domingo, 18 de janeiro de 2026

Trinidad e a memória colonial

 

Entrada no engenho de açúcar de San Isidro

A pequena cidade de Trinidad situa-se na zona sul da ilha de Cuba, entre os picos montanhosos da Sierra de Escambray e o litoral, banhado pelo mar do Caribe. Esta privilegiada situação geográfica resultou numa paisagem luxuriante e numa enorme fertilidade agrícola. Não surpreende que ali se tenha desenvolvido a cultura do café e tenham surgido numerosas plantações de açúcar. O café mais apreciado é cultivado, ainda hoje, nas encostas da montanha. Não trepámos até lá, embora tenha comprado um pacote desse café de altitude numa loja de Trinidad.

Uma loja de artesanato em Trinidad

O meu objetivo era visitar as plantações de açúcar, ou o que delas resta. Durante os séculos XVIII e XIX, desenvolveu-se aí um sistema esclavagista de plantação, que enfraqueceu depois da emancipação dos escravos e em resultado da destruição gerada pelas guerras de independência. A maior parte das plantações não modernizou o seu equipamento e, pouco a pouco, foram abandonadas.

Planta do Valle de los Ingenios



A primeira plantação que visitámos foi San Isidro de los Destiladeros, no Valle de los Ingenios (Vale dos Engenhos). Era um típico engenho de açúcar, operado por trabalho escravo, e foi recuperado em 2024 como um espaço museológico. A casa do senhor do engenho, assim como a torre da qual se avistava – e se vigiava... – toda a zona de trabalho, ainda estão em muito bom estado de conservação. A Casa Grande, como era chamada, abriga o espaço de museu e centro de interpretação do engenho. Aí vemos os objetos do quotidiano, assim como os objetos ligados à sujeição e ao castigo, como grilhões e o famigerado tronco onde eram amarrados os escravos recalcitrantes... Também mostra mapas e textos para uma melhor compreensão do fenómeno da escravidão e do tráfico. É um pequeno museu, mas bastante interessante e didático.

A casa do senhor do engenho

Instrumentos de castigo dos escravos, no espaço musealizado

No exterior, onde decorria o trabalho de tratamento da cana e de produção do açúcar, as construções estão quase totalmente em ruínas. No entanto, há placas que reconstituem os espaços e os explicam ao visitante.

Grilhões e outros objetos do quotidiano

Para perceber melhor o trabalho da produção açucareira, dirigimo-nos a Manaca Iznaga, outro engenho, com muito mais turistas e menos informação. A Casa Grande está transformada num restaurante, com música tradicional ao vivo e venda de recordações turísticas. Nada contra... mas lá atrás, nas traseiras da casa, ainda se pode ver o trapiche, o mecanismo onde era moída a cana de açúcar. A alta torre do engenho ainda está de pé e, ali perto, o grande sino que marcava o trabalho no engenho repousa agora no meio de um canteiro de flores.

O trapiche

O sino que marcava o tempo dos trabalhos

Em qualquer destas antigas plantações se encontram mulheres que bordam panos e toalhas nos belos motivos típicos da ilha. Elas vendem os seus bordados e outras pequenas peças de artesanato. Comprei algumas coisas, pois claro. Elas mostram os seus trabalhos, mas não assediam os turistas como noutros locais (por exemplo o Egito, onde eu até tinha medo de olhar para uma banca de artesanato...).

Panos bordados...

Os senhores destes engenhos e as suas famílias não viviam nas casas das plantações durante o ano inteiro. Tinham belas casas na cidade de Trinidad.

Pátio da Casa Brunet, em Trinidad

Trinidad foi das primeiras localidades a ser fundada em Cuba pelos colonizadores espanhóis, no ano de 1514, e mantém muitos traços dessa presença colonizadora espanhola. Todo o centro histórico é cruzado por pequenas ruas empedradas à maneira espanhola, que remonta às vias romanas. As casas térreas têm janelas altas, protegidas por grades. É verdade, faz lembrar os pequenos povoados da Andaluzia. As paredes são grossas e, nos pontos em que a tinta já desbotou e caiu, vê-se uma argamassa escura. Dizem-me que é terra e argila misturadas com sangue de animais, para ficar mais resistente. Será? Garantem-me que sim...

As ruas típicas de Trinidad


O centro da cidade velha é enquadrado pela igreja, pois claro, e por uma belíssima praça pontuada por vasos de cerâmica e bancos cobertos de azulejos de cores vibrantes. E palmeiras, sempre; a palma real é o símbolo de Cuba e está presente em todo o lado, até na bandeira.

A Plaza Mayor de Trinidad

Há poucos veículos motorizados, mas muitas carroças e camponeses a cavalo. Fico com a ideia de que poderiam isolar aquele centro histórico e filmar aí uma novela de época. Não pecisariam de mudar quase nada, parece uma cápsula do tempo que nos leva diretamente ao século XIX.

Guajiro (camponês)

Este sentimento perdura quando entramos no chamado “Museu Romântico”, uma casa senhorial, pertença da família Brunet, hoje transformada num museu de época. Quando entramos, a mesa está posta, parece pronta para nos receber. Deambulamos pelos quartos e salas, imaginando a vida de quem ali vivia: salas de costura e gabinetes de negócios, quartos de dormir e salão de receber... A grande cozinha... E uma vista magnífica de cada janela, de cada balcão...

A sala de jantar da família Brunet

O quarto de dormir...

A cozinha...

Das janelas avista-se a cidade e os campos ao redor...

Uma visita a Trinidad não pode terminar sem provar a Canchánchara, uma bebida tradicional que parece ter sido inventada por ali, para aquecer as noites dos combatentes pela independência de Cuba, ainda no século XIX. Não apurei a receita, mas deixo os ingredientes...



quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

A elegância francesa em Cienfuegos

 

Cienfuegos, a Pérola do Sul

Mal saímos de Havana e nos começamos a internar pelo interior de Cuba, o panorama muda. Com chuva e temperaturas elevadas durante todo o ano, a vegetação cresce e cobre os campos como um manto espesso em todas as direções que o nosso olhar abarca. Calculo que aqui tudo cresce e se multiplica... Habituada aos verões quentes, secos e inclementes do sul da Europa, aprecio extasiada o verde luxuriante. Os urubus voam em círculos, à procura de algum animal morto, ou pousam nos postes da estrada, por vezes de asas abertas para secar as penas.

Um urubu na estrada

As estradas, em geral, são más, cheias de buracos e sem marcação de qualquer espécie, por isso avançamos com cuidado. No entanto, o trânsito é pouco. À medida que nos afastamos das cidades principais, os automóveis começam a ser substituídos por carroças puxadas por cavalos. Vêem-se alguns bicitáxis e muitos camponeses ainda se deslocam a cavalo, com um grande facalhão para os trabalhos do campo preso nos arreios.

O transporte diário...

As pequenas localidades são todas parecidas. Pequenas casas quadrangulares, com uma grade na parte da frente. Uma escola, identificável pelas palavras de ordem revolucionárias. Um posto médico ou dispensário, identificado com um número. Pequenas bancas de mercado, geralmente animadas. Na beira das estradas, também aparecem produtos que os camponeses trazem para uma venda informal, em bancas improvisadas nos muretes da estrada. Vendem as frutas e os legumes da época, um ou outro pote de mel.

Pontos de venda na estrada


A primeira cidade que visitamos, depois de Havana, é Cienfuegos. Foi fundada por colonos franceses na costa sul da ilha, aninhada numa vasta baía, e ainda mantém uma certa elegância. Percebo porque lhe chamaram “Pérola do Sul”. Cienfuegos vivia do comércio e a baía acolhia um porto importante, por onde se escoava a produção de açúcar e de café.

Amanhecer na baía de Cienfuegos

O centro da cidade é o Parque José Martí, o herói da independência de Cuba, com lugar marcado em todas as localidades onde estivemos. No centro da praça há uma estátua do herói cubano mas quem domina o espaço são os rapazes que jogam à bola, descalços mas com um entusiasmo imenso... Reparo que um deles enverga uma camisola da seleção portuguesa de futebol com o número 7. Cristiano Ronaldo, um herói global.

O topo norte da praça

José Martí, o herói de Cuba

Futebol na praça

A praça é bonita e equilibrada. Num topo, a catedral, no outro um pequeno arco de triunfo. A um dos lados, o edifício do Partido Comunista, como sempre o mais bem conservado. Do outro lado, o belo Teatro Tomás Terry, remanescente de épocas mais prósperas. Ao lado do Teatro, o café do Ariel salvou-me, nesse dia: não havia eletricidade em toda a cidade, como aliás é comum, mas ali havia um gerador e conseguimos tomar um café!

O Teatro Tomas Terry...

... e o pequeno Arco do Triunfo, ao fundo da praça

A rua principal é o Paseo del Prado, uma longa rua rodeada de casas com arcadas de inspiração neoclássica, claramente uma inspiração francesa, mas que resulta muito elegante! No meio do Paseo, a estátua de Benny Moré, o criador do mambo, dá o toque final da elegância cubana!

O Paseo del Prado






Benny Moré

A baía de Cienfuegos é uma vasta concha que se abre para o mar. Ao longo da baía, até à chamada Punta Gorda, sucedem-se belas casas e palacetes, construídos por famílias de posses no século XIX e princípios do século XX. Quase todos esses edifícios estão ocupados pelo Estado cubano. Ao fundo da baía, o palacete mais bonito é o Palacio del Valle. Pode-se visitar e é exuberantemente luxuoso! Hoje, funciona como um restaurante de luxo, apenas para turistas!

A Punta Gorda

Entrada do Palacio del Valle

Uma das salas de restaurante do Palacio del Valle

O antigo Clube Náutico continua com a mesma função. Aí almoçámos, nem bem nem mal, porém, a máquina de café estava avariada (ou assim me disseram...) e ninguém teve vontade de pensar numa alternativa. A marina tinha uma característica estranha, mas que não identifiquei imediatamente: os barcos eram todos idênticos e todos de propriedade estatal. Apenas para uso turístico!

O Clube Náutico

A bela baía de Cienfuegos

O passeio de barco pela baía continua a ser muito bonito. No entanto, este sentimento de que estamos numa espécie de cenário para utilização turística, usufruindo de coisas que estão interditas aos próprios cubanos, deixou-me com um gosto amargo na boca.

O Palacio del Valle visto da baía



sábado, 22 de novembro de 2025

“Maltratada e alegre, ruidosa e dolorida”, assim é Havana

 


Estas palavras não são minhas, são de Leonardo Padura, um escritor cubano que eu sigo e leio há muitos anos e que me familiarizou com os ambientes habaneros. Mesmo assim, as leituras raramente nos preparam para a realidade.

José Martí, o herói da independência cubana, na Plaza 13 de marzo

Chegámos a Havana, ao aeroporto internacional José Martí, ao início da noite. Fomos imediatamente transportados para o passado numa cápsula do tempo. Tudo em Cuba parece ter parado nos anos 50.

O antigo palácio do governo foi transformado no Museu da Revolução
(agora em obras)

Seguimos para o centro da cidade num pequeno autocarro. À luz incerta da fraca iluminação pública, comecei a ver ruas esburacadas, pequenos prédios decrépitos e montes de lixo acumulado nas ruas. Pensei que estavamos a entrar em alguma favela. Mas não. Depois percebi que estavamos a entrar no bairro de Centro Habana. Aqui não há favelas, a pobreza está instalada no centro da cidade.

Um velho convento transformado em habitação comunal

O nosso hotel, o Hotel Inglaterra, localizado no Passeo del Prado, é um dos mais antigos e emblemáticos de Havana e os espaços foram meticulosamente restaurados, o que não obsta a que os quartos mostrem a falta de alguns confortos modernos a que já estamos habituados. Fica no epicentro da animação da capital cubana, junto ao Capitólio e ao Teatro Nacional de Havana (antigo Centro Cultural Galego). 

O Paseo del Prado

O Capitólio de Havana

Centro Cultural Galego, hoje sede do Teatro Nacional

Ao lado do Teatro Nacional, uma escultura homenageia a Dança

Nas suas esplanadas há sempre música e o dia da nossa chegada não foi exceção. Aí fomos recuperar da longa viagem e tomar os primeiros mojitos. O vocalista da pequena banda cantava antigos boleros com muita alma e uma voz suficientemente potente para ultrapassar os sucessivos apagões elétricos que pontuaram a noite.

O interior do velho Hotel Inglaterra

Cuba foi colonizada no século XVI por espanhóis e franceses. O cultivo da cana de açúcar, do tabaco e do café garantiu aos colonos uma grande prosperidade, baseada no trabalho escravo. Depois da independência, a proximidade americana trouxe outro tipo de prosperidade, baseada no lazer, na corrupção dos gangsters, nos casinos. É a época de ouro da cultura cubana, os anos 50, que eles replicam sempre, principalmente na música. As rumbas e mambos inundam as ruas, transbordando das esplanadas e bares. Compay Segundo e Benny Moré são as grandes referências. O grande espetáculo musical de Los Legendarios del Guajirito é uma homenagem ao Buena Vista Social Clube e ao esplendor dos anos 50.

Homenagem ao Buena Vista Social Club

Castillo de la Real Fuerza, uma das primeiras fortalezas

A cidade de Havana foi logo de início rodeada por fortalezas, destinadas a protegerem a cidade de corsários e piratas. Do alto da fortaleza dos Três Reis do Morro, avista-se a cidade no seu esplendor, a Pérola do Caribe, como era chamada. 

La Habana, vista do Castillo de los Tres Reyes del Morro

Junto à Fortaleza, o Cristo de Havana continua a abençoar a cidade

A grande avenida marginal com o seu paredão, o Malecón, delimita a cidade face ao mar. Ao longo do Malécon, os belos edifícios, hotéis e palacetes, falam de uma prosperidade já passada, mas a beleza continua lá.

A marginal do Malecón

Velhos edifícios ao longo do Malecón

O Castillo de los tres Reyes del Morro visto do Malecón

A Primavera numa esquina do Malecón

O centro histórico da cidade, Habana Vieja como é chamada, foi declarado Património da Humanidade em 1982. A UNESCO financiou e ajudou a restaurar esse conjunto de praças e fortalezas que formou o núcleo da cidade colonial, junto à baía de Havana. Inclui quatro belas praças, a praça da Catedral, a Plaza de Armas, a Plaza de San Francisco de Asís e a Plaza Vieja. Hoje, essa zona da cidade mostra igrejas, antigas casas coloniais, hotéis de charme e galerias de arte. É uma zona elegante e belíssima, que convive bem com a atmosfera ruidosa dos vendedores de rua. Em todo o lado há gente a tentar vender qualquer coisa, desde fritos a fruta fresca ou a medicamentos que têm de ser comprados no mercado negro, porque as farmácias estão vazias.

A velha catedral de Havana

A praça da Catedral, com o Museu de Arte Colonial

Praça de São Francisco de Assis

Entrada de um dos edifícios da Plaza de Armas

Rodeada de restaurantes, a Plaza Vieja

Outra perspetiva da Plaza Vieja

A cidade velha é também das zonas mais populosas. Os velhos edifícios, com um alto pé direito para fazer circular o ar, foram divididos e subdivididos em pequenos cubículos, e foram criados andares intermédios, em madeira, de modo a acomodar mais gente. Continuam a ser chamados de solares e aí, nos pátios centrais, juntavam-se desde o início do século XX os seus habitantes, ocupando os seus domingos a tocar e a cantar. Parece que aqui, nos pátios dos solares, germinaram muitos dos ritmos que marcam a música cubana.


O interior de um solar

Nas ruas desta Habana Vieja, esburacadas e pejadas de gente, encontram-se muitos bares, alguns celebrizados por pessoas como Ernest Heminway, que viveu em Havana durante vários anos; é o caso da Bodeguita del Medio, ou do Bar La Floridita... Também se encontram os chamados paladares que são restaurantes informais, muitas vezes geridos de forma familiar. Há outros restaurantes, certificados pelo turismo cubano e evidentemente mais caros...


O célebre bar La Floridita

Abundam as lojas. Há-as de três tipos. Existem as lojas formais, oficiais, com preços subsidiados e às quais se acede com uma caderneta de racionamento. Vimos várias, invariavelmente de prateleiras vazias. Depois, existem as lojas informais, onde os pequenos produtores vêm vender os seus produtos, ou que vendem águas e refrigerantes, ou outros produtos de pequeno valor. Por fim, existem as lojas oficiais, bem recheadas de produtos, tanto de mercearia como de higiene, mas onde só se pode comprar com dólares ou euros, o que obriga os cubanos a uma verdadeira ginástica financeira para aí poderem aceder.

Loja do estado... de prateleiras vazias

Pequeno mercado informal em Habana Vieja

Embaixada de Espanha: à porta, longas filas de pessoas tentam diariamente obter um
visto ou uma declaração de nacionalidade 

Confuso? Não para os habaneros, que aprenderam a gerir todas estas camadas. São resilientes , compram, vendem, trabalham em tudo o que aparece, fazem biscates, desenrascam-se! A prioridade é ir sobrevivendo e, se sobrar para uns mojitos, melhor! Ouvir uns boleros, dançar umas rumbas! E sorrir, sempre! Talvez a alma cubana também devesse ser património da humanidade...

Rumbas na esplanada do bar La Francesa