sábado, 28 de setembro de 2013

Grand' Place, a praça mais bela da Europa


(Sábado de manhã na Grand' Place)

Bruxelas deve ser a cidade da Europa de que mais se ouve falar. Regularmente, somos informados de que os nossos governantes se deslocaram a Bruxelas para discutir e decidir sobre os mais variados assuntos. Os técnicos dos diferentes ministérios passam a vida em reuniões promovidas pela Comissão Europeia, e os aeroportos e os hotéis estão cheios destes burocratas, de fato e pasta na mão.
E, no entanto, Bruxelas é muito mais do que isso. Não é só a capital da Europa, é uma capital europeia com muito para mostrar, dos chocolates às galerias de arte, da banda desenhada ao recente Museu Magritte.
No centro da cidade, o ponto para o qual tudo converge é a Grand' Place. É apontada como sendo a mais bela praça da Europa. Não sei se é. Lembro-me de outras praças igualmente belas, cada uma ao seu estilo. Mas que é maravilhosa, na beleza e harmonia dos edifícios que a rodeiam, lá isso é verdade!

(A torre da Maison de Ville)

O edifício mais importante é a "Maison de Ville", que data do século XV. o interior merece uma visita e aí se celebram hoje muitos casamentos. A torre, alta mas graciosa no seu rendilhado, eleva-se a 114 metros e, no topo, uma estátua em bronze dourado do arcanjo S. Miguel aponta a direção do vento. Era neste edifício que se reuniam os burgueses, os homens comuns da cidade, para determinarem os seus assuntos, e é um símbolo das liberdades comunais.

 (Na varanda da Maison de Ville)


Em frente, do outro lado da praça, ergue-se a Maison du Roi. Começou por ser a Broodhuys, ou Casa do Pão, já que aí se garantiam os direitos do fabrico e comercialização do pão. Reedificada por Carlos V, várias vezes danificada e reconstruída, acabará por ser comprada pela cidade e remodelada até ter o aspeto que hoje apresenta. Alberga o Museu da Cidade de Bruxelas.

(A Maison du Roi vista da Maison de Ville)

A toda a volta da praça, as Casas das Corporações, dos padeiros aos tecelões, dos barqueiros aos cervejeiros, rivalizam em beleza e riqueza ornamental. Cada uma merece um olhar atento, mas é o conjunto que atrai a atenção. No seu conjunto, elas formam mais do que uma praça; estas casas mostram o poder dos ofícios no governo da cidade, o apreço pelo trabalho e pela criação de riqueza que o trabalho possibilita, pelo esforço dos indivíduos posto ao serviço de uma causa comum. Talvez isso explique algumas coisas...
Aconselho a qualquer pessoa a entrada num dos bares que rodeiam a praça. Pode ser "Le Roi d' Espagne". Sentada à janela, mesmo que chova ou faça frio, a olhar para o espaço que me cerca, não duvido: se não é a praça mais bela, anda lá perto!

(Tarde de chuva na Grand' Place)

Ainda a propósito de cervejeiros, apanhei um fim-de-semana em que decorria na Grand' Place um festival de cerveja belga. Como se sabe, a Bélgica é uma grande produtora (e consumidora...) de cerveja, e são dezenas as marcas e tipos de cerveja diferentes que se podem encontrar. Centenas de pessoas, principalmente jovens, afadigavam-se para experimentar as ditas cervejas e acabavam por se aliviar ali mesmo, a uma qualquer esquina! Pareceu-me uma grande falta de respeito por um espaço tão bonito e tão cheio de pergaminhos! Ou talvez seja apenas a influência do ícone da cidade, o irreverente Manneken Pis! Mas isso já é outra história!

(Textos e Fotografias de Teresa Diniz)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

À descoberta da Sicília I - Chegar a Palermo

(Cúpula em majólica da Igreja de Santa Maria delle Carmine)

Um aeroporto, como qualquer outro. Depois, um autocarro, desses que em todas as cidades levam os turistas até ao centro da cidade. Após 45 minutos de viagem, chegamos à Estação Central dos comboios. Descemos, parece que o nosso Hotel é ali perto. Vou cheia de expectativas barrocas, o Hotel recuperou um velho palazzo do século XVIII, em pleno centro histórico.
Mas Palermo é um sítio estranho. À primeira vista, é uma cidade de cores mediterrânicas, ocres, brancos manchados pelo uso e pelo sol, amarelos desbotados. As janelas têm portadas de tabuinhas e as varandas estreitas são suportadas por ferros exteriores, como prateleiras.


(As vielas do centro de Palermo)

A multietnicidade é evidente: negros, indianos, até italianos! A sujidade e o desarranjo dos espaços públicos choca-nos e faz-nos entrar em desacordo: pode comparar-se com Lisboa? A caminho do Hotel, arrastamos as malas por ruelas estreitas, de prédios decrépitos, roupa nas janelas, depósitos de água nas varandas, antenas parabólicas. Há miúdos a jogar futebol com uma cebola crua e grupos de negros a tocas congas, tambores e garrafas. De repente, parece que estamos em África. Mas ali, ao virar da esquina, há uma igreja barroca e uma biblioteca construída com uma fachada de templo clássico.


(Música junto à Piazza Ballaró)

Depois de largarmos as malas no Hotel, que parece um oásis no meio da confusão, saímos a pé, para sentirmos o ambiente de Palermo. Há vielas estreitas, com mulheres a conversar à varanda. Há lojas de marca. Há um trânsito desordenado, muitos carros com marcas de batidelas e revoadas de motas que consideram que as regras de trânsito não se lhes aplicam! Passam sinais vermelhos, não respeitam as passadeiras, transitam sem capacete, em contra-mão, por vezes a falar ao telemóvel!
Começamos a habituar-nos à cidade. Os mercados de rua são imperdíveis. O Mercato Ballaró é um mercado à moda antiga, cheio de bancas que vendem um pouco de tudo, em especial produtos alimentares, e atravancam as ruas estreitas à volta da Piazza Ballaró, que à noite se enche de jovens em bares improvisados. Mas, durante o dia, são os legumes e as frutas que lhe dão cor, intervalados com as bancas da carne ou dos caracóis. Os vendedores chamam os clientes com pregões antigos, e falam entre si no dialeto siciliano, no que nos parece um linguajar incompreensível.


(Banca de caracóis no Mercato Ballaró)

Por entre as casas pouco cuidadas, encontramos de vez em quando uma autêntica jóia, como a Igreja da Santa Maria delle Carmine, com a sua preciosa cúpula em majólica.
Mais à frente, no Mercato del Capo, compramos massas, tomates secos e outros temperos, para mais tarde recordarmos os sabores sicilianos. O jovem vendedor aconselha-nos: “Não deixem de visitar a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, ali na esquina!” Também é a padroeira de Portugal e, embora o exterior não prometa, entramos e olhamos extasiados o esplendor dos mármores barrocos.


(Interior da Igreja da Madonna della Concezione)

Assim é Palermo, um contraste constante de épocas e influências, de estilos e maneiras de viver. Mas sempre vivo, genuíno e original.


(Fotos de Teresa Diniz)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

À descoberta da Sicília II - A Ópera das Marionetas


Como todos os locais onde se cruzam culturas diferentes, encontramos na Sícilia vestígios culturais muito interessantes e originais, que trazem para o presente influências de tempos antigos, às vezes já tão adulterados que custam a reconhecer. E assim se tornam um património diferenciado e original. É o caso da Opera dei Pupi, ou, traduzindo, a Ópera das Marionetas.


Todos nos lembramos das marionetas, ou Robertos, do tempo da nossa infância. Mal ouvíamos o anúncio, corríamos pela praia ou pelo jardim fora, para, sentados no chão, em semicírculo à volta da barraquinha, nos deliciarmos e rirmos a bandeiras despregadas com as aventuras dos bonecos. Havia sempre um casal que se zangava, um ladrão, e um polícia que acabava a bater em toda a gente…
Experimentamos o mesmo encantamento quase infantil em Palermo, na célebre Opera dei Pupi. Não estamos num jardim, mas dentro de casas preparadas especialmente para o espetáculo. Há bancadas corridas, de madeira, onde os espectadores se sentam. Somos recebidos pelos donos, que também são os construtores e manipuladores dos bonecos. Percebo que eles gostam de falar da sua arte. Há cartazes mostrando as fases de construção de um boneco, e os donos respondem, satisfeitos, a todas as nossas dúvidas e curiosidades. Hoje, é uma arte familiar: são três ou quatro famílias que repartem entre si o “know how” e a produção dos espectáculos. Aqui, temos os avós, os filhos, um neto…


O espectáculo começa e prende-nos durante uma hora. A história vem de tempos quase imemoriais, da época em que Carlos Magno combatia os sarracenos no norte do Mediterrânio. Percebe-se que é uma adaptação popular do “Orlando Furioso”, a obra de Ariosto, depois popularizada em algumas óperas. Os bonecos são fantásticos, de grandes dimensões, vestidos a rigor, com cores vivas. Lá aparece Carlos Magno, os cavaleiros Orlando e Ruggiero, a bela Angélica, os guerreiros sarracenos. Tal como com os Robertos da nossa infância, damos por nós a rir com os beijos repenicados de Angélica, ou com o dragão que bate os dentes de medo.


Batemos palmas, bebemos um cálice de Marsala com os donos do teatrinho. E percebemos porque é que a Opera dei Pupi foi classificada pela Unesco como “Obra-prima do Património Oral e Imaterial da Humanidade”. Quando saímos, o encantamento é o mesmo da nossa infância.


(Fotografias de Teresa Diniz)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Caravansary

A Rota da Seda! Um apelo irreprimível a todos os nossos sentidos, a atracção pelo exótico, pelo distante, pelo diferente!
Também é um pretexto para mais uma música que nos leva de viagem. Desta vez, o músico é Kitaro, compositor e multi-instrumentista japonês. que venceu um Grammy em 2001 na categoria New Age. A partir de 1980, produziu várias bandas sonoras para "Silk Road" um série documental japonesa. Dessas músicas, escolhi para partilhar "Caravansary", não só pela beleza da melodia, como também pelas imagens que compõem este pequeno video e que são como pequenos flashes, instantâneos, das diversas cidades e culturas que se sucedem nessa velha Rota da Seda, que mantém todo o seu encanto.


domingo, 2 de janeiro de 2011

Uma Pizza turca na Rota da Seda

Na Idade Média, as comunicações eram difíceis, todos sabemos. Mas a apetência pelos produtos orientais, em especial as sedas, levava os comerciantes a enfrentarem longas viagens, desde a China até à costa do Mar Mediterrâneo, passando pela India, o Paquistão, o Irão e a Turquia – era a Rota da Seda.
Esta longa rota estava bem organizada, com paragens regulares para descanso dos comerciantes e dos seus animais, os caravansarais.


Em Aksaray, pode-se ainda visitar a maior destas estalagens em toda a Ásia Menor, o Sultanhani Kervansaray. Construída em 1229, pelos Turcos Seldjúcidas, é quase uma fortaleza, dividida por espaços com funcionalidades diferentes. Havia uma pequena mesquita, várias câmaras para a pernoita dos viajantes, um largo espaço coberto suportado por colunas e arcos de volta quebrada onde se podiam fazer as trocas de mercadorias e informações. No centro do largo terreiro, o espaço de encontro. Quase consigo ver e ouvir os mercadores daqueles tempos, recostados nos tapetes e almofadas, a saborearem o seu chá enquanto partilhavam as aventuras das suas perigosas jornadas.


Ao fundo do terreiro, o melhor espaço é dedicado aos animais. O enorme compartimento faz lembrar uma catedral gótica, com as cinco naves separadas por arcos em ogiva, e uma pequena cúpula no centro. E parece que foram os mestres que acompanhavam os cruzados cristãos, que levaram para a Europa as novas técnicas construtivas que aqui encontraram.


A uns quarenta quilómetros desta estalagem, quase escondido no meio da zona industrial da cidade turca de Konya, um antigo estábulo da mesma Rota da Seda foi transformado num belíssimo restaurante. O espaço é amplo, decorado com ricos tapetes com os motivos tradicionais. 



O velho espírito da globalização que presidia à Rota da Seda, no entanto, continua presente: comemos pizza turca! Valha-nos o saboroso Kebab que nos apresentaram a seguir, servido num grande e pitoresco prato de ferro! E o delicioso chá turco, para terminar em beleza a refeição!


(Fotografias de FAires)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Dormir num palácio


No ano passado completei meio século de existência. E uma das prendas que recebi foi um fim-de-semana no Palace Hotel do Bussaco. Nunca lá tinha estado e foi, realmente, uma experiência extraordinária. O Palácio que hoje funciona como hotel foi construído em 1885 para os reis de Portugal; o rei D. Carlos gostava de o usar como pavilhão de caça. É de uma beleza e harmonia únicas. Construído no mais exuberante estilo neo-gótico, mais exactamente neo-manuelino, multiplica rendilhados, pináculos, gárgulas. Se o exterior é deslumbrante, o interior não o é menos. Aos emblemas reais, às cordas, aos motivos florais, esculpidos em todos os salões e corredores, juntam-se quadros, frescos e painéis de azulejos que evocam Camões e os Lusíadas, mas também outros episódios dos Descobrimentos. Por exemplo, a grande escadaria central está ladeada por dois grandes painéis de azulejos que representam a conquista de Ceuta e a reconquista de Goa. Mas surgem também, logo no salão da entrada, as guerras peninsulares e as lutas liberais. Para quem gosta de História, como eu, há um pormenor interessante em cada canto. À volta do hotel, estendem-se jardins onde é agradável passear, tanto de dia como ao entardecer.


A casa de jantar é dos aposentos mais majestosos. Ricamente decorada, tem uma varanda coberta, onde comemos. A noite estava amena e o ambiente era de uma grande serenidade. Só se ouviam algumas cigarras, de quando em vez um pássaro nocturno. Tudo me soube bem, desde o creme de bróculos com queijo fresco até às sardinhas marinadas com molho de framboesas e ao robalo corado com mexilhões e camarões. A acompanhar, vinho branco, Bussaco de 2003.


Sinceramente, acho que uma estadia neste hotel é uma experiência única, que vale a pena e eu aconselho.
Dormi num palácio, senti-me uma rainha! Que bom é fazer cinquenta anos!

(Fotografias de Teresa e Fernando Ferreira)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

El Rocio

(Santuário da Virgen del Rocio)

A primeira impressão diz-nos que estamos no Far-West, talvez num cenário de um filme de índios e cowboys. Outra hipótese é alguma estância na América do Sul, onde dominam os gaúchos e condutores de gado.
Mas não é assim, estamos em plena Andaluzia espanhola, na pequena localidade de El Rocio. É fácil de encontrar. Situa-se no extremo norte da Reserva Natural de Doñana, perto da estância balnear de Matalascañas. Mas é um mundo diferente.

(Altar do Santuário, onde se pode ver a Virgen del Rocio)

Toda a vida da aldeia se organiza em torno do Santuário da Virgen del Rocio. Para a igreja, de exterior imaculadamente branco e interior brilhante de talha dourada, converge anualmente uma das maiores peregrinações de Espanha. A Romaria de El Rocio, como é conhecida, celebra-se no fim de semana do Domingo de Pentecostes. Aqui confluem as culturas cigana, andaluza e equestre, é o reino dos flamencos e das sevillanas. E tanto os homens como as mulheres se vestem a rigor para participar na peregrinação. Há vários caminhos, bem definidos, para chegar ao Santuário da Virgen del Rocio, e os peregrinos seguem-nos, a pé, a cavalo, ou em carros enfeitados com flores.

(Imagens da Romaria, importadas do Google)

A chegada a El Rocio marca o início da festa. Não há ruas alcatroadas, aqui só há ruas atapetadas de areia, onde os cavalos pisam confortavelmente. À frente das casas, não há zonas de estacionamento, há suportes em madeira para prender os arreios dos cavalos.

(Hermendade de Sevilha)

Nas ruas principais, alinham-se as Hermendades, casas de repouso para os peregrinos, mandadas construir pelos habitantes de muitas localidades da Andaluzia, desde cidades como Huelva ou Sevilha, até pequenas vilas, todas rivalizando na decoração e grandiosidade. As Hermendades são mais de cem, algumas já muito antigas, datando dos séculos XVI e XVII.

(Hermendades de Palos de la Frontera, reconhecível pela caravela no topo, já que é a pequena localidade de onde saiu Cristovão Colombo, e a de Puerto de Santa Maria)

Mesmo hoje em dia, El Rocio mantém a sua mística. Alguma é para consumo turístico, mas muita é ainda vivamente sentida pelas gentes que ali vivem ou ali se dirigem na peregrinação anual. E também nós nos deixamos vencer por ela quando, na grande esplanada fronteira ao Santuário, olhamos à volta e só vislumbramos os campos de Doñana, percorridos pelas suas manadas de cavalos selvagens, guardados por águias e onde os últimos linces da Península Ibérica ainda conseguem sobreviver.

(Vista sobre os campos de Doñana)

(Fotografias digitalizadas, de Teresa e Fernando,
 excepto as indicadas como sendo retiradas do Google)