quarta-feira, 21 de outubro de 2026

De Kakheti à Vidigueira

 

O cenário das vinhas, perto da Vidigueira

Diz uma lenda que, quando Deus fez a reunião com os homens para a distribuição das terras, os georgianos estavam tão distraídos, entre festas e brindes, que falharam a reunião. Quando perceberam a sua falha, pediram perdão e explicaram que os brindes eram louvores a Deus. Receberam então uma terra bela e dramática que Deus tinha reservado para si próprio.

A região de Kakheti

Aqui começou a cultura da videira e do vinho, no Neolítico, pelo 6.º milénio a.C., isto é, há cerca de oito mil anos. É geralmente aceite que a Geórgia é o berço da cultura vitivinícola, com mais de 500 castas autóctones e diversos “terroirs” bem estabelecidos, em especial na região de Kakheti, a leste de Tbilisi. Com um grande apreciador de vinho cá em casa, também estava escrito nos astros que tinhamos de ir à Geórgia e, em especial, a Kakheti.

Numa rua de Sighnaghi

Assim, inscrevemo-nos num Wine Tour num dos dias em que estávamos em Tbilisi. O Tour reunia gente de várias nacionalidades, todos entusiasmados com as provas de vinhos. Houve também tempo para provar outros produtos tradicionais. Parámos em Badiauri, numa pequena produtora de Churchkhela – uma espécie de enchidos de frutos secos envolvidos em pasta de vinho. Provámos um e comprámos logo quatro, para trazer para casa... 

A loja de Churchkhelas

Depois, parámos numa padaria tradicional, para ver cozer o pão nos fornos redondos de argila. O pão era delicioso, acompanhado com queijo e a primeira prova de vinhos do dia!

O pão cozido nos fornos de argila 


Almoçámos em Signaghi, uma pequena cidade muralhada, sem nada de especialmente interessante, a não ser uma prova de três chachas diferentes... A chacha é uma aguardente aromatizada com ervas diversas, muito típica desta zona do Cáucaso.

As muralhas de Sighnaghi

Finalmente, a visita às adegas, começando pela adega com o método tradicional e prova de três vinhos de “qvevri”. Os qvevri são grandes talhas de barro enterradas no chão. As uvas são aí colocadas e fermentam a uma temperatura constante proporcionada pela própria terra. Foi-nos explicado todo o processo de produção, que ainda é seguido por muitos pequenos produtores desta região.

A produção do vinho e os instrumentos tradicionais


Os vinhos de talha são de denominação protegida e têm de estar identificados com o desenho de uma pequena ânfora para serem vendidos ao público.

Seguiu-se a visita a uma grande adega industrial. Mais provas de vinhos e aguardentes... Quando a visita terminou e nos preparámos para regressar a Tbilisi, o grupo estava transformado num bando de foliões que aparentava conhecer-se desde sempre!

Uma das adegas industriais de Kakheti

As técnicas de produção de vinho da Cólquida (antiga denominação da região onde hoje se situa a Geórgia) espalharam-se pelo Mar Negro e Mediterrâneo Oriental e os Romanos trouxeram-nas para a parte ocidental do seu império. Experimentaram-nas na Península Ibérica e desenvolveram a cultura vinícola na região do Alentejo, por exemplo. Perto da Vidigueira, as ruínas da grande villa agrícola de S. Cucufate são prova disso. No Centro Interpretativo do Vinho de Talha, em Vila de Frades, ainda podemos ver grainhas das uvas criadas em S. Cucufate, há tantos séculos atrás.

As ruínas de S. Cucufate

Na região da Vidigueira, continua a produzir-se o vinho com a sabedoria que os romanos nos legaram. As grandes talhas de barro armazenam as uvas e fermentam-nas, mantendo as uvas com o engaço até à abertura final das talhas, pelo S. Martinho. O vinho fica com um travo diferente, mais mineral. É o método tradicional, que tinha caído em desuso mas que foi sendo mantido nas pequenas adegas familiares da região.

Entrada na adega velha da Honrado Vineyards

Fomos visitar uma dessas adegas, a Honrado Vineyards, em Vila de Frades. A adega, que remonta ao século XVIII, é muito bonita, com as paredes de tijolinho e grandes lages a cobrirem o chão. As talhas, que chegam a levar mais de mil litros de vinho, alinham-se junto às paredes. Explicam-nos o processo de fabrico. É muito idêntico ao que vimos na Geórgia, com a diferença de que as talhas não são enterradas no chão. Como mantêm então uma temperatura estável? Um poço na adega levanta o véu do segredo. A água fresca corria por uma conduta abaixo do chão, diminuindo os calores inclementes do verão alentejano.

A velha adega do século XVIII


A zona de produção da aguardente de medronho

Todo o processo de produção do vinho de talha está muito bem documentado no Centro Interpretativo, em Vila de Frades. Mas também não está esquecido o contexto social e cultural da sua produção ao longo do tempo. O Centro é moderno e interativo, e vale bem uma visita.

No Centro Interpretativo do Vinho de Talha


De resto, toda a vila tem um ar ao mesmo tempo limpo e tradicional. Os restaurantes servem aqueles maravilhosos pitéus alentejanos, regados com bom vinho de talha. Sinceramente, como local turístico de divulgação desse produto ancestral, produzido com técnicas que vêm do fundo dos tempos, não fica em aspeto nenhum atrás das adegas de Kakheti. E merece um brinde, à georgiana, daqueles bem demorados.

A grande talha (o qvevri português...) é o símbolo da vila


sábado, 29 de agosto de 2026

Os mosteiros da Arménia

 

Entrada na fortaleza de Akhtala

A Arménia foi o primeiro país a adotar o Cristianismo como religião oficial, no ano de 302. Este pioneirismo constitui uma espécie de estandarte, um orgulho nacional, que não foi abafado nem mesmo com o extenso domínio da União Soviética. Aí se encontram alguns dos mais antigos mosteiros cristãos, muitos ainda em funcionamento ou que renovaram as suas atividades depois da independência.

O Mosteiro de Haghpat

Estando nós na Geórgia, era imperdível um salto ao norte da Arménia, onde se localizam alguns dos mosteiros mais antigos e emblemáticos. Saímos de Tbilisi em direção ao sul e não demorámos muito a chegar à fronteira. Os procedimentos de fronteira foram simples, especialmente para quem possui um passaporte português, da União Europeia. Os viajantes do Azerbaijão, considerado um país hostil, eram os que tinham de se submeter a um interrogatório mais cerrado, mas não dei porque houvesse problemas fronteiriços.

Igreja de Akhtala

Trocámos na fronteira alguns laris georgianos pelos desvalorizados drams arménios. Não pensávamos fazer compras, mas o dinheiro local era necessário nem que fosse apenas para pagar o almoço. E assim foi. Almoçámos numa casa particular, onde a mãe de família arredonda os seus proventos mostrando aos turistas o que é a culinária arménia. E gostámos muito! Essa casa situava-se numa aldeia próxima do mosteiro de Haghpat. Como todos os locais por onde passámos, a aldeia tinha um aspeto um tanto deprimido, parado no tempo. Junto à casa onde almoçámos, uma pequena fonte ostentava um memorial aos soldados dali naturais mortos na Segunda Guerra Mundial, ao serviço do Exército Vermelho. A estrela vermelha não enganava e mostrava-nos claramente que a Arménia se incluía no grande império soviético.

Memorial aos mortos na Grande Guerra Patriótica ao serviço
do Exército Vermelho

O primeiro mosteiro onde parámos foi Akhtala. Empoleirado num penhasco com vista para a cidade de Akhtala, o mosteiro do século X, também conhecido como Pghindzavank, ergue-se como uma impressionante fortaleza, cercada pelo profundo canyon do rio Debed. O complexo monástico e a fortaleza foram construídos durante o governo da dinastia Kiurikian e desempenharam um papel importante na proteção das regiões do noroeste da Arménia.

A alameda de entrada do Mosteiro de Akhtala

O complexo do Mosteiro de Akhtala inclui a igreja principal, dedicada a Surp Astvatsatsin (Santa Mãe de Deus), um pórtico com uma capela-sepulcro, paredes da fortaleza, uma torre e portão do século XIII, celas de monges, uma casa de banho e vestígios de outras estruturas.

Igreja do mosteiro de Akhtala

Passámos o portão da fortaleza e caminhámos por uma pequena alameda em direção ao mosteiro. Por todo o espaço havia lápides votivas, muito usuais nas igrejas arménias.  São os Khachkars, pedras esculpidas com detalhes distintos, geométricos, florais ou com motivos religiosos. Vimos muitas, aqui e noutros espaços sagrados. Hoje são reconhecidas pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade.

Dois exemplos de Khachkars



Do lado esquerdo, dois anéis unidos simbolizavam a amizade entre a Geórgia e a Arménia. Disseram-nos que dava sorte passar por dentro dos aros e, na dúvida, lá fui eu... De caminho, tirei uma fotografia do mosteiro que depois percebi ser a imagem icónica, que aparece em todos os cartazes turísticos. Um momento de sorte...


À entrada da igreja, o chão está coberto de lajes funerárias. Hesitei em pisá-las, por respeito. Mas o guia do mosteiro clarificou que, pelo contrário, se deviam pisar, para receber as energias positivas dos antepassados ali enterrados. Diferentes igrejas, diferentes perceções... Encostada a uma parede, uma enorme iconóstase em madeira testemunhava o regresso do velho mosteiro do rito ortodoxo russo para o rito da igreja ortodoxa arménia, depois da independência. Nas igrejas arménias, não se faz essa divisão entre o altar mor e o corpo principal da igreja.

Altar mor da igreja de Sanahin

Mas o verdadeiro encantamento espera por nós no interior. As paredes internas, o rebordo das janelas, o contorno das portas, estão cobertos de frescos maravilhosos, com traços delicados e cores intensas. Os santos observam-nos das paredes, com o mesmo ar sereno de há mil anos atrás, quando foram pintados. E não consigo não me emocionar...

Os frescos de Akhtala

Seguimos depois para o mosteiro de Haghpat. É o maior dos mosteiros que visitámos, no noroeste da Arménia. Fundado no século X, foi um grande centro de aprendizagem e arquitetura. É composto por vários edifícios, que foram crescendo e, por vezes, sobrepondo-se uns aos outros. A igreja principal, Surp Nishan (igreja de Santa Cruz) é imponente, com uma cúpula central sustentada por quatro pilares. Tem um ambiente contemplativo e intimista, graças às pequenas janelas e rodeiam a cúpula e às centenas de velas que tremeluzem junto do altar.

O hall de entrada em Haghpat

A cúpula de Surp Nishan

No interior da igreja

Gostei particularmente da velha biblioteca. Debaixo da cúpula, as paredes abriam-se em nichos que eu imaginei repletos de pergaminhos. Quase consegui ouvir os sussurros dos monges que os consultavam... Ou talvez estivessem a tratar das enormes vasilhas de vinho que se aninhavam nos buracos abertos no chão... Um espaço multifunções, afinal!

A biblioteca de Haghpat

No dia da nossa visita, festejava-se o final do ano letivo e o espaço estava cheio de crianças e adolescentes das escolas da vizinhança. Vestidos a rigor, tiravam fotografias com os pais e os professores, mas também corriam e brincavam porque eram crianças. Gostei de ver como um espaço tão antigo estava apropriado pela modernidade e pela vida quotidiana daquelas populações.

Festa do encerramento do ano letivo em Haghpat

Após o almoço, ainda parámos no mosteiro de Sanahin. O nome significa “este é mais antigo”, em referência à sua fundação anterior à do seu mosteiro-irmão de Haghpat, ambos construídos por uma parceria de pai e filho. Chovia copiosamente e o interior da igreja estava escuro e húmido. Tinhamos de caminhar cuidadosamente por cima de pedaços de tábuas para não acabar o dia com um banho de lama. Apesar de ser Património Mundial da UNESCO, tal como os mosteiros anteriores, fiquei com a ideia de que aqui as obras de recuperação ainda estão muito atrasadas.

Interior do mosteiro de Sanahin

Pedras tumulares

Além do apoio da UNESCO, descobrimos que estes mosteiros e a sua área envolvente têm um apoio inesperado: a nossa Fundação Gulbenkian financia várias vertentes da preservação do seu património cultural. Calouste Gulbenkian não esqueceu a sua Arménia natal no seu testamento.

Regressamos à Geórgia pelo vale do rio Debed. Passamos por uma cidade mineira, quase abandonada. O rio desce das montanhas apressado e bravio, saltando e fazendo redemoinhos no seu leito de pedras de tal forma que, por vezes, parece correr para trás. Não posso deixar de o comparar com o percurso do próprio país que, por vezes, parece ter dificuldade em seguir um rumo certo em direção ao futuro.

domingo, 16 de agosto de 2026

Grandezas e misérias de Plasencia

Antigo Convento de São Vicente Ferrer, atual Parador de Plasencia

Plasencia é uma cidade antiga, fundada pelo rei Afonso VIII de Castela no ano de 1186, num local de passagem da antiga Rota da Prata romana. O objetivo do rei era fazer frente aos muçulmanos, a sul, e limitar o território do rei de Leão, a oeste. 

Estátua do Rei Afonso VIII, o fundador de Plasencia

É uma cidade pequena e tranquila, um pouco ofuscada pelas suas vizinhas Cáceres e Salamanca. 

A Fonte do Cabildo

Ruas tranquilas...

O chamado “casco antigo” aninha-se dentro de um anel de muralhas do século XII, de vez em quando interrompido por torres circulares. Várias portas e postigos fazem a passagem para o exterior das muralhas, onde hoje se desenvolve uma cidade mderna. Dessas portas,a mais bonita é sem dúvida a Porta de Trujillo, tanto pelo lado interior como pelo lado exterior. 

As muralhas de Plasencia

O lado interior da Porta de Trujillo

O lado exterior da Porta de Trujillo com um troço das muralhas

Dentro das muralhas, as pequenas ruas permanecem quase desertas durante as horas de calor inclemente. Mas à noite e durante a manhã, as pessoas circulam, trabalham, fazem compras, enchem as esplanadas. A Plaza Mayor é o centro da vida cultural e administrativa, tal como em todas as cidades espanholas. Aí se situa a Câmara Municipal, num bonito edifício do século XV. Na sua esquina, ergue-se uma torre no topo da qual se vê uma figura bem agarrada, que parece ter acabado de a escalar. É o Avô Mayorga, que toca o sino da torre todas as meias horas... 

Consegue ver-se o Avô Mayorga na torre da Câmara Municipal?

O conjunto arquitetónico e artístico mais relevante de Plasencia é a sua catedral. Ou, melhor dizendo, as suas catedrais... A catedral românica de Santa Maria liga-se à catedral gótica dedicada à Assunção aos Céus de Nossa Senhora. Pode dizer-se que as duas se completam, mas é uma ligação atabalhoada, quase poderia dizer atamancada... Valha-nos o extraordinário trabalho de escultura e entalhe do cadeiral do Coro da nova catedral, infelizmente impossível de fotografar. 

Uma das portas da Catedral

Claustro

A junção, nunca terminada, entre as duas catedrais...

Toda a zona antiga, dentro das muralhas, é pontuada por casas apalaçadas das grandes famílias nobres que dominaram a região, como os Monroy ou os Zuñiga. 

Um dos palácios mais bonitos do centro histórico

O Palácio dos Zuñiga

É a esta família Zuñiga que se deve a construção do Convento de São Vicente Ferrer, hoje ocupado pelo Parador de Plasencia. Estava-se no século XV, o século da unificação de Espanha, tanto no aspeto político como religioso. No final desse século, iria assistir-se à conversão forçada ou, em alternativa, à fuga dos mouriscos e à expulsão definitiva dos judeus. Por isso, ninguém se deve ter apiedado quando a sinagoga e o antigo bairro judeu foram destruídos para aí se construir o grande complexo monástico de São Vicente Ferrer. Caído em decadência depois da dissolução das ordens religiosas, o mosteiro foi comprado pelos Paradores de Espanha, foi recuperado e hoje constitui um espaço magnífico, que é possível visitar diariamente, numa visita guiada organizada pelo próprio Parador. A reconstituição e decoração são primorosas e, sempre que possível, tentaram manter as finalidades de utilização dos espaços, como é o caso do antigo Refeitório dos monges. 

Os claustros

Este espaço aloja hoje um dos bares do Parador

O antigo refeitório dos monges

Os judeus expulsos também não esquecidos. Nas ruas da antiga judiaria, pequenos retângulos de pedra relembram os nomes dos antigos moradores daquelas casas. Os judeus e os mouros constituiam uma parte importante da população e da vida económica da cidade. Eram comerciantes, artesãos, pequenos agricultores. Com a sua saída, a cidade entrou numa lenta decadência, muito visível na paragem dos trabalhos de construção da nova catedral, que continua mal unida à antiga catedral, como duas irmãs siamesas mal separadas. 

Aqui morava uma família de judeus conversos

Saindo da cidade pelo lado norte, avista-se o grande aqueduto medieval, com mais de cinquenta arcos, que abastecia de água a cidade. Alguns arcos foram destruídos durante a Guerra Civil, mas foram reconstruídos numa pedra mais clara, para que a memória não se perca. 

O Aqueduto de Plasencia

Fora de Plasencia, acompanhando o fértil vale do Jerte, seguimos até ao Monasterio de Yuste, o local escolhido pelo Imperador Carlos V para passar os últimos tempos da sua vida. Inclui o mosteiro propriamente dito e a pequena casa palaciana construída para Carlos V. 

Monasterio de Yuste

A varanda da casa palaciana de Carlos V

O imperador preparou-se para a morte. Todos os dias ouvia a missa, por vezes a partir do seu leito, estrategicamente colocado de modo a ver o altar-mor da igreja. Distraía-se com o seu hobby predileto, a relojoaria. E mandou construir uma pequena cripta para si próprio, que nunca chegou a ocupar. O seu filho Filipe II levou-o para o Escorial, onde repousa até hoje, no meio de um luxo que talvez não estivesse nos seus desejos.

Busto de Carlos V