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A catedral de Orléans |
As marcas dos cultos célticos e druídicos estão muito
presentes em França, particularmente no noroeste. Na Bretanha, encontram-se por
todo o lado grupos de menhires e os alinhamentos de Carnac ainda hoje nos
espantam e interrogam. Mas também os encontramos noutros locais. Lembro-me de,
já depois do Vale do Loire, encontrarmos uma indicação na estrada para o Menhir
de Ceinturat. Não estava nos nossos planos, mas passou logo a estar!... Depois
de cerca de um quilómetro em off-road
e mais um bocado a pé, deparámos com o enorme menhir, com cerca de cinco
metros. Um placard identificava o menhir, contando que estava rodeado por uma
lenda: as raparigas que quisessem encontrar noivo, tinham de atirar uma moeda e
colocá-la no seu topo plano. Atendendo à quantidade de moedas que lá estava,
ainda há por aí muita gente à procura de parceiro!
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Alinhamentos de menhires em Carnac |
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O menhir de Ceinturat |
O Vale do Loire, compreendendo o rio Loire e os seus
afluentes, é uma região ímpar. Com os seus inúmeros castelos e abadias ligados,
de uma forma ou de outra, à monarquia francesa, implantados em locais de grande
beleza, banhados por rios tranquilos, constitui um conjunto considerado como
Património da Humanidade.
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Interior da Abadia de Cléry |
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O Loire visto do Castelo de Amboise |
Já aqui escrevi também sobre os Castelos do Loire e,
por isso, não me vou alongar no tema. Queria apenas deixar um bom conselho: se
houver alguma disponibilidade de tempo, explorar para lá dos castelos mais
conhecidos. Castelos como Chambord ou Chenonceau estão sempre a abarrotar de turistas,
despejados de consecutivos autocarros e, por vezes, até se torna incómodo ver
bem os locais no meio de tanta gente.
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Estátua de Joana d'Arc em Orléans |
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Igreja de Notre-Dame-la-Grande, em Poitiers, uma maravilha da arte românica |
Há outros sítios, menos turísticos mas igualmente interessantes
de visitar. Lembro-me, por exemplo, de Chinon, uma pequena cidade, antiga e
pitoresca, nas margens do rio Vienne. As ruas medievais, bem conservadas, sobem
pela colina até à fortaleza, que nos lembra a história de Joana d’Arc. Cidade
natal de Rabelais, é um local agradável, onde apetece perder (ou ganhar…)
tempo.
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Em Chinon, subindo para a fortaleza |
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Estátua de Rabelais, junto ao rio Vienne |
Alguns quilómetros a sul de Chinon, situa-se a pequena
localidade de Richelieu. Não vem mencionada em nenhum guia turístico, mas
merece uma paragem. Integra-se naquilo que foi a grande propriedade doada ao
Cardeal Richelieu pelo rei Luis XIII, em pagamento dos seus serviços. O cardeal
manda construir a cidade de raiz, seguindo o traçado e a estética arquitetónica
do século XVII. Imperam a regularidade e a simetria. A grande rua central é
ladeada de prédios de habitação, todos idênticos, segundo o mesmo plano
neoclássico. A cidade, de plano quadrangular, é rodeada por uma muralha, como
as bastides medievais, e o acesso é
feito através de três portas monumentais. Há uma quarta porta, mas é falsa, só
para manter a simetria!...
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Uma das portas monumentais de Richelieu |
Na praça central não podia faltar o museu, que guarda
as peças artísticas da coleção particular do Cardeal Richelieu.
Continuamos para sul. Tínhamos decidido
parar em Oradour-sur-Glane, para visitar a cidade mártir, mas a experiência é
ainda mais angustiante do que já seria previsível. A pequena cidade de
Oradour-sur-Glane foi destruída por uma divisão militar nazi em 1944, já depois
do desembarque na Normandia. Deslocados do sul de França para a defesa da costa
norte, decidem a destruição da povoação como uma lição aos rebeldes franceses.
Arrebanharam homens, mulheres e crianças, matando-os a tiro ou na igreja que incendiaram. Toda a povoação foi
destruída pelo fogo.
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Oradour-sur-Glane, cidade mártir |
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Há locais assinalados, mas toda a cidade é um local de suplício |
No final da guerra, o General de Gaulle decidiu que a
cidade de Oradour-sur-Glane não seria reconstruída, mantendo-se as suas ruínas
como um testemunho da barbárie e da alucinação. Hoje, passeamos pelas ruas e
vemos os restos daquelas vidas bruscamente cortadas. Aqui, um brinquedo, ali,
um ferro de engomar ou uma máquina de costura. Alguns carros, um trator, tudo
calcinado.
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No meio da vila, passava um elétrico... |
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As ruínas da igreja pedem-nos silêncio e reflexão |
Deixamos para trás estes vestígios de um tempo trágico
e rolamos para o esplendor do vale do rio Dordogne. Considerado Reserva da
Biosfera, é uma paisagem magnífica. A estrada bordeja o rio e atravessa
localidades encantadoras, que sobem pelas colinas coroadas de pequenos
castelos. Ao entardecer, o sol enche o rio e as casas de reflexos dourados.
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O rio Dordogne |
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As pequenas vilas nas margens do rio Dordogne |
O ambiente é de festa. A Volta à França tinha passado
por ali há duas semanas e as ruas e praças ainda estavam engalanadas como para
os Santos Populares. Há carros de feno e bicicletas enfeitados com flores de
papel. Há camisolas do Tour penduradas em cordas de secar a roupa. Há frases de
acolhimento aos corredores. Onde passa o Tour, é uma festa!
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O Tour é uma festa! |
E é neste ambiente festivo que chegamos a Bergerac. É
a nossa última paragem em França, por isso tínhamos preparado uma brincadeira à
volta do seu personagem mais famoso, Cyrano de Bergerac, e do seu famoso nariz.
Os rapazes tinham comprado uns narizes postiços, que colocaram à entrada da
cidade. Do rececionista do hotel até à senhora que nos vendeu uns patês para
trazermos para casa, o sucesso foi estrondoso. Após umas fotografias para
memória futura junto à estátua de Cyrano, de narizes bem erguidos, iniciamos o
regresso a casa.
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A chegada dos forasteiros a Bergerac |
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A estátua do verdadeiro Cyrano de Bergerac |
Dirigimo-nos para os Pirinéus, que cruzamos pela velha
estrada de peregrinação do caminho francês para Santiago de Compostela, por S.
Jean Pied-de-Port e Roncesvales.
Agora, é só rolar rapidamente para casa. Ainda temos
de atravessar Espanha e o seu calor tórrido, mas as boas recordações da viagem
ajudam-nos a passar o tempo.
Para o ano, há mais viagens e mais histórias para
contar.
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