sexta-feira, 13 de março de 2015

Livros e Viagens - Crónicas de uma pequena ilha



Para mim, que gosto de ler e de viajar, há um género de literatura absolutamente irresistível: a literatura de viagens. Passei pelo Bruce Chatwin – Na Patagónia ainda é um dos livros da minha vida – e confesso que o Gonçalo Cadilhe é o meu herói secreto: ele faz o que eu gostaria de fazer na vida, viajar e escrever sobre isso!
Descobri há pouco tempo outro “narrador de viagens” muito agradável. Chama-se Bill Bryson, e é um americano que viveu vários anos na Grã-Bretanha, trabalhando como jornalista. Conhecia Bill Bryson como o autor daBreve História de quase tudo, uma viagem divertida por quase tudo, dentro das ciências. Este livro, Crónica de uma Pequena Ilha, editado pela Bertrand, conta as peripécias de uma viagem que o autor faz pela Grã-Bretanha, incluindo aqui a Inglaterra, a Escócia e o País de Gales. É um livro encantador, com passagens profundamente cómicas, porque Bill Bryson conhece bem os ingleses e aponta os seus pequenos tiques e idiossincrasias com muito humor. Também é um livro terno, de quem, mesmo olhando de fora, ama aquele país, a sua história, as suas paisagens. O autor não hesita em criticar o que está mal, por exemplo, a destruição de património histórico para construir blocos de escritórios descaracterizados, ou a falta de coordenação dos transportes públicos. Mas também descreve os aspectos simpáticos e atraentes do modo de vida britânico, mesmo quando lhe causam estranheza, com o hábito das caminhadas ou, evidentemente, o humor britânico.
É um livro agradável de ler, especialmente para quem conhece também a Grã-Bretanha. As nossas escolhas de visitas podem não ser as mesmas mas,gostos aparte, é um livro interessante, que nos dá um outro lado, muitas vezes pouco visível, dos ingleses e da sua pequena ilha.

sexta-feira, 6 de março de 2015

De mota pelos Pirinéus II - Betharram


Estrada nos Pirinéus Franceses
Entramos nos Pirinéus franceses pelo Pico de Orhy, procurando fugir às estradas nacionais, mais frequentadas. Queriamos sentir a montanha, perceber como se vive ali, percorrer sem pressa as velhas estradas. Passamos por manadas de vacas e por cavalos que pastavam serenamente nas encostas. O dia estava húmido e a estrada, por vezes, escorregadia. As pequenas cascatas apressavam-se pelos montes abaixo.



No Pico de Orhy
Quando a fome começou a apertar, paramos a mota numa aldeia, onde vimos uma indicação de "Alimentation" escrita na parede. Lá dentro, duas mesas e um balcão de madeira recriavam o ambiente de um episódio do detetive Maigret. E nada para comer... Mais à frente, num bar, lá nos arranjaram umas sandes para enganar a fome. Na televisão, passava um programa local, com informações sobre atividades que iriam decorrer nas redondezas, intercaladas com pequenos apontamentos sobre a língua basca. Passamos o nosso improvisado almoço, muito divertidos, aprendendo palavras e expressões em basco. Infelizmente, não apontei nada e não me lembro de uma palavra.
Regressamos à estrada, no meio de uma vegetação compacta. Aqui, já não há vacas nem cavalos, mas, em contrapartida, deparamos com uma águia, que levantou voo mesmo à nossa frente, olhando para nós, como se nos indicasse o caminho. Pareceu-me um bom prenúncio...
A tarde já vai a meio quando reentramos na estrada principal, que liga Pau a Lourdes. Aí, encontramos à nossa direita o santuário de Betharram. Ofuscado e um pouco esquecido a favor do seu vizinho, o grande Santuário de Lourdes, é, no entanto, um local encantador e cheio de histórias.


O Santuário de Betharram
Conta a lenda que ali se teria dado um milagre: uma rapariguinha, prestes a afogar-se, ter-se-ia salvo pela mão de Nossa Senhora, que lhe teria estendido um ramo a que ela se agarrou, até chegar à margem do rio que por ali corre. Estavamos no século XVII. Mais de oitenta milagres são reportados só durante esse século, sempre por intercessão da Virgem. É então construído o santuário, em estilo barroco, que ainda hoje se pode visitar.


Estátua da rapariga salva pela Virgem
É também dessa época a Via-Crucis, com várias capelas que se espalham pela encosta da montanha. Foram destruídas durante a Revolução Francesa, mas foram depois reconstruídas durante o século XIX.
Em 1837, São Miguel Garicots funda aí a Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus. O sarcófago de vidro onde repousa pode ainda ser visto na Capela de São Miguel.


Capela de São Miguel

Quando visitamos o Santuário, estava aí patente uma exposição sobre as perseguições de que os cristãos são vítimas, neste momento, em várias partes do mundo. Todas as manhãs, as televisões passam imagens onde pontuam as atitudes intolerantes e violentas do chamado Estado Islâmico. Infelizmente, o assunto não podia ser mais atual...


Velha ponte sobre o rio em Betharram


terça-feira, 3 de março de 2015

Açores... Feel the Sky

Parece que os Açores estão em grande plano na oferta turística. E bem merecem... Ou bem merecemos nós, que temos aqui ao pé da porta um arquipélago com tanta beleza natural, tão diversificada!
Entre 1 e 5 de julho, acontece o primeiro Festival Internacional de Balões de Ar Quente, na Ribeira Grande, na ilha açoriana de São Miguel. O festival tem o nome sugestivo de Feel the Sky e vai receber cerca de 20 equipas, oriundas dos mais diversos países. 
Eu já andei de balão - na Capadócia, pois claro... - e é uma experiência inesquecível. Acredito que a paisagem dos Açores em nada lhe ficará a dever...

Mais informações em www.facebook.com/festivalbaloesRG

(Foto da Revista Sábado)

segunda-feira, 2 de março de 2015

Novidades - É mais barato viajar para Ponta Delgada

Há boas notícias! A Easy Jet pôs os Açores ao alcance da Europa. Ou vice-versa... Agora é a RyanAir que anuncia o início das ligações com Ponta Delgada para o final de março. Finalmente, já podemos viajar para Ponta Delgada, Açores, pelo mesmo preço de um voo para Paris, Londres ou Barcelona!...

Lagoa das Sete Cidades
(Foto Açores Natureza Viva)

sábado, 28 de fevereiro de 2015

De mota pelos Pirinéus I - Roncesvales



Memorial da Batalha de Roncesvales
Quando decidimos dar uma volta pelos Pirinéus, resolvemos começar por aqui, pela pequena povoação de Roncesvales. Situada no sopé das montanhas, não muito longe da animada cidade de Pamplona, Roncesvales guarda os caminhos secretos e as passagens que permitiam em tempos remotos atravessar os Pirinéus com uma relativa segurança. Hoje, é fácil seguir por uma boa estrada para as luxuosas estâncias de esqui do lado francês das montanhas, mas tudo em Roncesvales nos recorda outros tempos, tempos de incursões muçulmanas ou carolíngias, épocas de guerrilhas bascas, com heróis lendários que ficaram nas canções de gesta e no imaginário popular.


Capela de Sancti Spiritus / Silo de Carlos Magno
É o edifício mais antigo de Roncesvales, construído no séc. XII pelo rei de Navarra e Aragão


A cripta servia de ossário aos peregrinos que morriam no hospital.
Diz a lenda que aqui Carlos Magno mandou construir o túmulo de Rolando e de outros guerreiros mortos na batalha de Roncesvales

É também em Roncesvales que se inicia o mais longo Caminho de Santiago, o chamado caminho francês, percorrido pelos peregrinos que vinham de França. Hoje, os serviços turísticos para os peregrinos atuais, de ténis e carro de apoio, animam a pequena povoação.



Cruz do Caminho (Séc. XIII)
Um troço do Caminho


Mas ainda é a velha batalha de Roncesvales que ecoa nos desfiladeiros e é recordada em monumentos e estátuas evocativas. Corria o ano de 778 e Carlos Magno, rei dos Francos, regressava de uma campanha contra os muçulmanos que acossavam as fronteiras da Cristandade, quando a retaguarda do seu exército é dizimada por guerreiros bascos. Nessa batalha, morre Rolando, o prefeito da Bretanha, e muitos outros. Mas é Rolando que é cantado nas primeiras canções de gesta europeias, onde os ataques bascos são substituídos pelos sarracenos.



Estátua de Rolando caído junto ao seu cavalo

Curiosamente, essa história foi passada até ao nosso século pela tradição oral popular e fui encontrá-la nos famosos teatros de marionetas da cidade siciliana de Palermo, tal como contei aqui.






quarta-feira, 5 de março de 2014

O Vasa Museet




Há em Estocolmo um museu muito original, pelo seu tema mas principalmente pela forma como está concebido: o Museu de Vasa ou, em sueco, Vasa Museet.
O Vasa, belo e luxuoso, foi um navio construído no século XVII para mostrar o poder da coroa e da marinha sueca. Com as suas altas velas e centenas de figuras esculpidas em madeira, muitas delas pintadas com cores vibrantes, era com certeza um espetáculo extraordinário, na sua saída para a viagem inaugural. No dia 10 de agosto de 1628, o Vasa saiu do porto de Estocolmo mas, à vista de todos os que assistiam à partida, o navio afundou-se.  


Após 333 anos sob as águas, em 1961 o navio foi resgatado. Hoje, depois de um exaustivo trabalho de reconstituição, é a peça central deste museu, que foi construído para o navio e à sua volta. Os mastros são tão altos que ultrapassam os telhados e nos permitem reconhecer de longe o museu.


Lá dentro, o museu está concebido de forma a circularmos à volta do navio, em vários andares, cada um dos quais com diversos núcleos que desenvolvem temáticas diferentes.
Temos a história do navio, mas também do seu resgate, difícil e demorado, do fundo do mar. Aplicações interativas permitem-nos tentar perceber o que levou a um naufrágio tão rápido como inesperado. Há um modelo totalmente equipado do navio e um núcleo que explica o significado simbólico de todas as esculturas e imagens de poder.


Mas encontramos também núcleos que exploram todo o contexto à volta do Vasa: Como era a navegação no século XVII? Como era um estaleiro naval? Como era a vida a bordo? Como decorriam as batalhas no mar naquela época? 


Um dos núcleos mais fascinantes mostra-nos as pessoas que viajavam no Vasa. Muitas delas foram resgatadas ainda dentro do navio e a ciência atual permite saber muitas coisas sobre elas: tipo físico, regime alimentar, carências. Aqueles homens e mulheres ressurgem assim e olham-nos a partir do século XVII, contando muita coisa sobre a sociedade em que viviam. 


No final, uma sala mostra-nos, de forma interativa, como era o mundo na época em que o Vasa foi construído e naufragou.


Hoje, o Vasa Museet é um dos museus mais visitados e uma das maiores atrações turísticas mundiais, dando uma perspetiva única da Suécia do início do século XVII.


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Bruges, ou a Veneza do Norte




Quem entra na cidade de Bruges, tem com certeza uma sensação de regresso ao passado. A cidade parece ter parado no século XV, parece ter-se fixado num passado, bem conservado, limpo, um pouco idealizado, mas saído, sem dúvida, dos velhos livros de contos infantis. Quase esperamos ver cavaleiros e tecedeiras flamengas a sair de uma porta ou a dobrar uma esquina. E, no entanto, tudo é real, as casas e os canais estão realmente ali desde a Idade Média, desde o tempo em que Bruges dominava os circuitos das lãs inglesas e dos tecidos flamengos que fizeram a sua fortuna.



A praça central é dominada pelo Hotel de Ville, com a alta torre que representava o poder comunal. Aí, à imagem do que acontece em Bruxelas, dominam as belas casas dos ofícios. Os prédios, estreitos e altos, ostentam os símbolos e cores das corporações, mostrando bem quem ali mandava e criava riqueza.


Mas eu prefiro perder-me pelas pequenas ruas, cruzadas pelos canais, onde circulavam os panos de lã, as rendas, os tecidos bordados. Cada casa conta uma história, enredada nas portas maciças, nas pequenas janelas, nos telhados em degraus, nas figuras que adornam as frontarias.


Portugal também aqui teve uma feitoria, no tempo em que trazíamos à Europa as riquezas do Oriente.
Bruges é uma cidade tranquila, apesar dos turistas que cruzam as ruas e enchem os barcos dos canais. É uma cidade onde nos apetece passear devagar, a admirar os pormenores, a parar nos recantos bucólicos das praças, a olhar os patos que dormem nos vãos das portas.


Van Eyck viveu aqui, Memling também. São eles que fazem reviver o espaço ocupado pelo Hospital, no final da Idade Média.


É um regresso ao passado, mas a um passado depurado de tudo o que existia e era triste, pobre ou incerto. Onde só ficou o lado belo das coisas.