sábado, 29 de agosto de 2026

Os mosteiros da Arménia

 

Entrada na fortaleza de Akhtala

A Arménia foi o primeiro país a adotar o Cristianismo como religião oficial, no ano de 302. Este pioneirismo constitui uma espécie de estandarte, um orgulho nacional, que não foi abafado nem mesmo com o extenso domínio da União Soviética. Aí se encontram alguns dos mais antigos mosteiros cristãos, muitos ainda em funcionamento ou que renovaram as suas atividades depois da independência.

O Mosteiro de Haghpat

Estando nós na Geórgia, era imperdível um salto ao norte da Arménia, onde se localizam alguns dos mosteiros mais antigos e emblemáticos. Saímos de Tbilisi em direção ao sul e não demorámos muito a chegar à fronteira. Os procedimentos de fronteira foram simples, especialmente para quem possui um passaporte português, da União Europeia. Os viajantes do Azerbaijão, considerado um país hostil, eram os que tinham de se submeter a um interrogatório mais cerrado, mas não dei porque houvesse problemas fronteiriços.

Igreja de Akhtala

Trocámos na fronteira alguns laris georgianos pelos desvalorizados drams arménios. Não pensávamos fazer compras, mas o dinheiro local era necessário nem que fosse apenas para pagar o almoço. E assim foi. Almoçámos numa casa particular, onde a mãe de família arredonda os seus proventos mostrando aos turistas o que é a culinária arménia. E gostámos muito! Essa casa situava-se numa aldeia próxima do mosteiro de Haghpat. Como todos os locais por onde passámos, a aldeia tinha um aspeto um tanto deprimido, parado no tempo. Junto à casa onde almoçámos, uma pequena fonte ostentava um memorial aos soldados dali naturais mortos na Segunda Guerra Mundial, ao serviço do Exército Vermelho. A estrela vermelha não enganava e mostrava-nos claramente que a Arménia se incluía no grande império soviético.

Memorial aos mortos na Grande Guerra Patriótica ao serviço
do Exército Vermelho

O primeiro mosteiro onde parámos foi Akhtala. Empoleirado num penhasco com vista para a cidade de Akhtala, o mosteiro do século X, também conhecido como Pghindzavank, ergue-se como uma impressionante fortaleza, cercada pelo profundo canyon do rio Debed. O complexo monástico e a fortaleza foram construídos durante o governo da dinastia Kiurikian e desempenharam um papel importante na proteção das regiões do noroeste da Arménia.

A alameda de entrada do Mosteiro de Akhtala

O complexo do Mosteiro de Akhtala inclui a igreja principal, dedicada a Surp Astvatsatsin (Santa Mãe de Deus), um pórtico com uma capela-sepulcro, paredes da fortaleza, uma torre e portão do século XIII, celas de monges, uma casa de banho e vestígios de outras estruturas.

Igreja do mosteiro de Akhtala

Passámos o portão da fortaleza e caminhámos por uma pequena alameda em direção ao mosteiro. Por todo o espaço havia lápides votivas, muito usuais nas igrejas arménias.  São os Khachkars, pedras esculpidas com detalhes distintos, geométricos, florais ou com motivos religiosos. Vimos muitas, aqui e noutros espaços sagrados. Hoje são reconhecidas pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade.

Dois exemplos de Khachkars



Do lado esquerdo, dois anéis unidos simbolizavam a amizade entre a Geórgia e a Arménia. Disseram-nos que dava sorte passar por dentro dos aros e, na dúvida, lá fui eu... De caminho, tirei uma fotografia do mosteiro que depois percebi ser a imagem icónica, que aparece em todos os cartazes turísticos. Um momento de sorte...


À entrada da igreja, o chão está coberto de lajes funerárias. Hesitei em pisá-las, por respeito. Mas o guia do mosteiro clarificou que, pelo contrário, se deviam pisar, para receber as energias positivas dos antepassados ali enterrados. Diferentes igrejas, diferentes perceções... Encostada a uma parede, uma enorme iconóstase em madeira testemunhava o regresso do velho mosteiro do rito ortodoxo russo para o rito da igreja ortodoxa arménia, depois da independência. Nas igrejas arménias, não se faz essa divisão entre o altar mor e o corpo principal da igreja.

Altar mor da igreja de Sanahin

Mas o verdadeiro encantamento espera por nós no interior. As paredes internas, o rebordo das janelas, o contorno das portas, estão cobertos de frescos maravilhosos, com traços delicados e cores intensas. Os santos observam-nos das paredes, com o mesmo ar sereno de há mil anos atrás, quando foram pintados. E não consigo não me emocionar...

Os frescos de Akhtala

Seguimos depois para o mosteiro de Haghpat. É o maior dos mosteiros que visitámos, no noroeste da Arménia. Fundado no século X, foi um grande centro de aprendizagem e arquitetura. É composto por vários edifícios, que foram crescendo e, por vezes, sobrepondo-se uns aos outros. A igreja principal, Surp Nishan (igreja de Santa Cruz) é imponente, com uma cúpula central sustentada por quatro pilares. Tem um ambiente contemplativo e intimista, graças às pequenas janelas e rodeiam a cúpula e às centenas de velas que tremeluzem junto do altar.

O hall de entrada em Haghpat

A cúpula de Surp Nishan

No interior da igreja

Gostei particularmente da velha biblioteca. Debaixo da cúpula, as paredes abriam-se em nichos que eu imaginei repletos de pergaminhos. Quase consegui ouvir os sussurros dos monges que os consultavam... Ou talvez estivessem a tratar das enormes vasilhas de vinho que se aninhavam nos buracos abertos no chão... Um espaço multifunções, afinal!

A biblioteca de Haghpat

No dia da nossa visita, festejava-se o final do ano letivo e o espaço estava cheio de crianças e adolescentes das escolas da vizinhança. Vestidos a rigor, tiravam fotografias com os pais e os professores, mas também corriam e brincavam porque eram crianças. Gostei de ver como um espaço tão antigo estava apropriado pela modernidade e pela vida quotidiana daquelas populações.

Festa do encerramento do ano letivo em Haghpat

Após o almoço, ainda parámos no mosteiro de Sanahin. O nome significa “este é mais antigo”, em referência à sua fundação anterior à do seu mosteiro-irmão de Haghpat, ambos construídos por uma parceria de pai e filho. Chovia copiosamente e o interior da igreja estava escuro e húmido. Tinhamos de caminhar cuidadosamente por cima de pedaços de tábuas para não acabar o dia com um banho de lama. Apesar de ser Património Mundial da UNESCO, tal como os mosteiros anteriores, fiquei com a ideia de que aqui as obras de recuperação ainda estão muito atrasadas.

Interior do mosteiro de Sanahin

Pedras tumulares

Além do apoio da UNESCO, descobrimos que estes mosteiros e a sua área envolvente têm um apoio inesperado: a nossa Fundação Gulbenkian financia várias vertentes da preservação do seu património cultural. Calouste Gulbenkian não esqueceu a sua Arménia natal no seu testamento.

Regressamos à Geórgia pelo vale do rio Debed. Passamos por uma cidade mineira, quase abandonada. O rio desce das montanhas apressado e bravio, saltando e fazendo redemoinhos no seu leito de pedras de tal forma que, por vezes, parece correr para trás. Não posso deixar de o comparar com o percurso do próprio país que, por vezes, parece ter dificuldade em seguir um rumo certo em direção ao futuro.

domingo, 16 de agosto de 2026

Grandezas e misérias de Plasencia

Antigo Convento de São Vicente Ferrer, atual Parador de Plasencia

Plasencia é uma cidade antiga, fundada pelo rei Afonso VIII de Castela no ano de 1186, num local de passagem da antiga Rota da Prata romana. O objetivo do rei era fazer frente aos muçulmanos, a sul, e limitar o território do rei de Leão, a oeste. 

Estátua do Rei Afonso VIII, o fundador de Plasencia

É uma cidade pequena e tranquila, um pouco ofuscada pelas suas vizinhas Cáceres e Salamanca. 

A Fonte do Cabildo

Ruas tranquilas...

O chamado “casco antigo” aninha-se dentro de um anel de muralhas do século XII, de vez em quando interrompido por torres circulares. Várias portas e postigos fazem a passagem para o exterior das muralhas, onde hoje se desenvolve uma cidade mderna. Dessas portas,a mais bonita é sem dúvida a Porta de Trujillo, tanto pelo lado interior como pelo lado exterior. 

As muralhas de Plasencia

O lado interior da Porta de Trujillo

O lado exterior da Porta de Trujillo com um troço das muralhas

Dentro das muralhas, as pequenas ruas permanecem quase desertas durante as horas de calor inclemente. Mas à noite e durante a manhã, as pessoas circulam, trabalham, fazem compras, enchem as esplanadas. A Plaza Mayor é o centro da vida cultural e administrativa, tal como em todas as cidades espanholas. Aí se situa a Câmara Municipal, num bonito edifício do século XV. Na sua esquina, ergue-se uma torre no topo da qual se vê uma figura bem agarrada, que parece ter acabado de a escalar. É o Avô Mayorga, que toca o sino da torre todas as meias horas... 

Consegue ver-se o Avô Mayorga na torre da Câmara Municipal?

O conjunto arquitetónico e artístico mais relevante de Plasencia é a sua catedral. Ou, melhor dizendo, as suas catedrais... A catedral românica de Santa Maria liga-se à catedral gótica dedicada à Assunção aos Céus de Nossa Senhora. Pode dizer-se que as duas se completam, mas é uma ligação atabalhoada, quase poderia dizer atamancada... Valha-nos o extraordinário trabalho de escultura e entalhe do cadeiral do Coro da nova catedral, infelizmente impossível de fotografar. 

Uma das portas da Catedral

Claustro

A junção, nunca terminada, entre as duas catedrais...

Toda a zona antiga, dentro das muralhas, é pontuada por casas apalaçadas das grandes famílias nobres que dominaram a região, como os Monroy ou os Zuñiga. 

Um dos palácios mais bonitos do centro histórico

O Palácio dos Zuñiga

É a esta família Zuñiga que se deve a construção do Convento de São Vicente Ferrer, hoje ocupado pelo Parador de Plasencia. Estava-se no século XV, o século da unificação de Espanha, tanto no aspeto político como religioso. No final desse século, iria assistir-se à conversão forçada ou, em alternativa, à fuga dos mouriscos e à expulsão definitiva dos judeus. Por isso, ninguém se deve ter apiedado quando a sinagoga e o antigo bairro judeu foram destruídos para aí se construir o grande complexo monástico de São Vicente Ferrer. Caído em decadência depois da dissolução das ordens religiosas, o mosteiro foi comprado pelos Paradores de Espanha, foi recuperado e hoje constitui um espaço magnífico, que é possível visitar diariamente, numa visita guiada organizada pelo próprio Parador. A reconstituição e decoração são primorosas e, sempre que possível, tentaram manter as finalidades de utilização dos espaços, como é o caso do antigo Refeitório dos monges. 

Os claustros

Este espaço aloja hoje um dos bares do Parador

O antigo refeitório dos monges

Os judeus expulsos também não esquecidos. Nas ruas da antiga judiaria, pequenos retângulos de pedra relembram os nomes dos antigos moradores daquelas casas. Os judeus e os mouros constituiam uma parte importante da população e da vida económica da cidade. Eram comerciantes, artesãos, pequenos agricultores. Com a sua saída, a cidade entrou numa lenta decadência, muito visível na paragem dos trabalhos de construção da nova catedral, que continua mal unida à antiga catedral, como duas irmãs siamesas mal separadas. 

Aqui morava uma família de judeus conversos

Saindo da cidade pelo lado norte, avista-se o grande aqueduto medieval, com mais de cinquenta arcos, que abastecia de água a cidade. Alguns arcos foram destruídos durante a Guerra Civil, mas foram reconstruídos numa pedra mais clara, para que a memória não se perca. 

O Aqueduto de Plasencia

Fora de Plasencia, acompanhando o fértil vale do Jerte, seguimos até ao Monasterio de Yuste, o local escolhido pelo Imperador Carlos V para passar os últimos tempos da sua vida. Inclui o mosteiro propriamente dito e a pequena casa palaciana construída para Carlos V. 

Monasterio de Yuste

A varanda da casa palaciana de Carlos V

O imperador preparou-se para a morte. Todos os dias ouvia a missa, por vezes a partir do seu leito, estrategicamente colocado de modo a ver o altar-mor da igreja. Distraía-se com o seu hobby predileto, a relojoaria. E mandou construir uma pequena cripta para si próprio, que nunca chegou a ocupar. O seu filho Filipe II levou-o para o Escorial, onde repousa até hoje, no meio de um luxo que talvez não estivesse nos seus desejos.

Busto de Carlos V


sexta-feira, 24 de julho de 2026

Um passeio pelo Cáucaso

 

Um chá nas montanhas?

A Geórgia é um país entalado entre montanhas, Grande Cáucaso, Pequeno Cáucaso e mais umas quantas zonas montanhosas de que não apanhei o nome. Isso não parece preocupar os georgianos; àparte uma certa instabilidade atmosférica, a proximidade das montanhas dá-lhes uma sensação de segurança, como se fossem uma proteção contra ataques de inimigos. Que no entanto aconteceram, numerosas vezes!...

Uplistsikhe - há sempre rios apressados e montanhas no horizonte

O Grande Cáucaso, no norte do país, é a cadeia montanhosa mais alta da Europa, com vários picos que se elevam acima dos 5000 metros. Os mais altos situam-se na Rússia, mas as montanhas georgianas são já dignas de respeito e de uma boa visita.

Os georgianos chamam a este pequeno lago nas montanhas o "Olho do Mundo"

Assim, saímos de Tbilisi em direção a norte, em direção às montanhas e ao nosso objetivo, o Monte Kazbeck. Mas havia tanta coisa interessante para fazer pelo caminho! A estrada para norte seguia a célebre Old Military Road (Velha Estrada Militar), construída pelos russos no século XIX, para facilitar a ocupação militar e a comunicação entre as zonas centrais da Geórgia e a Rússia. Hoje, é uma bela estrada, que se faz muito bem, mas a passagem daquelas altas montanhas era um obstáculo de monta e ainda hoje há zonas onde a condução é um autêntico desafio.

Para norte, pela Old Military Road


Zhingali

Para norte de Tbilisi, os montes parecem atapetados de verde e sucedem-se suavemente. A primeira paragem é no Reservatório de Zhingali, situado no rio Aragvi,  que abastece de água a capital do país. Temos sorte com o tempo, está sol e os azuis da água misturam-se com os verdes intensos das colinas. Mas ainda temos muita estrada pela frente...


Os típicos barretes de pele vendem-se em todas as paragens

O complexo de Ananuri

Um pouco mais para norte, o mesmo reservatório de água chega aos contrafortes de Ananuri, um dos locais mais deslumbrantes da nossa viagem. Ananuri é parte de um complexo que foi sede dos Eristavis de Aragvi, uma dinastia feudal que governou a região a partir de meados do século XIII. As muralhas da fortaleza encerram uma igreja e espaços para os monges, mas tudo é tão estreito que mal se conseguem fotografar os detalhes delicados que enfeitam as paredes e servem de ensinamento aos fiéis. Mas calculo que, no século XIII, não estivessem preocupados com isso.

As muralhas de Ananuri

Detalhes...



Aqui, há muitos turistas, especialmente russos. Encontram-se até motociclistas aventureiros, a caminho do Cazaquistão, Mongólia ou outros destinos exóticos.

Dentro das muralhas de Ananuri

Seguimos caminho para Pasanauri, onde parámos para almoçar. O restaurante não era memorável, mas o rio que corria, cheio de força, mesmo ao lado, era-o com certeza. Tomámos café numa pequena roulote de beira de estrada, onde a jovem que nos serviu os cafés nos serviu também a notícia da sua gravidez recente, com uma felicidade tocante. Os georgianos ainda não estão estragados pelo excesso de turismo e são naturalmente simpáticos e hospitaleiros.

Um cafezinho nas montanhas

Começamos a entrar nas estradas de montanha, mais estreitas e sinuosas. Parámos para fazer uma degustação de mel (acompanhado de chacha, como não podia deixar de ser...), o mel clarinho das flores de acácia, o mel escuro da urze, o mel apaladado dos frutos do bosque...

O que faz este velho automóvel, dos tempos soviéticos, junto à venda de mel?

Finalmente, Gudauri! Hoje é uma uma estância de ski sem nada de relevante, mas aí perto ergue-se o Monumento à Amizade Russo-Georgiana, construído pela Rússia em 1983, quando a Geórgia era uma república soviética.  É um balcão espetacular sobre o Monte Kazbek e outros picos da cordilheira caucasiana, que ali chega a ultrapassar os 5 mil metros. O próprio monumento está a 2 400 metros de altitude.

O Monumento à Amizade Russo-Georgiana

A face interna está ocupada por um imenso mural

A nossa guia, Anna, descodificou muito bem toda a iconografia do mural que ocupa a face interna do monumento, da parte russa à parte georgiana, com a Mãe Rússia no centro. Hoje, a amizade acabou, não é mais do que uma miragem, mas as vistas das arcadas são absolutamente maravilhosas, de tirar a respiração.


Um balcão sobre o Monte Kazbek

A caminho de Kazbegi, a última etapa do nosso passeio pelo Cáucaso. O nome verdadeiro de Kazbegi (pequena localidade a poucos quilómetros da fronteira russa) é Stepantsminda, mas todos a conhecem como Kazbegi devido à proximidade do Monte Kazbek, de incrível beleza natural. A pequena vila de Kazbegi não tem nada para ver, mas os arredores são de uma beleza selvagem, magnífica. Deixamos aí a nossa carrinha e metemo-nos num veículo todo o terreno para subir até à pequena igreja da Santíssima Trindade de Gergeti, construída no século XIV. Aí, a mais de 2100 metros, podemos olhar o Monte Kazbek quase de olhos nos olhos, e a nossa sensação de insignificância torna-se mais real. O tempo começava a piorar, chuviscava e acho que não apreciei a pequena igreja como ela merecia...


A pequena igreja da Santíssima Trindade de Gergeti, no alto da montanha

As estradas nas montanhas estavam em mau estado, cheias de buracos, e necessitavam de uma perícia e uma paciência imensas. Regressámos a Tbilisi bastante moídos, mas com a alma cheia.