sexta-feira, 3 de julho de 2026

Olhares sobre Tbilisi

 

A Igreja Metecki, sobre o rio Mtkvari

Acho que me apaixonei por Tbilisi logo na noite da chegada, quando parei na Ponte Metecki e olhei em volta. Tinhamos acabado de chegar do aeroporto, uma viagem tranquila no táxi que tinhamos reservado. Depois das avenidas largas de ligação ao aeroporto, o trânsito dentro da cidade torna-se compacto e um tanto caótico. A zona velha da cidade tem aquele ar de confusão balcânica, com as ruas estreitas e pouco cuidadas, mas aí vão surgindo hotéis em espaços remodelados. O nosso é um desses hotéis, com umas varandas lindas! E o nosso quarto abre para uma dessas varandas, rendilhadas e fundas.

O bairro e a igreja de Metecki


O motorista do táxi assegurou-nos que a cidade era tranquila e segura e, embora já fossem quase 10h da noite, decidimos descer até ao centro da cidade. Caía uma chuvinha miúda e havia algum vento, por isso descemos com cuidado a rua íngreme, de paralelipípedos escorregadios. Quando comecei a atravessar a ponte, olhei à minha volta e senti-me no meio de um presépio. As casinhas subiam pelas encostas, com as suas varandas grandes e trabalhadas, como olhos brilhantes. Espalhadas pelas colinas, inúmeras igrejas iluminadas. No alto da falésia, a velha Igreja Metecki, guardada pelo rei Vaktang IV montado no seu cavalo. Na base da falésia, à beira do rio que corre rápido e caudaloso, duas capelas iluminadas deixam entrever o brilho dourado dos ícones. Quando olhei um pouco mais ao longo do rio, a Ponte da Paz brilhava também, com milhares de luzes led intermitentes. Mas, nessa altura, eu já estava apaixonada por Tbilisi.

A falésia sobre o rio, guardada pelo rei Vaktang IV


A Ponte da Paz

É preciso entender que Tbilisi tem uma implantação extremamente cenográfica. Foi construída no século IV para substituir a antiga capital do reino da Geórgia, a cidade de Mtskheta, situada uns quilómetros a norte, numa situação muito mais exposta a invasões e outros perigos. Hoje, Mtskheta é essencialmente o centro da vida religiosa do país. Reza a lenda que o rei Vaktang andava a caçar quando encontrou umas nascentes de águas sulfurosas, boas para a saúde, e aí mandou erguer a sua nova capital. As termas ainda lá estão, mas eu acho que o rei percebeu bem o valor da localização estratégica da nova cidade.

O rei Vaktang IV saúda a Mãe da Geórgia

As termas de águas sulfurosas

As casas equilibram-se na falésia

Tbilisi foi erguida nas margens do rio Kura (Mtkvari, na língua georgiana), e trepa pelas encostas ao longo de quilómetros. Então, as duas margens dialogam uma com a outra, de forma teatral. O rei Vaktang ergue a mão, parecendo saudar a enorme estátua da Mãe da Geórgia, que no topo da colina oposta continua a segurar numa mão um cacho de uvas, evidenciando a hospitalidade aos amigos, enquanto a outra mão brande  uma espada para atemorizar os inimigos. Ou talvez a Mãe da Geórgia guarde o Palácio Presidencial que domina outra das colinas...

A grande estátua da Mãe da Geórgia

O Palácio Presidencial, na outra margem

O rio Mtkvari e a ponte Metecki

Esta zona mais antiga da cidade foi destruída e reconstruída outras tantas vezes (talvez necessite mesmo de uma proteção simbólica extra...). Rodeada de inimigos poderosos, a Geórgia, um dos reinos mais antigos da Europa, um dos berços do Cristianismo, foi invadida e ocupada inúmeras vezes. Hunos e bizantinos, turcos e mongóis, tropas de Gengis Khan e de Tamerlão, persas e russos, todos por aqui passaram, deixando rastos de destruição mais ou menos duradouros. Como alguém nos dizia, quando andavamos a passear pelas montanhas do Cáucaso, as montanhas eram os únicos vizinhos da Geórgia que nunca tinham tentado invadi-los... Esta ameaça constante, que dura até hoje, tornou-os resistentes e orgulhosos das suas características e particularidades. É o caso da sua língua e da sua escrita, tão peculiares.

O responsável pelos brindes é uma figura importantes nos banquetes
e representa a hospitalidade georgiana

Estátuas na Ponte Baratashvili

A Torre de Relógio mais célebre de Tbilisi

Num dos dias em que estivemos em Tbilisi, um domingo, festejava-se a Festa da Pureza da Família. É um feriado nacional, religioso mas também nacionalista. Havia muitas pessoas vestidas com os trajes tradicionais, que se encaminhavam para celebrações religiosas ou festas mais laicas. Lembro-me de ver famílias vestidas a rigor na Catedral de Sioni ou na Basilica Anchiskhati (a mais antiga igreja de Tbilisi, do século VI) e muitos milhares de pessoas a passarem na Ponte Baratashvili, participando numa enorme procissão. A Geórgia foi dos primeiros países a adotar o Cristianismo, logo no século III, e a igreja ortodoxa georgiana é uma parte importante da sua identidade nacional.

Tímpano da Basilica Anchiskhati

O belo candelabro central da Igreja Metecki

Há centenas de igrejas, capelas e pequenos mosteiros espalhados pela cidade. Algumas têm frescos e decorações antigas e belíssimas, por regra proíbidas de fotografar ou filmar. São idênticas na sua estrutura interna e externa, seguindo um esquema bastante rígido; é precisamente nos pormenores decorativos que, por vezes, se destacam. As esculturas delicadas, os grandes candelabros de ferro forjado, os frescos e os belíssimos ícones que cobrem as paredes.

A catedral de Sioni

Interior da Catedral de Sioni

A igreja mais imponente é a catedral de Sameba, fora do centro histórico, que esmaga pelas suas dimensões. Implantada no meio de um jardim, ao cimo de uma imensa escadaria, o complexo religioso é imponente. Por baixo da catedral, há uma capela subterrânea que também quisemos visitar e fomos surpreendidos por outra igreja enorme, de dimensões quase idênticas à do piso superior!

Subindo para a Catedral de Sameba

O belo pátio fronteiro

A zona mais elegante de Tbilisi é a que se estende entre a Praça da Liberdade e a Praça da República, ao longo da Avenida Shota Rustaveli. Aí se encontram muitos edifícios diferenciados, construções dos séculos XIX e XX, que hoje albergam museus, edifícios governamentais, casas de espectáculos. Aí está também a livraria mais célebre da cidade, a Prosperous, onde queriamos dar uma olhadela. Gostaria muito de ter tido tempo para visitar mais espaços culturais, como o Museu de Artes Plásticas com a sua coleção de obras de Pirosmani, mas optámos sem dificuldade pelo Museu Nacional da Geórgia. A escolher um, teria de ser esse! E que boa escolha!

Shota Rustaveli, o maior poeta georgiano, na avenida com o seu nome

O Museu de Artes Plásticas

A Casa da Ópera e do Ballet

O Museu Nacional da Geórgia tem muitas coisas interessantes para mostrar, mas destaco o Tesouro, composto por peças de ourivesaria desde os tempos da Cólquida até à Idade de Ouro da Geórgia, na Idade Média (séculos XI a XIII). Tem peças absolutamente magníficas, tiaras, brincos, além dos ícones medievais, maravilhosos! Foi também interessante perceber como os georgianos conseguiram preservar o seu Tesouro, após a invasão do Exército Vermelho, quando todos os grandes museus do mundo lhe queriam deitar a mão!


A escadaria para as Crónicas da Geórgia

Fora do centro histórico de Tbilisi, ergue-se um monumento absolutamente extraordinário: as Crónicas da Geórgia. É formado por um conjunto de 16 colunas com mais de 30 metros de altura, projetado ainda nos tempos soviéticos, em 1985, mas finalizado apenas no início do século XXI. Cada coluna está dividida em três secções: no topo, estão talhadas cenas da vida georgiana, como a produção do vinho; na base, estão esculpidas cenas do Novo Testamento; na secção central, estão as estátuas dos heróis georgianos, reis e rainhas, intelectuais, escritores, soldados. Situado no topo de uma colina, este conjunto monumental tem vistas imperdíveis sobre o “mar de Tbilisi” e é de uma imponência que me impressionou vivamente!





Esta pequena capela, também ricamente esculpida, faz parte do conjunto
monumental das Crónicas da Geórgia

No último dia que passámos em Tbilisi almoçámos num restaurante da Avenida Rustaveli, animado por um velhote que parecia adormecido, mas de vez em quando acordava para tocar piano e pedir dinheiro... Nota máxima para o frango com romãs! Porque o encanto da Geórgia também está na sua culinária!