sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

As Nações Unidas

No ano de 2008, por razões que se prenderam em partes iguais com o trabalho e com o lazer, visitei as duas sedes das Nações Unidas, a de Genève, na Suiça, e a de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Foram visitas muito interessantes, porque me permitiram compreender melhor o papel da Organização das Nações Unidas no mundo.



(Entrada do Palácio das Nações em Genève. Há sempre aí manifestantes, 
a favor de qualquer causa) 


A sede da organização em Genève tem o nome de Palácio das Nações e foi construída em 1929, para sede da então chamada Sociedade das Nações, fundada após a Primeira Guerra Mundial. Quando a Sociedade das Nações foi dissolvida, o edifício tornou-se a sede da recém-criada Organização das Nações Unidas. É um edifício belíssimo, ao estilo Art Déco dos anos 20, com salas pintadas por grandes artistas da época. 



(Vista sobre o Parque, vendo-se a seta de titânio doada pela URSS)


O jardim, chamado Parc des Nations, foi decorado com esculturas monumentais doadas por vários países, como a grande esfera armilar em bronze, doada pelos Estados Unidos da América, e uma estrutura que se ergue para o céu em forma de seta, revestida de titânio, e que representa a corrida espacial. Foi doada pela então União Soviética. Estas duas esculturas, das maiores do Jardim, representam ao fim e ao cabo uma das maiores dificuldades que esta organização enfrentou, isto é, a Guerra Fria que opôs as duas super potências ao longo da segunda metade do século XX.



(Sala de Conferências em Genève)




(Sala de Conferências em Nova Iorque)


Hoje, todo o edifício é considerado território internacional e tem visitas guiadas em quinze línguas diferentes. Ao longo das salas e corredores, vamos vendo diversas obras doadas por muitos países, assim como exposições que nos alertam para as muitas faces do trabalho das Nações Unidas no mundo, especialmente na manutenção da Paz.




                    
(O trabalho da ONU no mundo)


O edifício de Nova Iorque é totalmente diferente. É a sede principal da Organização das Nações Unidas, fundada após a Segunda Guerra Mundial. Situado na margem do East River, num território doado pelo milionário americano John D. Rockefeller Jr., é um edifício moderno, de linhas direitas. Hoje, é um território internacional, com o seu próprio sistema postal. Destaca-se na entrada do complexo a enorme linha de bandeiras, simbolizando todos os países pertencentes a esta organização.



(O edifício da ONU em Nova Iorque)


Lá dentro, no entanto, a mesma sequência de salas de conferências, muito idênticas às de Genève, os corredores e as salas repletos de quadros e obras-de-arte doados por muitos países-membros.



(Obras de arte no interior do edifício)


Também no jardim se encontram esculturas muito interessantes, quase todas abordando os temas da paz e da amizade internacionais.



(Escultura oferecida pelo Luxemburgo)


São dois edifícios belíssimos, muito diferentes no seu aspecto, mas muito semelhantes na sua organização, e na forma como tentam sensibilizar os seus visitantes para os temas da manutenção da paz e da preocupação com a qualidade de vida deste planeta tão conturbado.



(Um mundo conturbado)


(Fotografias de Teresa e Fernando Ferreira)


sábado, 26 de dezembro de 2009

Rise - Into the Wild

Quem já viu o filme "Into the Wild" compreende o que eu digo: é um hino à viagem . Mas não é uma viagem qualquer, é uma busca de si próprio numa viagem até ao mais inóspito, pouco civilizado, selvagem, quase até ao fim do mundo.
O filme baseia-se num facto real. Um rapaz de uma família rica, bom estudante, no final do seu curso resolve recusar o emprego que o pai já tinha preparado para ele, doa os seus bens para instituições de caridade e parte numa viagem e numa aventura que o vai levar até ao Alasca, mas também numa viagem até ao fundo de si próprio. 
Só aqui coloquei uma das canções, mas toda a banda sonora do filme é bela, inspiradora, e leva-nos um pouco consigo na sua viagem. Vale a pena ver e ouvir.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Açores - 1965

Às vezes, pergunto a mim própria de onde vem este gosto errante que me levaria, se pudesse, a calcorrear o mundo, sempre em busca do que é diferente e genuíno em cada local. Olhando para trás, acredito que esse gosto nasceu numa viagem aos Açores, no ano já longínquo de 1965.
O meu pai adorava viajar. A sua viagem de sonho era a travessia da Ásia no comboio Transiberiano, até Vladivostok. Falava nisso muitas vezes e, embora tenha viajado muito pela Europa, nunca chegou a concretizar esse seu sonho. De vez em quando, metia-nos a todos no carro e partíamos, quase à aventura, pelos caminhos mais inexplorados de Portugal, ou à descoberta das terreolas espanholas mais esquecidas. Sempre sem marcações, ao sabor do momento, um pouco errantes. Mas, naquele ano, fez-nos uma surpresa: um cruzeiro pelos arquipélagos da Madeira e dos Açores.



(Partida da barra do Tejo)


A viagem, em si, já era uma aventura e foi memorável. Embarcámos no velho navio Carvalho Araújo, que fazia transporte de pessoas mas também de mercadorias. Tudo para mim era uma novidade, começando pelas refeições servidas a bordo, na grande sala que também servia de sala de estar entre as refeições, e e onde os homens se entretinham a jogar e as senhoras a conversar. Como havia poucas crianças a bordo, os criados eram uma simpatia e passavam o tempo a dar-me gulodices o que, provavelmente, me impediu de enjoar durante as tempestades que suportámos no caminho até à Madeira.
Passava horas na amurada do navio, a ver os peixes que saltavam ao lado do barco, ou simplesmente a apreciar as voltas que a água dava.
Mas a minha grande descoberta e o meu grande fascínio, foram as ilhas dos Açores. A viagem durava dezoito dias e o navio parava em todas as ilhas. Isto é, com excepção de S. Miguel, parava ao largo e depois éramos transportados em barquinhos pequenos até às ilhas, já que aí só existiam embarcadouros para barcos de pesca.



(Eu, num jardim da ilha de S. Jorge)


As ilhas eram belíssimas, mas com a beleza dura e agreste da natureza pura. Recordo-me bem das estufas de ananazes e das estradas bordejadas de hortênsias da ilha de S. Miguel, ou da moderna Base Aérea das Lages, na ilha Terceira, onde me lembro de ir almoçar.



(Vista da Lagoa das Sete Cidades, em S. Miguel)


Mas houve outros locais que me marcaram bem mais. Lembro-me do taxista que nos foi mostrar o local onde o Vulcão dos Capelinhos tinha feito surgir nova terra de um dia para o outro, prolongando a ilha tão verde num promontório ainda negro de lava arrefecida. Recordo o pequeno aeródromo da ilha de Santa Maria, com tão pouco tráfego aéreo que as vacas por lá pastavam tranquilamente, o que lhe tinha valido o epíteto de “aerovacas”. Volto a sentir a sensação incrível de descer, num cesto de verga preso por uma corda, o enorme buraco do Caldeirão da Graciosa.



(A nova terra negra, criada pelo vulcão dos Capelinhos)


Mas, mais do que qualquer outra, lembro a pequena ilha do Corvo. A mais ocidental e mais longínqua das ilhas dos Açores, muitas vezes isolada meses a fio devido ao estado do mar, recebia em festa o barco que chegava ao largo: era o dia de S. Vapor. Todos os habitantes se vestiam com os seus melhores fatos, muitas mulheres de negro, e desciam até ao pequeno ancoradouro, dimensionado para os barcos de pesca e os baleeiros. 



(Chegada ao Corvo)


No dia em que chegámos, tinham apanhado uma baleia. Tinha sido trazida até ao pequeno porto e ali estava ainda, deitada de lado, maior do que os barcos. O mar estava vermelho do sangue do majestoso animal, mas ninguém parecia prestar atenção, concentrados nos pequenos barquitos que chegavam. Ali, naqueles pequenos barcos, chegava o correio e as encomendas, gente de fora (poucos!), gente do Corvo que regressava do Continente (alguns!), enfim, chegava o Mundo!
Eu tinha estado doente nos últimos dois dias, com uma gastroenterite, e estava debilitada. O meu pai pagou a um homem, no porto, para me levar às costas até ao Caldeirão do Corvo, a belíssima lagoa vulcânica no centro da ilha, enquanto o resto do grupo ia a pé. No caminho, o homem deu um pontapé numa pedra, feriu um dedo, mas não parou nem disse nada, para minha grande aflição, ali bem instalada às suas cavalitas.



(O nosso navio, ao largo da ilha do Corvo)


Já voltei aos Açores. Os caminhos continuam bordejados por hortênsias, e a natureza continua esplendorosa e autêntica. Em quase tudo o mais, felizmente, a diferença é grande. No entanto, as impressões daquela minha primeira viagem nunca se apagaram.
Há quem diga que só as grandes viagens valem a pena, porque nos confrontamos realmente com o Outro, com um mundo diferente do nosso. Para mim, uma miúda de seis anos de Lisboa, aquelas pessoas vestidas de festa à espera de um barco que nunca se sabia quando chegava, à beira de um mar vermelho de sangue, eram verdadeiramente o Outro, com um mundo inteiro a separar-nos.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Central Park




Dizem que o Central Park é o jardim das traseiras dos nova-iorquinos. E, na verdade, os nova-iorquinos usam-no como se do seu próprio jardim se tratasse. Ocupa um espaço imenso, no centro da ilha de Manhattan, e constitui um verdadeiro pulmão da cidade. Confesso que não consegui visitar todo o parque. Podia ter alugado uma charrete puxada por um cavalo, ou um daqueles riquexós, puxados por um rapaz de bicicleta, que por ali abundam, em todas as entradas do parque. Mas tenho a mania de ser diferente, gosto de saborear os sítios devagar, sentar-me na relva, observar as pessoas, parar a ouvir um músico ou a apreciar um espectáculo de rua. Qual é o resultado? Estive três vezes no Central Park, conheço cerca de metade do parque.





É um parque diferente, porque tem imensas valências diferentes. Como se tivesse de agradar a toda essa população, tão múltipla e diversa, da cidade de Nova Iorque. Como se quisesse oferecer um espaço do seu agrado a cada habitante da cidade.



Há os restaurantes, com e sem esplanada exterior. Há recintos de espectáculos, e até um teatro. Mas, acima de tudo, há um espaço imenso que cada um usa a seu belo-prazer.





No enorme relvado central, que eles chamam carinhosamente pastagem, apanha-se sol nos dias de sol, patina-se nos dias frios de Inverno.





Há lagos para os que gostam de remar e lagos para os que gostam de fazer corridas com os modelos de barquinhos à escala.







Há cinco campos de basebol, onde os nova-iorquinos vão jogar, equipados a preceito segundo o clube da sua eleição, com a possibilidade adicional de contratar árbitro no próprio local. 





Há imensas estátuas que convidam à interacção com quem passa, como a que representa o mundo fantasioso de Alice e dos companheiros do seu país das maravilhas. Há pontes, fontes e recantos onde nos podemos sentar e perder.




Há loucos que falam sozinhos e crianças que dão bagos de uva aos esquilos. E, por todo o lado, há música. Encontram-se músicos, sós ou em pequenos grupos, a tocar por todo o parque. Os instrumentos são os mais variados, desde a flauta ao violoncelo, à guitarra, à percussão. No local onde se recorda John Lennon, à vista do prédio onde habitava, um conjunto quase tão idoso como os próprios Beatles rememora as velhas canções que todos conhecemos e cantámos. São os Strawberry fields, criados por Yoko Ono, com o seu pequeno espaço central Imagine.





Há espaço para tudo. É um mundo dentro desse outro mundo que é Nova-Iorque. Mas fico com a impressão que é necessário vaguear pelo Central Park para entender a própria cidade.


(Fotografias de Teresa e Fernando Ferreira)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

As luzes de Manhattan

Às vezes, numa viagem, o que é mais interessante e saboroso é o que não estava previsto. São aquelas coisas que acontecem ao sabor do acaso e que, no entanto, se gravam em nós para sempre.
Era o início da tarde e deambulávamos, um pouco ao acaso, sem destino certo, pela Baixa de Nova Iorque, o que os nova-iorquinos chamam downtown. Ao fundo de Battery Park, entre os cais, os barcos, os heliportos, destaca-se o enorme edifício da estação fluvial de Staten Island. Dali partem os barcos que atravessam toda a baía de Nova Iorque, até Staten Island, e tinham-nos dito que valia a pena o passeio, até porque é totalmente gratuito.





Entramos na estação e olhamos em volta, para procurar informações de horários, etc. A um canto, numa secretária, estava sentado um homem gordo, de óculos, com uma camisa branca. Estava calor e o homem suava abundantemente, tirando constantemente os óculos e limpando a cara com um grande lenço branco. Dirigimo-nos para ele. Pareceu instantaneamente esquecer o calor e ficar muito feliz por poder ajudar. Explicou que não era um funcionário da estação, mas que fazia trabalho voluntário. Deu-nos folhetos de Staten Island e das outras ilhas da baía e aconselhou-nos: “Vão para lá quando quiserem, mas regressem no barco das oito da noite!” Foi até insistente: “Não é o das sete ou das nove, tem de ser no das oito horas da noite. Vão ver que vale a pena!”





Decidimos seguir os conselhos do homem e embarcámos para Staten Island. O passeio é mesmo bonito, e o barco ía cheio de turistas. Quando chegámos à ilha, a maioria dos turistas deu meia-volta e entrou pela outra porta, para regressar a Nova Iorque no barco seguinte. Nós seguimos os habitantes da ilha na direcção dos autocarros, no regresso a casa. Demos uma volta à ilha de autocarro, parámos na praia a apreciar a Verazzano Narrows Bridge (cujo nome recorda o primeiro europeu a chagar à Baía de Nova Iorque, o italiano Giovanni da Verazzano) e regressámos à estação a tempo de apanhar o barco das oito.





Atravessámos a baía com o sol a esconder-se no horizonte. Quando passámos pela Estátua da Liberdade, o céu explodia em roxos, vermelhos e laranjas, e as ilhas da baía afundavam-se no azul acinzentado.





Avançávamos na direcção de Manhattan, quando as luzes da cidade se começaram a acender. Primeiro, duas ou três luzes aqui, meia dúzia noutro lado; depois, os edifícios e arranha-céus começaram a iluminar-se, os cais e a Ponte de Brooklyn encheram-se gradualmente de luzes, cada vez mais, até que, quando atracámos, toda a Baixa de Manhattan parecia um enorme presépio, excessivo de cor, despudorado de luz.





Tinha passado quase toda a viagem encostada à amurada do barco, em silêncio, a beber com os olhos aquele espectáculo inesquecível. Quando saí do barco e entrei na estação, quase corri para a secretária para agradecer as indicações que nos tinham sido dadas. Mas a secretária estava vazia. Senti-me como se alguma entidade superior me tivesse enviado informações confidenciais e preciosas. E agradeci do coração!


(Fotografias de Teresa e Fernando Ferreira)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Nova Iorque multicultural


Um dos traços distintivos e interessantes de Nova Iorque é a sua multiculturalidade. Não é preciso ir a Ellis Island, ao seu Memorial ao Emigrante, para nos apercebermos que estamos perante uma sociedadee colorida e múltipla, onde cada um traça o seu caminho. Os tons de pele são as marcas visíveis das culturas que por ali se cruzaram e enraizaram, desde que, no século XVII, os holandeses compraram aos Índios a ilha a que chamamos hoje Manhattan, para aí estabelecerem uma feitoria. Holandeses e ingleses são os primeiros senhores da ilha e marcaram-na indelevelmente, nos edifícios e nos parques, nos desportos e na organização administrativa. Encontramos a sua memória na Trinity Church e nas campas centenárias que a rodeiam e que escaparam miraculosamente à destruição de 11 de Setembro.



      (Cemitério junto de Trinity Church)                        (Ao fundo de Wall Street,Trinity Church) 
Depois, começaram a chegar os imigrantes dos países católicos, mais pobres, do sul da Europa, particularmente irlandeses e italianos. Os irlandeses constituíram uma comunidade forte, que se organizou e cresceu economicamente. Foi com o seu apoio que foi construída a mais rica igreja de Nova Iorque, a Catedral de St. Patrick. Já os italianos aglomeraram-se na zona de Little Italy. Hoje estão plenamente integrados na sociedade americana e Little Italy é um local turístico, cheio de restaurantes italianos e lojas de recordações.

          (A rua principal de Little Italy)                        (Numa loja de recordações...)
Uma das comunidades americanas mais antigas é, evidentemente, a comunidade negra. Descendentes dos antigos escravos ou de imigrantes africanos, têm deixado uma marca importante na cultura americana. O seu talento natural para a música faz com que os encontremos frequentemente, em grupo ou sozinhos, nas ruas de Nova Iorque; muitas vezes cantam fazendo várias vozes e ritmos, em espectáculos inesquecíveis. Quando procurava os vestígios dessas vozes no Harlem (a casa de Billie Holiday, a Abyssinian Church), caímos sem saber no meio de um enorme festival, com vozes magníficas a ecoarem em vários palcos simultâneos. Foi uma tarde que dificilmente esqueceremos.



                            (Fazendo música, frente ao MET)                               (Festival no Harlem)


Também há, evidentemente, Chinatown. Uma visita a Nova Iorque não fica completa sem um passeio por Chinatown. É um espaço estranhíssimo, onde encontramos a vivência dos bairros orientais com todos os símbolos da cultura americana. Tudo está escrito em chinês e, ao contrário de Little Italy, nota-se que ainda é um espaço vivido.

(Chinatown)


A migração mais recente é a dos países hispânicos sul-americanos. Mexicanos, porto-riquenhos, colombianos, encontram-se um pouco por todo o lado e distinguem-se pela língua, pela pele morena, mas, principalmente, pela maneira de ser alegre e calorosa. Predominam nos cafés “Starbucks” e nas lojas de comida abertas 24 horas, e recebem-nos como se fossemos conhecidos de longa data.



(Starbucks Coffee shop)


Creio sinceramente que é esta diversidade que faz a riqueza dos Estados Unidos da América, um país onde cada pessoa sente o desafio de traçar o seu próprio destino.


(Fotografias de Teresa e Fernando Ferreira)

sábado, 14 de novembro de 2009

Museu da Acrópole - Um Museu transparente



(Vista Lateral do Novo Museu da Acrópole)

Quando o governo grego decidiu construir o Novo Museu da Acrópole, fez exigências quase impossíveis de cumprir: o Museu não podia tapar as escavações arqueológicas sobre as quais ía ser construído; de qualquer ponto do Museu deveria ser possível avistar a Acrópole, em relação à qual devia servir de espelho, ou de apoio, ou de contraponto. 

(A entrada do Museu)

Face a estas exigências, o arquitecto concebeu uma solução original: fez um museu transparente. Logo à entrada, começamos a caminhar sobre um vidro grosso, sobre as escavações de casas e ruas da velha Atenas. Após os torniquetes de entrada, começamos a subir por uma leve rampa, como se subissemos para a Acrópole. Nas paredes, perfilam-se os achados arquelógicos. Caminhamos sobre vidro, mas a sensação de leveza é ainda aumentada, porque todo o hall do primeiro andar é também de vidro. Portanto, caminhamos entre transparências. 

(A Sala das Imagens)

No primeiro andar, a sala das imagens transporta-nos para o espaço livre da Acrópole, com as suas estátuas votivas e evocativas. As Cariátides contemplam-nos, com a sua beleza tranquila. Só aqui, andando à volta destas belas mulheres, me apercebo de que são todas diferentes umas das outras: o modo como o cabelo está entrançado, as pregas do vestuário, a posição das pernas, não é igual. Estão aqui as estátuas originais - as que estão no templo, no Erecteion, são réplicas - excepto a mais bem conservada, que foi levada para o Museu Britânico.

(As Cariátides originais)

No piso superior, espera-nos a maior surpresa: num paralelipípedo de paredes de vidro, ligeiramente deslocado em relação ao resto do edifício, paralelo ao seu modelo verdadeiro, uma reconstituição dos espaços escultóricos do Partenon. As colunas não estão presentes, mas podemos rodear aquele espaço observando o belo friso das Panateneias, os frontões, os quadros esculpidos integrados na arquitrave. Tudo o que não existe ou desapareceu, está reconstituído com uma massa de gesso branca.
Creio que só aqui nos apercebemos da sua real dimensão. Também só agora nos apercebemos da extensão de elementos ausentes. Sabemos que a maior parte do friso se encontra no British Museum, para onde foi levada no século XIX por Lord Elgin. Para quando a sua devolução ao povo grego? Que desculpa pode ainda dar a Inglaterra para a sua falta de boa-vontade?
Espero que um dia estes belos frisos e frontões estejam inteiros e este espaço possa completar integralmente o velho templo, que o contempla do outro lado do vidro.
(O Novo Museu da Acrópole visto do Partenon)