sábado, 14 de novembro de 2009

Museu da Acrópole - Um Museu transparente



(Vista Lateral do Novo Museu da Acrópole)

Quando o governo grego decidiu construir o Novo Museu da Acrópole, fez exigências quase impossíveis de cumprir: o Museu não podia tapar as escavações arqueológicas sobre as quais ía ser construído; de qualquer ponto do Museu deveria ser possível avistar a Acrópole, em relação à qual devia servir de espelho, ou de apoio, ou de contraponto. 

(A entrada do Museu)

Face a estas exigências, o arquitecto concebeu uma solução original: fez um museu transparente. Logo à entrada, começamos a caminhar sobre um vidro grosso, sobre as escavações de casas e ruas da velha Atenas. Após os torniquetes de entrada, começamos a subir por uma leve rampa, como se subissemos para a Acrópole. Nas paredes, perfilam-se os achados arquelógicos. Caminhamos sobre vidro, mas a sensação de leveza é ainda aumentada, porque todo o hall do primeiro andar é também de vidro. Portanto, caminhamos entre transparências. 

(A Sala das Imagens)

No primeiro andar, a sala das imagens transporta-nos para o espaço livre da Acrópole, com as suas estátuas votivas e evocativas. As Cariátides contemplam-nos, com a sua beleza tranquila. Só aqui, andando à volta destas belas mulheres, me apercebo de que são todas diferentes umas das outras: o modo como o cabelo está entrançado, as pregas do vestuário, a posição das pernas, não é igual. Estão aqui as estátuas originais - as que estão no templo, no Erecteion, são réplicas - excepto a mais bem conservada, que foi levada para o Museu Britânico.

(As Cariátides originais)

No piso superior, espera-nos a maior surpresa: num paralelipípedo de paredes de vidro, ligeiramente deslocado em relação ao resto do edifício, paralelo ao seu modelo verdadeiro, uma reconstituição dos espaços escultóricos do Partenon. As colunas não estão presentes, mas podemos rodear aquele espaço observando o belo friso das Panateneias, os frontões, os quadros esculpidos integrados na arquitrave. Tudo o que não existe ou desapareceu, está reconstituído com uma massa de gesso branca.
Creio que só aqui nos apercebemos da sua real dimensão. Também só agora nos apercebemos da extensão de elementos ausentes. Sabemos que a maior parte do friso se encontra no British Museum, para onde foi levada no século XIX por Lord Elgin. Para quando a sua devolução ao povo grego? Que desculpa pode ainda dar a Inglaterra para a sua falta de boa-vontade?
Espero que um dia estes belos frisos e frontões estejam inteiros e este espaço possa completar integralmente o velho templo, que o contempla do outro lado do vidro.
(O Novo Museu da Acrópole visto do Partenon)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Postcards from Italy

Tal como prometi, aqui está mais uma canção que nos faz viajar. Desta vez, é uma canção dos Beirut, um grupo americano, que nos traz uma sonoridade das pequenas vilas francesas ou italianas, por onde o vocalista passeou e de onde trouxe influências sonoras e culturais. O video é delicioso, e faz-nos recuar até às férias da nossa infância, com os filmes de qualidade duvidosa e as imagens ingénuas dos nossos videos caseiros.



sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A Residência dos Reis da Baviera - Recomeçar quase do nada

(Uma das fachadas exteriores da Residência)
É o maior palácio urbano da Alemanha e foi aqui a residência dos duques e depois Reis da Baviera entre 1385 e 1918, ano em que é transformado num Museu. Só por isto merecia uma referência. 

(Quarto Real)
Situado em Munique, o exterior é clássico; já o interior, é marcado pela exuberância decorativa das muitas salas de aparato do período barroco. São visitáveis 10 pátios e 130 salas, que constituem hoje o Museu de Decoração de Interiores de Munique. Abriga ainda a Sala de Tesouros Reais, uma Sala de Concertos e o Teatro Cuvilliés.

(Salão das Miniaturas)
As salas são belíssimas, desde o velho Salão de Baile, hoje chamado Antikuarium, até aos aposentos reais de decoração barroca e rococó, passando por inúmeras salas que albergam autênticos tesouros decorativos, como a Sala das Porcelanas e a Sala das Miniaturas.

(Fonte das Conchas)
No exterior, o Jardim convida a um repouso, junto ao pequeno templo de Diana ou à Fonte das Conchas.
(Um dos pátios interiores)

No entanto, confesso que o me mais me impressionou neste palácio, foi a sua história de reconstrução. Destruído, quase completamente, durante a Segunda Guerra Mundial, sofreu um processo de reconstrução ambicioso, rigoroso, pormenorizado, que não é escondido do visitante. Há uma sala em que são mostradas fotografias das várias salas do palácio, tal como se encontravam em 1945.
(Fotografias da reconstrução)
Ficamos a saber do modo como foram preservados o mobiliário e alguma da decoração, acompanhamos o processo de recuperação minuciosa. Percebemos o que se perdeu definitivamente e o muito que se conseguiu reconstruir, graças a imagens pré-existentes, pedaços remanescentes e uma grande persistência. E ficamos seguramente a apreciar muito mais o palácio que estamos a visitar.

(O Antikuarium)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Grécia - O mar e a montanha

O que primeiro me cativou foi o azul incrivelmente azul do mar. Um azul de pintura, forte, quase infantil. Depois, as montanhas. As montanhas sucedem-se, num multiplicar de planos quase cinematográfico.

Cada ilha grega é isto, mar e montanha. Aqui em Aegina, amontoadas à beira-mar, as casinhas brancas e ocre dão o toque humano à paisagem. Os pinheiros avançam até à água e as buganvílias espalham manchas coloridas pelas encostas.

Do terraço frente ao meu quarto vejo o mar, com o seu azul infantil, outras ilhas mais pequenas, frente a Aegina, até à costa montanhosa do Peloponeso.


Os barcos atravessam vagarosamente este mar que parece uma baía de águas calmas, e os pequenos navios da Hellenic Seaways cruzam-no mais ligeiros, ligando Aegina ao porto do Pireus.


Num dos pontos mais altos da ilha, há um templo dórico, ainda mais antigo do que o Partenon: o Templo de Aphaea. É um templo muito bonito, pequeno e equilibrado. As suas belas colunas foram construídas com pedras tão perfeitamente ligadas que parecem feitas de um só bloco. Ainda hoje conseguimos apreciar a sua estrutura interna, embora as peças esculpidas tenham sido retiradas e levadas para Berlim, no século XIX.


Tem uma história que se enraíza na velha mitologia grega e que é quase tão bonita como o próprio templo. O rei Minos, de Creta, apaixonou-se pela donzela Britomaris, que era filha de Zeus e protegida por Artemísia. Para fugir a Minos, a donzela atirou-se ao mar. Foi apanhada nas redes dos pescadores de Aegina e trazida novamente para terra. 


Conseguiu, porém, fugir para a montanha e não voltou a ser vista. Por isso, o templo que lhe foi dedicado chama-se Aphaea, isto é, a Invisível.


Do cimo do monte, avista-se um panorama incrível. Dizem que, deste ponto, as mulheres de Aegina assistiram à batalha naval de Salamina, onde os seus maridos combatiam. Hoje, pelo contrário, o cenário que se avista é da mais profunda paz.


Não sei se há paraíso na Terra, mas toda esta envolvência me parece tão irreal, que sou levada a crer que sim. Podia apostar que Calypso dormia aqui mesmo ao lado.


(Fotografias de Teresa Ferreira)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

The City of New Orleans

Algumas canções conseguem captar o espírito da viagem e do viajante. Agora que o inverno está a chegar, decidi pôr aqui algumas dessas canções, para nos inspirarem e transportarem durante os dias frios e chuvosos. 
A primeira é de Willie Nelson, já velhinha, e fala de uma viagem de comboio em New Orleans. A viagem de comboio é talvez a mais atraente para um viajante curioso: o mundo que passa na janela, a observação dos colegas de viagem, o lanche embrulhado num papel pardo, o jogo de cartas com os vizinhos do compartimento... Esta canção fala de tudo isto. Vale mesmo a pena ver o video.
Esta viagem não é minha. Mas bem podia ser!...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

As velhas pedras da Acrópole de Atenas


(Templo de Hefesto)
Atenas é uma cidade confusa e suja, que cresceu imenso a partir da independência grega, em 1821. Não teria nada de especial que a recomendasse, não fora o facto de ali ter nascido, há cerca de 25 séculos, a civilização europeia tal como a entendemos. A partir daqui, expandiram-se os conceitos de antropocentrismo, democracia, ou juízo crítico.
Como uma coroa, bem visível no centro da cidade, a Acrópole e o que resta dos seus templos. Ao longo dos séculos, sofreu bombardeamentos e explosões, muitos tiraram dali pedras para as suas próprias construções, e bem sabemos como o Museu Britânico conseguiu as inúmeras peças que expõe da arte clássica grega. Aproveitando os Jogos Olímpicos, a cidade modernizou-se e criou, por exemplo, o belo circuito pedestre que circunda a Acrópole.

(Vista da Acrópole)
Confesso que me faltam as palavras para falar da Acrópole de Atenas. Compreendo que haja pessoas que olham para ali como para um monte de pedras velhas. "O que é que isto tem de especial?" Há que explicar-lhes que o que tem de especial é a sua absoluta perfeição. Vejamos o velho Partenon. Foi construído no século V a. C. A ideia era fazer um templo absolutamente recto e geométrico, nem demasiado pequeno - para agradar à sua deusa Atena - nem demasiado grande, para ser à medida do homem. Só que os atenienses percebiam o que eram ilusões ópticas e sabiam que, para parecer absolutamente direito, tinha de ser construído ligeiramente inclinado. Cada pedra, cada coluna, tem uma inclinação precisa, de que não nos apercebemos à vista desarmada. Se fosse hoje, todos os cálculos seriam feitos por computador. Há 25 séculos, custa-nos a imaginar a capacidade intelectual e a mestria que possibilitou aquela obra. Ictinus fez os planos, Calístrates superintendeu a obra, como uma equipa de arquitectura e engenharia da actualidade.

(Partenon - Templo de Atena)
Pensamos nas esculturas dos frontões e arquitraves, que nos falam das belas histórias da mitologia grega. Acrescentemos apenas as figuras esculpidas por Fídias no friso que representa a Grande Procissão anual das Festas Panatenaicas e que atingiram um nível de naturalismo só igualado dois mil anos depois e criaram um modelo de beleza clássica nunca ultrapassado. Será que ainda se pode pensar que é apenas um monte de pedras velhas?

(Erecteion - Balcão das Cariátides)
Como todos os locais, a Acrópole de Atenas tem várias camadas de História. Visitei-a, por acaso, no dia 12 de Outubro, e deparei-me com uma cerimónia comemorativa de outro 12 de Outubro, durante a 2.ª Guerra Mundial.

(Cerimónia militar comemorativa)
Estando a Grécia ocupada pelas tropas do Eixo, flutuava sobre a Acrópole a bandeira com a cruz suástica. Dois resistentes, aproveitando os túneis que só os atenienses conheciam, trocaram, uma noite, a bandeira cam a suástica pela bandeira grega. Os resistentes não foram apanhados e são ainda hoje homenageados numa cerimónia oficial a que tivemos a sorte de assistir. E a bandeira grega foi novamente hasteada na Acrópole, numa afirmação repetida de liberdade e democracia.

(Preparando o hastear da bandeira)

(Fotografias de Teresa Ferreira)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Israel: uma teia de culturas


No norte de Israel, mesmo junto ao Mar Mediterrâneo e à fronteira com o Líbano, há um promontório que avança sobre o mar. É constituído por pedra de grês, semeada de pequenos pedaços de sílex, o que lhe dá um aspecto de claras batidas em castelo com pedacinhos de chocolate. Naquelas rochas facilmente moldáveis pelo mar e pelo vento, nidificam várias aves e tartarugas, e formou-se um conjunto de grutas e túneis onde a água bate e redemoinha,e a luz cria reflexos e tonalidades inesperadas. Esse promontório é Rosh Ha-nikra.

O promontório de Rosh Ha-nikra

Apesar de ser um sítio belíssimo, não se vêem muitos turistas, talvez por ser um local de fronteira, problemático e altamente vigiado. No cume do monte, há guaritas, e barcos de guerra israelitas patrulham o mar. Mas vamos abstrair-nos disso, enquanto o mais curto e íngreme funicular do mundo nos deixa à entrada das grutas. Há uma lenda, claro, de uma princesa turca que, transportada por aqui a caminho de um casamento forçado em Tiro, se atirou das rochas e, agora, continua a fazer ouvir os seus choros e lamentos nas reentrâncias das rochas.

No mais pequeno funicular do mundo

Não consigo ouvir os seus lamentos mas, enquanto aprecio os reflexos da luz na água revolta, penso nos lamentos de muitas outras populações que aqui se confrontaram, ao longo dos séculos. Ainda se podem ver os restos de um túnel para caminho-de-ferro aberto pelos colonizadores britânicos e feito explodir pelos resistentes judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Espero que os confrontos humanos não acabem por destruir esta maravilha da Natureza, que não tem culpa de existir junto a uma das fronteiras mais instáveis do mundo.

Os locais de nidificação

À medida que descemos, junto à costa, vamos entrando na Israel da modernidade.
S. João de Acre (ou Akko) é já uma cidade diferente, habitada essencialmente por Árabes, mas que se mostra como uma encruzilhada de povos e culturas. Aí, são os complexos conjuntos monumentais dos Cavaleiros Hospitalários, construídos durante as Cruzadas, que dominam a paisagem da cidade, lado a lado com as mesquitas e os banhos sumptuosos construídos pelos Turcos. Continuando para Sul, entramos em Haifa, com o seu porto movimentado e os seus jardins tranquilos.

O porto de Haifa visto dos Jardins Baha'i

Depois, surge Telavive. A capital económica de Israel é uma cidade vibrante de vida. A avenida marginal faz lembrar Copacabana, com os seus grandes prédios, modernos, de um lado, e a longa praia do outro lado. Abundam os bares de praia, as banhistas atravessam a avenida em trajes de praia, coloridos e reduzidos, e qualquer semelhança com Jerusalém é pura coincidência.

Avenida marginal de Telavive

Ao fim e ao cabo, é isto Israel: uma complexa teia de culturas e modos de viver, em que todos os grupos consideram que têm direito ao seu espaço. E têm, claro! E têm o dever de aceitar os outros, para poderem também eles ser aceites.

Israel, Julho / Agosto de 2009 (Fotografias de Teresa Ferreira)