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Entrada no Caminito: primeiro patamar do passadiço |
O Caminito d'El-Rey é um percurso pedestre, localizado nos Montes de Málaga, a norte da cidade. Mas, acima de tudo, é um local de realização pessoal, ou assim eu o senti.
Sendo um percurso linear, que liga as pequenas albufeiras e centrais hidroelétricas de Ardales e El Chorro, tem duas entradas, norte e sul, ambas com bons acessos e parques de estacionamento. No entanto, só se pode aceder ao Caminito pela entrada norte, em Ardales, o que não constitui qualquer problema para quem chega pelo sul, já que há um autocarro que faz serviço de shuttle entre os dois pontos.
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O passadiço segue a levada |
O acesso ao Caminito propriamente dito não é muito evidente: não há grandes cartazes ou indicações e é fácil passar pela entrada sem dar por isso. Há um caminho mais longo, sempre pela margem do rio Guadalhorce, e um atalho, por dentro de um túnel que tem um pequeno letreiro indicativo. Esse túnel é longo e escuro, e pareceu-me mais perigoso do que o passadiço pendurado no desfiladeiro.
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Saída do reservatório de água do Gaitanejo |
O passeio, ao longo do rio, é muito agradável e só perto da central hidroelétrica uma barragem no caminho de terra nos indica que estamos a chegar ao troço mais conhecido e esperado.
Paramos aí. Os nossos bilhetes apontam a hora de entrada, mas temos de esperar por outros caminhantes para que, em pequenos grupos, nos sejam dadas as instruções de segurança: capacetes na cabeça, nada nas mãos. Tudo o que cair do passadiço, lá ficará, é estritamente proibido sair do caminho. Ali, na entrada há umas instalações sanitárias. São de aproveitar, porque no Caminito não se pode comer, nem beber, nem satisfazer qualquer outra necessidade fisiológica.
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Pequena ponte no desfiladeiro de El Tajo de las Palomas |
A propósito de bilhetes, devem comprar-se online, no site do próprio Caminito d'El-Rey, e é melhor comprá-los com bastante antecedência. Quando entrámos, um nosso compatriota que queria entrar também, teve de voltar para trás. É raro haver bilhetes disponíveis no próprio dia.
A partir daquele ponto, entra-se no passadiço que acompanha a levada de água que atravessa os desfiladeiros de Gaitanejos e de los Gaitanes. Inaugurado pelo rei Afonso XIII, em 1921, o passadiço original destinava-se à deslocação dos trabalhadores entre as duas centrais hidroelétricas. O caminho agarra-se às paredes de rocha, verticais e vertiginosas, dos desfiladeiros.
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No desfiladeiro de los Gaitanes |
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Levada e ponte suspensa no desfiladeiro de los Gaitanes |
Não posso deixar de pensar nos trabalhadores que ali passavam, em condições muito menos seguras do que as atuais, assim como nas angústias e desastres que por ali aconteceram e que levaram ao encerramento do caminho, em 2000. De vez em quando, uma placa recorda-nos um desses desastres.
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Em memória de três jovens que aqui perderam a vida |
No espaço de cerca de um quilómetro entre os dois desfiladeiros, há uma casa com um pequeno prado que hoje serve de heliporto e apoio para os caminhantes. De resto, não há vestígios de pessoas, apenas abutres que sobrevoam as rochas, lá no alto.
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Um pequeno vale separa os altos desfiladeiros |
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Dezenas de abutres sobrevoam as escarpas |
Hoje, há por ali alpinistas a desafiar as altas paredes do desfiladeiro. Admiro-lhes a coragem. Escalam aquelas rochas, levantadas e enrugadas ao longo de milhões de anos, como nos recordam os fósseis de amonites que surgem nas paredes, mesmo ao nosso lado.
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O comboio assoma dos túneis que furam as rochas enrugadas por milhões de anos |
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Fóssil de amonite com cerca de 25 cm |
Depois da pequena ponte suspensa, que treme com os nossos passos, o caminho é ainda longo, até El Chorro, mas já é fácil. Passamos junto dos túneis ainda hoje percorridos pelo comboio que liga Málaga a El Chorro, olhamos para o desfiladeiro que se ergue, imponente, atrás de nós, e sentimos um orgulho qualquer, uma sensação de realização pessoal: sim, eu fiz o Caminito d'El-Rey!
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A saída do desfiladeiro: fim do Caminito |
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