monumento seja feita com estátuas, relevos e medalhões retirados de outros monumentos mais antigos, o imperador declarou que a sua vitória se deveu a uma visão de Cristo na Cruz. A mãe, que viria a ser chamada Santa Helena, converteu-se ao cristianismo e o próprio imperador dá liberdade de culto aos Cristãos. 
Estes dois monumentos, que representam momentos diferentes e consecutivos da história da religião que moldou a cidade de Roma, erguem-se lado a lado, na mesma Piazza. Ironias da História.



(Fotografias de Teresa e Fernando Ferreira)

Mensagens populares deste blogue

Para comer - Dom Lambuças

Uma Rota do Românico

Livros e Viagens - Roma, Exercícios de Reconhecimento