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quinta-feira, 8 de maio de 2025

A encantadora Ghent

A encantadora cidade de Ghent

A skyline de Ghent (ou Gand na versão francesa) não engana: estamos perante uma cidade antiga, próspera e cheia de encantos e histórias para contar a quem as quiser ouvir. 

Os canais cruzam a zona antiga de Ghent

Situa-se na Flandres, na confluência dos rios Escalda e Lys, e aqui cresceu nos finais da Idade Média um riquíssimo centro de indústria têxtil. Juntamente com Bruges, dominava o comércio e a produção têxtil, numa rota que ligava a Inglaterra produtora de lã aos centros mercantis do norte da Itália, passando pela feiras da região da Champagne. Esta centralidade comercial e industrial explica o seu dinamismo demográfico: no século XIII, Ghent é a segunda maior cidade da Europa, logo a seguir a Paris. 

O Castelo dos Condes da Flandres



Aqui mandavam os Condes da Flandres e o castelo condal é ainda hoje uma das principais atrações da cidade. É um dos poucos castelos com fosso que restam na Flandres, uma região tão castigada por guerras e destruições. Mesmo em frente, o Sint-Veerleplein é uma pequena praça cheia de esplanadas e animação. Um belo pórtico, encimado por um Neptuno com uma cauda de peixe, dava entrada para o mercado do peixe e a imponência da entrada diz alguma coisa sobre a importância da atividade piscatória e do seu comércio. 

A entrada do Mercado do Peixe

As penas eram aplicadas aqui, nesta pequena praça, junto ao pelourinho. Segundo rezam as histórias, havia aqui quatro postes de madeira onde os condenados eram amarrados. Um nobre medieval chamado Sire Gheleyn van Maldeghem violou os privilégios da cidade de Ghent e, como castigo, teve de substituir os postes de madeira por outros de pedra. A coluna que está no centro da praça, com um leão coroado, relembra esta história e é conhecida por Sire van Maldeghem. 


Sire van Maldeghem

Há edifícios com muitas histórias para contar...

Uma das principais praças da cidade é a Praça do Mercado, o local das transações comerciais. Hoje, os edifícios do século XVIII estão transformados em restaurantes e cafés. No centro da praça, uma estátua de Jacob van Artevelde lembra o mestre cervejeiro do século XIV que se tornou um líder da região flamenga durante a Guerra dos Cem Anos. 

A Praça do Mercado

Jacob van Artevelde

Os canais que cruzam a cidade são ainda testemunhos deste movimento comercial. Nas margens do rio Lys, no bairro de Graslei, erguem-se os belos edifícios das guildas, na época casas comerciais e armazéns. 

Os belos edifícios do bairro de Graslei

Passando uma das pontes sobre o Lys, junto à igreja de São Miguel, entramos no centro histórico da cidade, hoje quase completamente pedonal e muito agradável de percorrer. 


A Igreja de S. Miguel

S. Miguel continua a matar o dragão na ponte sobre o Lys

Entre a Igreja de São Miguel e a Catedral de São Bavo, multiplicam-se os edifícios civis e administrativos que atestam bem a importância e riqueza da cidade de Ghent. Bem no centro da cidade ergue-se a Torre Belfort, a mais alta da Bélgica, ainda mais alta do que a de Bruges (que, porém, me pareceu maior, talvez pela sua localização, em plena praça principal). Além de ser uma torre de vigia, também simbolizava a riqueza e independência da cidade de Ghent, já que era ali que se guardavam os documentos onde estavam registados os seus privilégios. No topo da torre, um dragão olhava pela cidade. Tornou-se o seu símbolo e a sua mascote. 

A Câmara Municipal

O Belfort

A igreja principal de Ghent é a catedral de São Bavo (ou Sint Baffs, em flamengo), consagrada no século X, mas com muitas alterações e acrescentos pelo caminho. O exterior não é extraordinário, mas o interior alberga algumas obras de arte inestimáveis, como o Retábulo do Cordeiro Místico, de Van Eyck, e pinturas de Rubens. Ainda entrei na catedral, mas a missa ía começar dali a dez minutos e já não era permitido passar da entrada. Mas... mas... estou aqui tão perto e não vejo o Retábulo de Van Eyck? Minha senhora, está em restauro desde maio de 2023 e foi substituído por uma fotografia de alta resolução. Saio da catedral menos frustrada. Parece que tenho de regressar a Ghent quando terminar o restauro... 

A catedral de São Bavo

Ao passear pelas margens do rio Lys, vem-me à memória outro facto histórico. Foi perto das margens deste rio, embora já no lado francês, que os portugueses sofreram uma derrota cruel frente aos alemães, no dia 9 de abril de 1918. A batalha de La Lys, como ficou conhecida, marcou da pior maneira a participação portuguesa na 1.ª Guerra Mundial. Assim é a História. No mesmo local, cruzam-se boas e más memórias, de beleza e de crueldade, de sol e de lama. É o cortejo do passado. Mas neste momento, no presente, vou sentar-me numa destas esplanadas e apreciar a quietude do rio.

As esplanadas na margem do rio Lys


sexta-feira, 1 de maio de 2015

Roteiro de banda desenhada nas ruas de Bruxelas


Bruxelas, capital mundial dos quadrinhos (foto: Vist Brussels/Divulgação)
Todos sabemos que a banda desenhada não nasceu na Bélgica. Mas também é verdade que, hoje, a Bélgica é considerada a capital da banda desenhada. Muitos dos grandes criadores de BD aí viveram e publicaram os seus livros. É em Bruxelas que se realiza um dos maiores festivais daquela que é hoje considerada a Nona Arte. 

Cartaz do Festival de Banda Desenhada na Place Royale
Lá se reunem muitas dezenas de autores, expõem-se últimas obras, assinam-se livros a compradores e colecionadores. É uma festa anual, de ambiente descontraído e simpático, tal como o ambiente da própria banda desenhada.


Confraternizando com as personagens do Festival de BD
É também em Bruxelas que se situa o MOOF, um espaço museológico onde se podem encontrar mais de mil objetos ligados ao universo da banda desenhada. Aí se encontra também o Comics Café, um bar e restaurante que, para além de um cenário que recria o ambiente das histórias aos quadradinhos, integra a maior livraria sobre o mesmo tema. Bruxelas abriga ainda o Belgium Comic Strip Centre, onde se pode seguir a história dos quadradinhos, considerado como a Meca dos apreciadores da arte.

O Ford de Tintin no Congo e o carro original
Bruxelas assume esta ligação à BD, de tal forma que muitas ruas têm três nomes: um em francês, um em valão (as duas línguas oficiais belgas) e um ligado ao universo das histórias em quadradinhos. 

A múltipla toponímia das ruas de Bruxelas
As histórias aos quadradinhos estão presentes por todo o lado, quebrando a monocromia escura da cidade, em painéis que alegram os muros e as empenas dos prédios. 

Tintin e o Capitão Haddock descem uma empena
Fotografei alguns, em setembro de 2013. Agora, o turismo de Bruxelas publicou um roteiro para descobrir e apreciar esses painéis de banda desenhada espalhados pela cidade. Pode ser levantado no espaço do Turismo de Bruxelas, que se situa na Grand'Place, e enumera nada menos de 54!
Tantos que me falta ver ainda!

Mais um painel de BD, na Avenue do Gros Tilleul

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Bruges, ou a Veneza do Norte




Quem entra na cidade de Bruges, tem com certeza uma sensação de regresso ao passado. A cidade parece ter parado no século XV, parece ter-se fixado num passado, bem conservado, limpo, um pouco idealizado, mas saído, sem dúvida, dos velhos livros de contos infantis. Quase esperamos ver cavaleiros e tecedeiras flamengas a sair de uma porta ou a dobrar uma esquina. E, no entanto, tudo é real, as casas e os canais estão realmente ali desde a Idade Média, desde o tempo em que Bruges dominava os circuitos das lãs inglesas e dos tecidos flamengos que fizeram a sua fortuna.



A praça central é dominada pelo Hotel de Ville, com a alta torre que representava o poder comunal. Aí, à imagem do que acontece em Bruxelas, dominam as belas casas dos ofícios. Os prédios, estreitos e altos, ostentam os símbolos e cores das corporações, mostrando bem quem ali mandava e criava riqueza.


Mas eu prefiro perder-me pelas pequenas ruas, cruzadas pelos canais, onde circulavam os panos de lã, as rendas, os tecidos bordados. Cada casa conta uma história, enredada nas portas maciças, nas pequenas janelas, nos telhados em degraus, nas figuras que adornam as frontarias.


Portugal também aqui teve uma feitoria, no tempo em que trazíamos à Europa as riquezas do Oriente.
Bruges é uma cidade tranquila, apesar dos turistas que cruzam as ruas e enchem os barcos dos canais. É uma cidade onde nos apetece passear devagar, a admirar os pormenores, a parar nos recantos bucólicos das praças, a olhar os patos que dormem nos vãos das portas.


Van Eyck viveu aqui, Memling também. São eles que fazem reviver o espaço ocupado pelo Hospital, no final da Idade Média.


É um regresso ao passado, mas a um passado depurado de tudo o que existia e era triste, pobre ou incerto. Onde só ficou o lado belo das coisas.


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O Manneken Pis

Tenho ouvido várias vezes a pergunta, quase escandalizada de tão surpreendida: "O quê? Bruxelas é uma cidade tão antiga e tão rica e o seu símbolo é um miúdo a fazer xi-xi? Uma estatuazinha numa esquina, que não chega a medir um metro de altura?"

(O Manneken Pis... uma réplica, claro!)

Tudo tem a sua razão de ser. Conta a tradição (uma delas, porque há muitas versões!) que um rico burguês da cidade teria perdido o seu filho durante uns dias de festa, encontrando-o ao fim de cinco dias, naquela mesma esquina, a fazer o que o MannekenPis faz ainda hoje. O pai, reconhecido, teria mandado fazer aquele pequeno memorial! 
Ao certo, sabemos que a pequena estátua foi obra de Duquesnoy e data de 1648. Dali, jorrava água nos dias normais, e vinho em dias de festa! Hoje, nem água potável dali sai. No entanto, continua a ser acarinhada pelos habitantes da cidade e ponto de passagem obrigatório para os turistas.
Por duas vezes, a imagem do rapazinho nú foi roubada e depois devolvida aos bruxelenses. Da primeira vez, foram os ingleses os autores do roubo; da segunda vez, foram os franceses, no reinado de Luis XV. Terá sido este rei quem, para acalmar os habitantes de Bruxelas, condecorou o rapazinho com a cruz de São Miguel, conferindo-lhe um grau de nobreza e um fato de cavaleiro. Inaugurou uma tradição que se mantém até hoje, de vestir o Manneken Pis com as indumentárias mais variadas, que vão do fato de combatente de 1830 até ao fato de estudante da Universidade de Bruxelas. Também tem recebido fatos tradicionais de muitos países à volta do mundo: tem fatos de samurai, de toureiro, de astronauta... O seu guarda-roupa é invejável e pode ser visto no Museu da Cidade de Bruxelas.

(O fato de cavaleiro - a primeira indumentária)

O pequeno Manneken Pis vai exibindo as suas variadas vestes nas festas da cidade. Mas é na sua nudez e inocência que ele se assume como símbolo dos seus habitantes. Assim o afirma uma antiga quadra popular:


          Ma nudité n'a rien de dangereux,
          Sans péril, regardez-moi faire;
          Je suis ici comme l'enfant heureux
          Qui fait pipi sur le sein de sa mère...


sábado, 28 de setembro de 2013

Grand' Place, a praça mais bela da Europa


(Sábado de manhã na Grand' Place)

Bruxelas deve ser a cidade da Europa de que mais se ouve falar. Regularmente, somos informados de que os nossos governantes se deslocaram a Bruxelas para discutir e decidir sobre os mais variados assuntos. Os técnicos dos diferentes ministérios passam a vida em reuniões promovidas pela Comissão Europeia, e os aeroportos e os hotéis estão cheios destes burocratas, de fato e pasta na mão.
E, no entanto, Bruxelas é muito mais do que isso. Não é só a capital da Europa, é uma capital europeia com muito para mostrar, dos chocolates às galerias de arte, da banda desenhada ao recente Museu Magritte.
No centro da cidade, o ponto para o qual tudo converge é a Grand' Place. É apontada como sendo a mais bela praça da Europa. Não sei se é. Lembro-me de outras praças igualmente belas, cada uma ao seu estilo. Mas que é maravilhosa, na beleza e harmonia dos edifícios que a rodeiam, lá isso é verdade!

(A torre da Maison de Ville)

O edifício mais importante é a "Maison de Ville", que data do século XV. o interior merece uma visita e aí se celebram hoje muitos casamentos. A torre, alta mas graciosa no seu rendilhado, eleva-se a 114 metros e, no topo, uma estátua em bronze dourado do arcanjo S. Miguel aponta a direção do vento. Era neste edifício que se reuniam os burgueses, os homens comuns da cidade, para determinarem os seus assuntos, e é um símbolo das liberdades comunais.

 (Na varanda da Maison de Ville)


Em frente, do outro lado da praça, ergue-se a Maison du Roi. Começou por ser a Broodhuys, ou Casa do Pão, já que aí se garantiam os direitos do fabrico e comercialização do pão. Reedificada por Carlos V, várias vezes danificada e reconstruída, acabará por ser comprada pela cidade e remodelada até ter o aspeto que hoje apresenta. Alberga o Museu da Cidade de Bruxelas.

(A Maison du Roi vista da Maison de Ville)

A toda a volta da praça, as Casas das Corporações, dos padeiros aos tecelões, dos barqueiros aos cervejeiros, rivalizam em beleza e riqueza ornamental. Cada uma merece um olhar atento, mas é o conjunto que atrai a atenção. No seu conjunto, elas formam mais do que uma praça; estas casas mostram o poder dos ofícios no governo da cidade, o apreço pelo trabalho e pela criação de riqueza que o trabalho possibilita, pelo esforço dos indivíduos posto ao serviço de uma causa comum. Talvez isso explique algumas coisas...
Aconselho a qualquer pessoa a entrada num dos bares que rodeiam a praça. Pode ser "Le Roi d' Espagne". Sentada à janela, mesmo que chova ou faça frio, a olhar para o espaço que me cerca, não duvido: se não é a praça mais bela, anda lá perto!

(Tarde de chuva na Grand' Place)

Ainda a propósito de cervejeiros, apanhei um fim-de-semana em que decorria na Grand' Place um festival de cerveja belga. Como se sabe, a Bélgica é uma grande produtora (e consumidora...) de cerveja, e são dezenas as marcas e tipos de cerveja diferentes que se podem encontrar. Centenas de pessoas, principalmente jovens, afadigavam-se para experimentar as ditas cervejas e acabavam por se aliviar ali mesmo, a uma qualquer esquina! Pareceu-me uma grande falta de respeito por um espaço tão bonito e tão cheio de pergaminhos! Ou talvez seja apenas a influência do ícone da cidade, o irreverente Manneken Pis! Mas isso já é outra história!

(Textos e Fotografias de Teresa Diniz)