quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Grécia - O mar e a montanha

O que primeiro me cativou foi o azul incrivelmente azul do mar. Um azul de pintura, forte, quase infantil. Depois, as montanhas. As montanhas sucedem-se, num multiplicar de planos quase cinematográfico.

Cada ilha grega é isto, mar e montanha. Aqui em Aegina, amontoadas à beira-mar, as casinhas brancas e ocre dão o toque humano à paisagem. Os pinheiros avançam até à água e as buganvílias espalham manchas coloridas pelas encostas.

Do terraço frente ao meu quarto vejo o mar, com o seu azul infantil, outras ilhas mais pequenas, frente a Aegina, até à costa montanhosa do Peloponeso.


Os barcos atravessam vagarosamente este mar que parece uma baía de águas calmas, e os pequenos navios da Hellenic Seaways cruzam-no mais ligeiros, ligando Aegina ao porto do Pireus.


Num dos pontos mais altos da ilha, há um templo dórico, ainda mais antigo do que o Partenon: o Templo de Aphaea. É um templo muito bonito, pequeno e equilibrado. As suas belas colunas foram construídas com pedras tão perfeitamente ligadas que parecem feitas de um só bloco. Ainda hoje conseguimos apreciar a sua estrutura interna, embora as peças esculpidas tenham sido retiradas e levadas para Berlim, no século XIX.


Tem uma história que se enraíza na velha mitologia grega e que é quase tão bonita como o próprio templo. O rei Minos, de Creta, apaixonou-se pela donzela Britomaris, que era filha de Zeus e protegida por Artemísia. Para fugir a Minos, a donzela atirou-se ao mar. Foi apanhada nas redes dos pescadores de Aegina e trazida novamente para terra. 


Conseguiu, porém, fugir para a montanha e não voltou a ser vista. Por isso, o templo que lhe foi dedicado chama-se Aphaea, isto é, a Invisível.


Do cimo do monte, avista-se um panorama incrível. Dizem que, deste ponto, as mulheres de Aegina assistiram à batalha naval de Salamina, onde os seus maridos combatiam. Hoje, pelo contrário, o cenário que se avista é da mais profunda paz.


Não sei se há paraíso na Terra, mas toda esta envolvência me parece tão irreal, que sou levada a crer que sim. Podia apostar que Calypso dormia aqui mesmo ao lado.


(Fotografias de Teresa Ferreira)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

The City of New Orleans

Algumas canções conseguem captar o espírito da viagem e do viajante. Agora que o inverno está a chegar, decidi pôr aqui algumas dessas canções, para nos inspirarem e transportarem durante os dias frios e chuvosos. 
A primeira é de Willie Nelson, já velhinha, e fala de uma viagem de comboio em New Orleans. A viagem de comboio é talvez a mais atraente para um viajante curioso: o mundo que passa na janela, a observação dos colegas de viagem, o lanche embrulhado num papel pardo, o jogo de cartas com os vizinhos do compartimento... Esta canção fala de tudo isto. Vale mesmo a pena ver o video.
Esta viagem não é minha. Mas bem podia ser!...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

As velhas pedras da Acrópole de Atenas


(Templo de Hefesto)
Atenas é uma cidade confusa e suja, que cresceu imenso a partir da independência grega, em 1821. Não teria nada de especial que a recomendasse, não fora o facto de ali ter nascido, há cerca de 25 séculos, a civilização europeia tal como a entendemos. A partir daqui, expandiram-se os conceitos de antropocentrismo, democracia, ou juízo crítico.
Como uma coroa, bem visível no centro da cidade, a Acrópole e o que resta dos seus templos. Ao longo dos séculos, sofreu bombardeamentos e explosões, muitos tiraram dali pedras para as suas próprias construções, e bem sabemos como o Museu Britânico conseguiu as inúmeras peças que expõe da arte clássica grega. Aproveitando os Jogos Olímpicos, a cidade modernizou-se e criou, por exemplo, o belo circuito pedestre que circunda a Acrópole.

(Vista da Acrópole)
Confesso que me faltam as palavras para falar da Acrópole de Atenas. Compreendo que haja pessoas que olham para ali como para um monte de pedras velhas. "O que é que isto tem de especial?" Há que explicar-lhes que o que tem de especial é a sua absoluta perfeição. Vejamos o velho Partenon. Foi construído no século V a. C. A ideia era fazer um templo absolutamente recto e geométrico, nem demasiado pequeno - para agradar à sua deusa Atena - nem demasiado grande, para ser à medida do homem. Só que os atenienses percebiam o que eram ilusões ópticas e sabiam que, para parecer absolutamente direito, tinha de ser construído ligeiramente inclinado. Cada pedra, cada coluna, tem uma inclinação precisa, de que não nos apercebemos à vista desarmada. Se fosse hoje, todos os cálculos seriam feitos por computador. Há 25 séculos, custa-nos a imaginar a capacidade intelectual e a mestria que possibilitou aquela obra. Ictinus fez os planos, Calístrates superintendeu a obra, como uma equipa de arquitectura e engenharia da actualidade.

(Partenon - Templo de Atena)
Pensamos nas esculturas dos frontões e arquitraves, que nos falam das belas histórias da mitologia grega. Acrescentemos apenas as figuras esculpidas por Fídias no friso que representa a Grande Procissão anual das Festas Panatenaicas e que atingiram um nível de naturalismo só igualado dois mil anos depois e criaram um modelo de beleza clássica nunca ultrapassado. Será que ainda se pode pensar que é apenas um monte de pedras velhas?

(Erecteion - Balcão das Cariátides)
Como todos os locais, a Acrópole de Atenas tem várias camadas de História. Visitei-a, por acaso, no dia 12 de Outubro, e deparei-me com uma cerimónia comemorativa de outro 12 de Outubro, durante a 2.ª Guerra Mundial.

(Cerimónia militar comemorativa)
Estando a Grécia ocupada pelas tropas do Eixo, flutuava sobre a Acrópole a bandeira com a cruz suástica. Dois resistentes, aproveitando os túneis que só os atenienses conheciam, trocaram, uma noite, a bandeira cam a suástica pela bandeira grega. Os resistentes não foram apanhados e são ainda hoje homenageados numa cerimónia oficial a que tivemos a sorte de assistir. E a bandeira grega foi novamente hasteada na Acrópole, numa afirmação repetida de liberdade e democracia.

(Preparando o hastear da bandeira)

(Fotografias de Teresa Ferreira)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Israel: uma teia de culturas


No norte de Israel, mesmo junto ao Mar Mediterrâneo e à fronteira com o Líbano, há um promontório que avança sobre o mar. É constituído por pedra de grês, semeada de pequenos pedaços de sílex, o que lhe dá um aspecto de claras batidas em castelo com pedacinhos de chocolate. Naquelas rochas facilmente moldáveis pelo mar e pelo vento, nidificam várias aves e tartarugas, e formou-se um conjunto de grutas e túneis onde a água bate e redemoinha,e a luz cria reflexos e tonalidades inesperadas. Esse promontório é Rosh Ha-nikra.

O promontório de Rosh Ha-nikra

Apesar de ser um sítio belíssimo, não se vêem muitos turistas, talvez por ser um local de fronteira, problemático e altamente vigiado. No cume do monte, há guaritas, e barcos de guerra israelitas patrulham o mar. Mas vamos abstrair-nos disso, enquanto o mais curto e íngreme funicular do mundo nos deixa à entrada das grutas. Há uma lenda, claro, de uma princesa turca que, transportada por aqui a caminho de um casamento forçado em Tiro, se atirou das rochas e, agora, continua a fazer ouvir os seus choros e lamentos nas reentrâncias das rochas.

No mais pequeno funicular do mundo

Não consigo ouvir os seus lamentos mas, enquanto aprecio os reflexos da luz na água revolta, penso nos lamentos de muitas outras populações que aqui se confrontaram, ao longo dos séculos. Ainda se podem ver os restos de um túnel para caminho-de-ferro aberto pelos colonizadores britânicos e feito explodir pelos resistentes judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Espero que os confrontos humanos não acabem por destruir esta maravilha da Natureza, que não tem culpa de existir junto a uma das fronteiras mais instáveis do mundo.

Os locais de nidificação

À medida que descemos, junto à costa, vamos entrando na Israel da modernidade.
S. João de Acre (ou Akko) é já uma cidade diferente, habitada essencialmente por Árabes, mas que se mostra como uma encruzilhada de povos e culturas. Aí, são os complexos conjuntos monumentais dos Cavaleiros Hospitalários, construídos durante as Cruzadas, que dominam a paisagem da cidade, lado a lado com as mesquitas e os banhos sumptuosos construídos pelos Turcos. Continuando para Sul, entramos em Haifa, com o seu porto movimentado e os seus jardins tranquilos.

O porto de Haifa visto dos Jardins Baha'i

Depois, surge Telavive. A capital económica de Israel é uma cidade vibrante de vida. A avenida marginal faz lembrar Copacabana, com os seus grandes prédios, modernos, de um lado, e a longa praia do outro lado. Abundam os bares de praia, as banhistas atravessam a avenida em trajes de praia, coloridos e reduzidos, e qualquer semelhança com Jerusalém é pura coincidência.

Avenida marginal de Telavive

Ao fim e ao cabo, é isto Israel: uma complexa teia de culturas e modos de viver, em que todos os grupos consideram que têm direito ao seu espaço. E têm, claro! E têm o dever de aceitar os outros, para poderem também eles ser aceites.

Israel, Julho / Agosto de 2009 (Fotografias de Teresa Ferreira)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Chambord - Um castelo verdadeiramente real


Quando se pensa em castelos, pensa-se no Vale do rio Loire. E quando se pensa nos Castelos do Loire, inevitavelmente, pensa-se no Castelo de Chambord. É o maior dos castelos do vale do Loire, mandado construir pelo rei Francisco I, segundo um projecto de Leonardo da Vinci.

Quando se chega ao parque de estacionamento e se avista o castelo, pela primeira vez, o sentimento é de esmagamento, pela sua grandiosidade. Em larga medida, a sua graça e originalidade deve-se às inúmeras torres, torreões e terraços que coroam o castelo. Pode-se subir a esses terraços e vale a pena, porque a vista sobre os jardins é magnífica.
O interior é interessante, ostentando uma decoração renascentista, onde impera o símbolo de Francisco I, a salamandra. repetido mais de 700 vezes. O que eu achei mais extraordinário, no entanto, foi a grande escadaria central, concebida por Leonardo da Vinci, com uma dupla voluta, o que faz com que a pessoa que sobe e a que desce nunca se encontrem.

Disse Henry James: "Chambord é verdadeiramente real." Eu concordo.

Vale do Loire - Abril de 1997 (Fotos de Teresa Ferreira)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A rota modernista de Comillas


Comillas é uma cidadezinha aprazível do norte de Espanha. Tem uma praia concorrida, mas não é isso que a torna especial.

(A praia de Comillas vista do monumento ao Marquês de Comillas)

Nos inícios do século XIX, nasceu em Comillas Antonio Perez. Filho de uma família humilde, emigra para Cuba, onde começa a trabalhar no negócio de exportação de tabacos. Casa com uma herdeira rica, faz o negócio prosperar. Quando volta a Espanha, já é um dos homens mais ricos do país, emprestando dinheiro e barcos ao próprio rei Afonso XII.
Não esquece Comillas. Manda aí construir um palacete e convida o rei a visitá-lo. Afonso XII aceita o convite e passa em Comillas dois verões. Antonio Perez, já então transformado em Marquês de Comillas, quer receber o rei condignamente e manda construir o belíssimo palácio Sorellano (é hoje conhecido pelo nome do arquitecto que o concebeu), em estilo neo-gótico.

(Palácio Sorellano)

O rei não vem sozinho, claro! Traz família, amigos. Alguns querem instalar-se nas proximidades e contratam os arquitectos da moda. É assim que surgem em Comillas várias casas no estilo a que chamamos modernista.
Os marqueses de Comillas constroem a magnífica Universidade Pontifícia (hoje o edifício pertence à Fundação Cervantes) e fazem intervenções no cemitério, com a assinatura de Domenech y Montaner.
(Entrada da antiga Universidade Pontifícia)

Mas o edifício mais espectacular é, sem dúvida, a Casa Capriccio, concebida por Gaudi. Com a sua torre quase mourisca, baseada no trabalho do ferro e na decoração floral, toda em girassóis, destaca-se do casario e justifica, só por si, uma visita a Comillas.

(Casa Capriccio, desenhada por Antoni Gaudi)

Hoje, está transformada num restaurante chinês. Pensamos que estas coisas só acontecem em Portugal. Afinal, não!

(Fotografias Teresa Ferreira)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Szoborpark - Um Parque de Estátuas




A cerca de uma hora de autocarro do centro de Budapeste, andando para sul, encontramos um local verdadeiramente original: o Parque das Estátuas e Gigantescos Memoriais da Ditadura Comunista. Na maioria dos países da antiga Cortina de Ferro, isto é, os países da Europa de Leste com regimes políticos de tipo soviético, a queda do Muro de Berlim acarretou a queda da maioria das estátuas e conjuntos arquitectónicos que povoavam as ruas e praças. Muitas foram destruídas, como se a destruição dos vestígios materiais pudesse apagar as memórias. Tal não aconteceu na Hungria: inteligentemente, o governo pegou nas estátuas, placas toponímicas, e outros vestígios monumentais e guardou-os num parque, onde se preservam as memórias e ainda se ganha alguma coisa com o pagamento das entradas.

Somos recebidos, na imponente entrada, pelos grandes líderes da Revolução, Marx e Lenine. Mas o desconforto começa logo aí, já que eles parecem deslocados, discursando para o espaço vazio. Os soldados empunhando bandeiras revolucionárias e os jovens pioneiros, todos de tamanho descomunal, não entusiasmam multidões proletárias. O conjunto assemelha-se mais a um armazém ideológico, interessante mas folclórico.

Perto da saída, a loja oferece recordações da ditadura comunista: T-shirts com Lenine ou Fidel Castro, reproduções de fardas do exército, pins, bandeiras com velhos slogans comunistas, livros e revistas. O ambiente é o de um nostálgico parque de diversões. Há um grupo de rapazes que compra bonés do Exército Vermelho, com estrela dourada e tudo. Se estivessem no Oeste americano, estariam a comprar chapéus à cowboy. O espírito seria o mesmo.

Budapeste - Julho de 2001 (Fotografias de Teresa Ferreira)