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O Nilo visto do nosso hotel em Luxor |
Para
os egípcios, é desnecessário nomear o Nilo. É o único rio, não tem concorrentes
ou afluentes, apenas canais. Heródoto escreveu: “O Egipto é um dom do Nilo” e,
realmente, sem o Nilo não haveria Egipto, encaixado entre dois desertos. O Nilo
é o criador dessa faixa de terra extraordinariamente fértil que ali permitiu o
desabrochar da vida e da civilização.
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À beira de um canal do Nilo |
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Subindo o Nilo |
É
fascinante subir ou descer o Nilo de barco e observar, com vagar, as suas
margens que vão desfilando à nossa frente. A atividade agrícola é intensa,
embora não intensiva. Os palmeirais alternam com campos de cana de açúcar. Há
pequenas bombas manuais para extração da água da rega. E os burros continuam a
ser um meio de transporte muito utilizado. De vez em quando, uma cabana ou um
pequeno conjunto de casas de adobe. Arrumos? Habitações? Não sei, mas percebo
que, se recuasse cem ou mil anos, a paisagem não seria muito diferente.
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Pequenas aldeias nas margens |
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Os burros continuam a fazer o seu serviço |
O
Nilo sempre foi a referência para todos os aspetos da civilização egípcia,
desde os tempos faraónicos. Definia os tempos agrícolas, definia o calendário,
definia a organização social e política. Era indissociável das crenças e
festividades religiosas e o curso do rio era a grande referência para o culto.
Para oriente do rio, onde o sol se levantava, era a terra dos vivos e do culto
aos deuses. Para ocidente do rio, onde o sol se punha, era o lado dos mortos e
do mundo do além.
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Fachada do templo de Kom Ombo |
Olhando
para o mapa do Egipto, esta referência torna-se muito nítida: na margem
oriental do Nilo, o lado do Levante, sucedem-se os grandes templos, lugares de
celebração da vida e da continuidade; na margem ocidental, o lado do Ocaso, é o
lugar dos túmulos. Basta passar para lá da faixa verdejante das culturas para
encontrar o deserto e o reino da morte, mas também da imortalidade.
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Entrando em Karnac |
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Os carneiros de Amon |
Em
nenhum local isto é tão claro como em Karnac. Karnac era o grande complexo
religioso do culto ao deus Amon. Os seus sacerdotes administravam todo o
património de Amon, ao qual pertencia o templo de Luxor, situado na margem
oriental do Nilo, assim como os recintos funerários que se localizavam ana margem
ocidental do rio. Funcionava portanto como um grande centro administrativo
dominado pela classe sacerdotal.
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Bela gravação de Amon na parede do templo |
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As colunas de Karnac |
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Dentro do complexo |
Ao
longo do Império Novo, Karnac foi crescendo até se transformar numa enorme
cidade-templo. Incluía vários locais de culto, caminhos processionais com
santuários, palácios, instalações administrativas e armazéns.
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O lago sagrado de Karnac |
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O escaravelho sagrado... sim, também dei sete voltas ao escaravelho... |
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Também existe uma mesquita no complexo de Karnac |
Os
faraós tutmósidas mandaram aqui construir o grande templo de Luxor, para
constituir a residência sul de Amon. No decorrer da festa de Opet, Amon-Ré
deslocava-se de Karnac para Luxor, a fim de realizar a sua regeneração divina.
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Entrando em Luxor |
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Aos pés do grande faraó |
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Pátios interiores |
A
grande avenida processional por onde era transportada a barca divina com a
estátua de Amon ainda hoje é impressionante. É uma avenida larga, ladeada de
esfinges que guardam o caminho percorrido pelo deus. Muitas esfinges estão
danificadas ou desaparecidas, mas as que ainda se mantêm de pé são muitas e
garantem a grandiosidade da avenida de cerca de 2 quilómetros. Uma réplica da
barca divina marca o seu espaço na avenida e eu imagino-a cheia de gente
acenando ao deus que passa com flores e folhas de palmeira, cheios de temor e
esperança na renovação da vida em todo o Egipto. Talvez conseguissem vislumbrar
a imagem do deus.
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As esfinges da avenida processional |
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Réplica da barca que transportava a imagem do deus |
Sabemos que cada templo possuia uma imagem escultórica do
deus que aí se venerava, fosse ele Amon, representado por um carneiro, fosse
Sobek, o deus-crocodilo, ou outro qualquer. Infelizmente,
quase todas estas estátuas de culto se perderam com o correr do tempo, já que
eram feitas com metais nobres, tendo por isso sido roubadas ou fundidas.
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Imagem de Isis com o pequeno Horus ao colo (Novo Museu da Civilização Egípcia) |
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Imagem de Sobek (Museu de Kom Ombo) |
Hoje,
Luxor é uma cidade grande que vive muito do turismo. Fomos fazer um passeio
noturno pela cidade, de charrete. A avenida processional estava iluminada e
proporcionava uma bela visão. De resto, a cidade pareceu-me idêntica a qualquer bairro
do Cairo, com muitas lojas, muita luz, muita gente na rua e muitos minaretes. Fuad,
o rapazinho que conduzia a nossa charrete, tinha 14 anos, trazia uma túnica
impecavelmente limpa e fazia o seu trabalho com seriedade: enquanto nos
brindava com sorrisos, ia apontando para o que lhe parecia mais interessante e
enxutava energicamente os outros miúdos que tentavam agarrar-se à charrete para nos vender
milhentas bugigangas. Garantiu-me que estava na escola e por isso ganhou umas
quantas libras egípcias de gorgeta.
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Fuad, o condutor da nossa charrete |
Tão bom voltar ao Rio Nilo... ❤️
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