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| Entrada na fortaleza de Akhtala |
A Arménia foi o primeiro país a
adotar o Cristianismo como religião oficial, no ano de 302. Este pioneirismo
constitui uma espécie de estandarte, um orgulho nacional, que não foi abafado
nem mesmo com o extenso domínio da União Soviética. Aí se encontram alguns dos mais antigos
mosteiros cristãos, muitos ainda em funcionamento ou que renovaram as suas
atividades depois da independência.
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| O Mosteiro de Haghpat |
Estando nós na Geórgia, era
imperdível um salto ao norte da Arménia, onde se localizam alguns dos mosteiros
mais antigos e emblemáticos. Saímos de Tbilisi em direção ao sul e não
demorámos muito a chegar à fronteira. Os procedimentos de fronteira foram
simples, especialmente para quem possui um passaporte português, da União
Europeia. Os viajantes do Azerbaijão, considerado um país hostil, eram os que
tinham de se submeter a um interrogatório mais cerrado, mas não dei porque
houvesse problemas fronteiriços.
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| Igreja de Akhtala |
Trocámos na fronteira alguns
laris georgianos pelos desvalorizados drams arménios. Não
pensávamos fazer compras, mas o dinheiro local era necessário nem que fosse
apenas para pagar o almoço. E assim foi. Almoçámos numa casa particular, onde a
mãe de família arredonda os seus proventos mostrando aos turistas o que é a
culinária arménia. E gostámos muito! Essa casa situava-se numa aldeia próxima
do mosteiro de Haghpat. Como todos os locais por onde passámos, a aldeia tinha
um aspeto um tanto deprimido, parado no tempo. Junto à casa onde almoçámos, uma
pequena fonte ostentava um memorial aos soldados dali naturais mortos na
Segunda Guerra Mundial, ao serviço do Exército Vermelho. A estrela vermelha não
enganava e mostrava-nos claramente que a Arménia se incluía no grande império
soviético.
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| Memorial aos mortos na Grande Guerra Patriótica ao serviço do Exército Vermelho |
O primeiro mosteiro onde parámos foi Akhtala. Empoleirado num penhasco com vista para a cidade de Akhtala, o mosteiro do século X, também conhecido como Pghindzavank, ergue-se como uma impressionante fortaleza, cercada pelo profundo canyon do rio Debed. O complexo monástico e a fortaleza foram construídos durante o governo da dinastia Kiurikian e desempenharam um papel importante na proteção das regiões do noroeste da Arménia.
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| A alameda de entrada do Mosteiro de Akhtala |
O complexo do Mosteiro de Akhtala
inclui a igreja principal, dedicada a Surp Astvatsatsin (Santa Mãe de Deus), um
pórtico com uma capela-sepulcro, paredes da fortaleza, uma torre e portão do
século XIII, celas de monges, uma casa de banho e vestígios de outras
estruturas.
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| Igreja do mosteiro de Akhtala |
Passámos o portão da fortaleza e
caminhámos por uma pequena alameda em direção ao mosteiro. Por todo o espaço
havia lápides votivas, muito usuais nas igrejas arménias. São os Khachkars, pedras esculpidas com
detalhes distintos, geométricos, florais ou com motivos religiosos. Vimos
muitas, aqui e noutros espaços sagrados. Hoje são reconhecidas pela UNESCO como
Património Imaterial da Humanidade.
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| Dois exemplos de Khachkars |
Do lado esquerdo, dois anéis unidos
simbolizavam a amizade entre a Geórgia e a Arménia. Disseram-nos que dava sorte
passar por dentro dos aros e, na dúvida, lá fui eu... De caminho, tirei uma
fotografia do mosteiro que depois percebi ser a imagem icónica, que aparece em
todos os cartazes turísticos. Um momento de sorte...
À entrada da igreja, o chão está coberto de lajes funerárias. Hesitei em pisá-las, por respeito. Mas o guia do mosteiro clarificou que, pelo contrário, se deviam pisar, para receber as energias positivas dos antepassados ali enterrados. Diferentes igrejas, diferentes perceções... Encostada a uma parede, uma enorme iconóstase em madeira testemunhava o regresso do velho mosteiro do rito ortodoxo russo para o rito da igreja ortodoxa arménia, depois da independência. Nas igrejas arménias, não se faz essa divisão entre o altar mor e o corpo principal da igreja.
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| Altar mor da igreja de Sanahin |
Mas o verdadeiro encantamento espera por nós no interior. As paredes internas, o rebordo das janelas, o contorno das portas, estão cobertos de frescos maravilhosos, com traços delicados e cores intensas. Os santos observam-nos das paredes, com o mesmo ar sereno de há mil anos atrás, quando foram pintados. E não consigo não me emocionar...
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| Os frescos de Akhtala |
Seguimos depois para o mosteiro
de Haghpat. É o maior dos mosteiros que visitámos, no noroeste da Arménia.
Fundado no século X, foi um grande centro de aprendizagem e arquitetura. É
composto por vários edifícios, que foram crescendo e, por vezes, sobrepondo-se
uns aos outros. A igreja principal, Surp Nishan (igreja de Santa Cruz) é
imponente, com uma cúpula central sustentada por quatro pilares. Tem um
ambiente contemplativo e intimista, graças às pequenas janelas e rodeiam a
cúpula e às centenas de velas que tremeluzem junto do altar.
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| O hall de entrada em Haghpat |
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| A cúpula de Surp Nishan |
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| No interior da igreja |
Gostei particularmente da velha
biblioteca. Debaixo da cúpula, as paredes abriam-se em nichos que eu imaginei
repletos de pergaminhos. Quase consegui ouvir os sussurros dos monges que os
consultavam... Ou talvez estivessem a tratar das enormes vasilhas de vinho que
se aninhavam nos buracos abertos no chão... Um espaço multifunções, afinal!
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| A biblioteca de Haghpat |
No dia da nossa visita,
festejava-se o final do ano letivo e o espaço estava cheio de crianças e
adolescentes das escolas da vizinhança. Vestidos a rigor, tiravam fotografias
com os pais e os professores, mas também corriam e brincavam porque eram crianças.
Gostei de ver como um espaço tão antigo estava apropriado pela modernidade e
pela vida quotidiana daquelas populações.
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| Festa do encerramento do ano letivo em Haghpat |
Após o almoço, ainda parámos no
mosteiro de Sanahin. O nome significa “este é mais antigo”, em referência à sua
fundação anterior à do seu mosteiro-irmão de Haghpat, ambos construídos por uma
parceria de pai e filho. Chovia copiosamente e o interior da igreja estava
escuro e húmido. Tinhamos de caminhar cuidadosamente por cima de pedaços de
tábuas para não acabar o dia com um banho de lama. Apesar de ser Património
Mundial da UNESCO, tal como os mosteiros anteriores, fiquei com a ideia de que
aqui as obras de recuperação ainda estão muito atrasadas.
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| Interior do mosteiro de Sanahin |
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| Pedras tumulares |
Além do apoio da UNESCO,
descobrimos que estes mosteiros e a sua área envolvente têm um apoio
inesperado: a nossa Fundação Gulbenkian financia várias vertentes da
preservação do seu património cultural. Calouste Gulbenkian não esqueceu a sua
Arménia natal no seu testamento.
Regressamos à Geórgia pelo vale
do rio Debed. Passamos por uma cidade mineira, quase abandonada. O rio desce
das montanhas apressado e bravio, saltando e fazendo redemoinhos no seu leito
de pedras de tal forma que, por vezes, parece correr para trás. Não posso
deixar de o comparar com o percurso do próprio país que, por vezes, parece ter
dificuldade em seguir um rumo certo em direção ao futuro.




















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