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Fotografias dos últimos Emires de Bukhara, numa das salas do Palácio de Verão |
Bukhara é uma cidade muito bela e imponente, Património da
Humanidade pela UNESCO. Mas a riqueza que agora observamos, nos monumentos e
espaços da cidade, provinha da sua localização privilegiada, no coração da Rota
da Seda.
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Conjunto escultórico evocativo das caravanas da Rota da Seda |
Os bazares e cúpulas de comércio revelam bem a sua
importância: chegaram a existir mais de 40 bazares, 20 caravanserais, 6 Tiks
(casas comerciais) 3 Toks (cúpulas comerciais, com múltiplas entradas). Estas
cúpulas comerciais estão cuidadosamente preservadas e visitámos as três: a
Tok-i-Furushon, onde se vendiam chatéus e gorros de pele; a Tok-i-Zargason,
onde se transacionavam jóias e pedras preciosas; e a mais importante de todas,
a Tok dos banqueiros, Tok-i-Safaron, onde se faziam as transações comerciais em
diferentes moedas, da China, da Rússia, da Turquia... Todos continuam a
funcionar como lojas e bazares, ao fim e ao cabo como representações vivas e
pujantes da sua história.
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A Tok-i-Furushon |
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Dentro do bazar |
Aqui vendia-se de tudo e trocavam-se os bens mais apetecidos
de todos os cantos da Terra conhecida. As sedas e porcelanas chinesas. Os
tapetes persas. As especiarias da India, do Ceilão, das Molucas. As peles e
madeiras preciosas das estepes russas. Escravos negros como ébano da Abissínia
e escravos loiros de pele clara das planuras eslavas. Aqui se trocavam também
informações e ideias, novos conceitos matemáticos, invenções transformadoras,
como o papel ou a pólvora. Aqui chegou também Marco Polo, abrindo as rotas
europeias aos novos produtos e ideias. Tudo lhe pareceu tão extraordinário que
escreveu um livro sobre todas essas maravilhas; o “Livro das Maravilhas do
Mundo” haveria de alimentar o imaginário europeu durante mais de um século.
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A venda das especiarias |
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A cúpula de um tok comercial |
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Banca de venda de carimbos para pão |
Além de produtos, também circulavam histórias. Imagino os
mercadores que partilhavam os caravanserai, à noite, sentados em círculo junto
às fogueiras, partilhando informações, historietas e até anedotas. No meio dos
jardins da Praça Lyabi Hauz, uma estátua de um homem sorridente sentado no seu
burrico, chama-nos a atenção: é o sufi Hodja Nasreddin. Viveu no século XIII e
era originário de Konya, na Turquia. As suas histórias e respostas prontas
percorriam a Rota da Seda e ainda hoje são contadas. Quem sabe se se terá
cruzado com Marco Polo?
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O sufi Hodja Nasreddin, montado no seu burrinho |
De toda a riqueza que aqui passava, uma parte fluía em
impostos para as mãos do Emir de Bukhara, responsável pela segurança dos
mercadores e dos caminhos. Com esse objetivo, eram construídos os caravanserai,
que funcionavam simultaneamente como abrigos e locais de descanso e
reabastecimento das caravanas. Eram uma espécie de estalagens, ou áreas de
serviço dos tempos antigos, que serviam tanto as necessidades dos homens como
dos camelos que compunham as caravanas. Na estrada entre Bukhara e Samarkand
encontrámos um desses complexos, com o seu espaço de alojamento e uma enorme
cisterna coberta para reabastecimento de água.
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O que resta de um antigo caravanserai |
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A velha cisterna do século XI |
A residência oficial do emir ficava no Ark, a antiga
cidadela, que depois os bolcheviques batizaram como Kremlin. Resistiu cerca de
1500 anos, até ser bombardeada e quase totalmente destruída pelo Exército
Vermelho em 1920. Hoje, apenas uma parte está recuperada mas, mesmo assim, as
altas muralhas ainda são imponentes.
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A entrada do Ark |
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As muralhas ainda são imponentes |
Lá dentro, situava-se a residência oficial
do emir, a sala do trono, os espaços onde recebia os seus súbditos, onde se
reunia o Conselho. A maioria das salas são atualmente espaços museológicos
dedicados aos mais variados temas, vestuário e adereços antigos, arquelogia e
numismática, mas também o desastre ecológico do Mar de Aral.
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O trono do espaço exterior de receção ao público |
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Junto às muralhas do Ark |
Uma parte, seguramente significativa, dos impostos comerciais
era aplicada em construções sumptuosas. Já fora da cidade, o Palácio de Verão
dá disso testemunho. As salas são magníficas, refletindo influências artísticas
da Rússia e da China. Os grandes jardins também são muito agradáveis e ainda por
lá se encontram pavões a pavonear-se... Hoje, o Palácio pertence ao Estado e
foi preservado como museu.
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Entrada do Palácio de Verão do Emir de Bukhara |
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O pórtico de um dos pátios |
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Uma das salas do palácio |
Pior sorte teve o último emir que aqui viveu, Alim Khan.
Fazia parte da guarda pessoal do Czar Nicolau II e, quando da ocupação
bolchevique, em 1920, foi preso e executado. O mesmo aconteceu a quase toda a
família e, dos que sobraram, perdeu-se o rasto. Mas continuam a viver nos
palácios, madrassas e mesquitas que construíram, tal como os mercadores,
escravos e viajantes que lhes deram vida.
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Adereços femininos - Museu do Ark |
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Botas de mulher - Museu do Palácio de Verão |
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